Missão empresarial presente à Batimat 2013 participa de curso da Cátedra da Fiesp com a Universidade Sorbonne

Agência Indusnet Fiesp, com informações de Gabriel Rocha Gaspar 

Durante a Batimat Paris 2013, principal feira internacional do setor da construção, que aconteceu entre os dias quatro a oito de novembro, a missão empresarial organizada pelo Departamento da Indústria da Construção (Deconcic) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) participou do curso de Gestão Empresarial, primeiro produto da Cátedra “Globalização e Mundo Emergente” criada pela Fiesp em parceria com a Universidade Sorbonne.

De acordo com a representante do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Beatriz Stevens, a cátedra é um “canal institucional para o desenvolvimento de projetos de interesse de ambas as instituições”, além de ser uma plataforma de “aproximação entre os dois países, tanto nos planos acadêmico e cultural, quanto empresarial”.

O presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco) e membro do Conselho Superior da Indústria da Construção (Consic) da Fiesp, Cláudio Conz, que participou da missão, concorda. “Fiz questão de participar e é sempre muito útil porque um professor internacional dá uma versão bastante macro das questões. A sala estava lotada, muita gente interessada em trocar esses conhecimentos e se prepara para esse mercado cada vez mais globalizado, em que nós vamos ter que nos inserir. Ou através das grandes corporações ou sendo grandes corporações”, disse.

Uma das precursoras da ideia desde 2009, a diretora titular-adjunta do Deconcic, Maria Luiza Salomé, resumiu o sucesso em números. “Era um curso que tinha um mínimo de 25 participantes e um máximo de 40; a gente levou 37. Então, acho que tá bom, né?”

Do lado francês, a iniciativa também agradou. O organizador pedagógico do curso, Guillaume Chanson, que dá aulas de economia no curso de mestrado da universidade, escolheu dividir os palestrantes, alternando pesquisadores acadêmicos e profissionais do mercado de construção civil. “Conseguimos fazer um equilíbrio perfeito”, avaliou. “Nos três dias que tivemos, foram quatro intervenções: dois professores da Sorbonne e dois profissionais, que costumam dar palestras no mestrado.”

Chanson também destacou um trabalho que, se for muito bem feito, passa despercebido dos participantes. “Fiquei muito feliz com a qualidade da tradução, que permitiu que nós que não falamos português nos entendessemos sobre temas complexos com aqueles que não falam francês”, observou. “Ainda que eu não tenha conseguido fazer intervenções mais interativas, como as que faço com meus alunos – o formato teve de ser um pouco mais expositivo –, foi possível trocar e debater ideias graças à tradução. O que também ajudou neste sentido foi o fato de que os palestrantes enviaram modelos de suas apresentações aos tradutores para que eles pudessem se familiarizar com termos e conceitos, visto que não são especialistas em gestão”.

Também professor na Sorbonne Paris 1, Claude Ménard não ministrou curso nesta primeira edição, mas participou ativamente da formação da cátedra, uma experiência que ele espera que seja duradoura. “O seminário obteve uma resposta muito boa. Mais de 20 projetos surgiram entre trabalhos de planificação urbana, gestão e gerenciamento. Acredito que criamos uma dinâmica entre nossas instituições. Estou otimista como os brasileiros”, brincou.

Para o ministro da embaixada, José Sarkis, as atividades de pesquisa entre acadêmicos e professores do Brasil e da França têm potencial de expansão para além dos limites da universidade e devem servir aos governos e setores privados dos dois países. “França e Brasil têm uma convergência muito forte em termos de valores, sabem trabalhar juntos, sabem estabelecer parcerias juntos, são dois países que avançaram bastante tecnologicamente na área de construção civil”, avalia.

E essa convergência natural é ainda mais arraigada na academia, de acordo com Sarkis. “Há uma comunhão em termos de percepção da engenharia. Muitas das escolas de engenharia no Brasil foram fundadas nos termos das escolas de engenharia francesas. Os termos das escolas de engenharia da França e do Brasil são parecidos, os engenheiros brasileiros e franceses têm facilidade em desenvolver parcerias, conceber novos projetos e executar esses novos projetos. Acho que Brasil e França começam um momento de resgate do potencial e realização deste potencial”, concluiu.

Acordo com Sorbonne é muito importante para a Fiesp, diz Mario Frugiuele, diretor secretário da entidade

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Relações de trabalho e emprego, sustentabilidade, infraestrutura, direito internacional, competitividade e inovação são alguns dos temas que irão mobilizar os esforços da cátedra “Globalização e mundo emergente Fiesp-Sorbonne”, lançada no dia 08/04 pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em parceria com a Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne. A informação é do diretor secretário da Fiesp e diretor da cátedra no Brasil, Mario Eugenio Frugiuele.

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Mario Frugiuele, diretor secretário da Fiesp, dirige a cátedra no Brasil. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Articulador do convênio com a instituição francesa, Frugiuele diz que é a primeira vez que este tipo de acordo é feito pela Sorbonne com uma instituição do setor privado fora da França e que o reconhecimento da universidade francesa é muito importante para a Fiesp. O diretor da Fiesp explica ainda como foram originadas as conversações com a Sorbonne e fala das expectativas para os trabalhos nos próximos três anos.

Leia trechos da entrevista:

Aproximação Fiesp e Sorbonne

Essa aproximação surgiu numa missão que a Fiesp fez à feira Batimat, em Paris, organizada pelo Departamento de Construção (Deconcic) da entidade. Eu conheci o professor da Sorbonne Guillermo Hillcoat [na época diretor da Cátedra das Américas] em um encontro na casa do embaixador brasileiro na França, José Maurício Bustani, junto com o vice-presidente da Fiesp José Carlos de Oliveira Lima. Trocamos impressões e falamos na possibilidade de tentar um relacionamento mais forte entre Fiesp e Sorbonne, ideia compartilhada e incentivada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Em meados de 2011, fomos para a França para assinar um protocolo de intenções entre as entidades. Este acordo foi seguido de uma nova missão à Batimat, em 2011, com uma série de cursos na própria Sorbonne, o que demonstrou grande aceitação do nosso público empresarial a esse relacionamento com o setor acadêmico – especialmente a Sorbonne.

Percebendo a possibilidade de algo mais importante do que simplesmente um acordo de cooperação, e por sugestão do próprio professor Guillermo Hillcoat, ponderamos que o projeto mais importante e viável seria a formação de uma cátedra. Assinamos, portanto, em 2012, o protocolo de formação da cátedra e, em seguida, fizemos a assinatura da cátedra.

Projetos para a cátedra Fiesp-Sorbonne

Nós solicitamos projetos tanto na França como no Brasil e eles estão chegando. As pessoas interessadas, tanto do ramo acadêmico como do setor privado, estão enviando propostas com possibilidades de estudos e de parcerias de projetos dentro da cátedra. Estaremos trabalhando em conjunto nesses três anos e desenvolvendo os projetos de interesse mútuo, tanto da Fiesp quanto da Sorbonne.

Temas básicos

Nesse primeiro momento da cátedra, definimos temas básicos de estudo dentro de nossa programação para o ano de 2013.

Esses eixos básicos são: relações de trabalho e emprego, sustentabilidade, infraestrutura, direito internacional, direito econômico e várias situações estão surgindo com as possibilidades de desenvolvimento, inclusive na área de competitividade e inovação.

Os trabalhos já estão em andamento. Essa visita de lançamento [da comitiva da Sorbonne, nos dias 8 e 9 de abril] é também uma visita de trabalho. Várias reuniões foram feitas em função da programação dos projetos. Entendemos que, no mais tardar a partir de junho, já estaremos transformando em realidade essa ideia surgida em 2009.

Reconhecimento à Fiesp

É um trabalho inovador da academia com o setor privado e a primeira vez que este tipo de acordo é feito fora da França.

A Fiesp é uma entidade que, pela forma como atua – principalmente, em função da posição segura, decidida e dinâmica do presidente Paulo Skaf –, goza de uma confiança recíproca com a Sorbonne, uma universidade fundada em 1257.

O acordo com uma instituição acadêmica desse nível, para nós, é uma grande honra. Acreditamos que os projetos a serem executados neste convênio reflitam a credibilidade e importância das entidades envolvidas.

Relações Brasil e França

Além da situação de desenvolvimento das áreas de interesse comum, tanto em termos de transferência de conhecimento e de ideias, existe também uma situação muito importante que é o aumento do relacionamento entre o Brasil e a França.

De certa forma, essa atitude proativa da Fiesp vem ao encontro dos interesses, claro, da própria situação da indústria.

Quanto maior o nosso relacionamento, maiores as possibilidades de intercâmbio – tanto de conhecimento como de experiências.

Entrevista: Guillermo Hillcoat, coordenador da cátedra Fiesp-Sorbonne na França

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

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Guillermo Hillcoat: Brasil e França tem problemas comuns coma questão da desindustrialização. Foto: Julia Moraes/Fiesp

PhD em Economia na Universidade de Paris VIII, o professor Guillermo Hillcoat , da Universidade de Paris 1 Panthéon Sorbonne, é o coordenador na França da cátedra “Globalização e mundo emergente”, resultado de uma parceria entre a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a instituição francesa.

Mestre em Economia Política pela Universidade de Paris, Hillcoat é consultor de instituições como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Comissão Europeia. É pesquisador no Centro de economia da Sorbonne e foi diretor, entre 2006 e 2012, da “Chaire des Amériques”.

Em entrevista ao site da Fiesp, Hillcoat fala sobre como surgiu a parceria, os objetivos da cátedra e como ele vê com relacionamento com a Fiesp.

Por que a Sorbonne decidiu trabalhar com a Fiesp?

Guillermo Hillcoat – A Universidade Sorbonne tem relações múltiplas, tanto no continente americano como em outras regiões do mundo. A internacionalização das universidades na Europa e, sobretudo, na França, tornou-se uma preocupação relevante e estratégica porque as universidades que não se internacionalizam – ou que se internacionalizam pouco – perdem em competitividade, conceito muito utilizado hoje em economia e na indústria.

Tivemos a chance de conhecer membros da diretoria da Fiesp, inclusive o presidente [Paulo Skaf]. E foi ali que pensamos em trabalhar sobre algo inovador porque, da mesma forma que é a primeira vez que a Fiesp firma um acordo com uma universidade fora do Brasil, para nossa Universidade também é uma inovação fazer um acordo bem amplo, com muito potencial, com uma instituição da sociedade civil, neste caso, uma federação de empresários, industriais, ainda mais por se tratar de uma grande cidade industrial de um país emergente, no caso, o Brasil.

Então, estávamos ambos bastante entusiasmados para desenvolver esta negociação e concluir algo que seja uma instância, de forma organizacional, que permitiria desenvolver aspectos ligados ao ensino, à formação, aqui ou em Paris; realizar atividades de grande público, conferências, mesas redondas, e fazer também diagnósticos setoriais, estudos pontuais, se aproximando de pesquisa. E, para isso, a ideia de criar uma cátedra, que possa ser uma cobertura para essas atividades e eixos de trabalhos.

Em novembro de 2011 foi assinada uma carta de intenções nesta direção. Tudo foi concluído há alguns meses e nós estamos em ponto de ignição do foguete, digamos assim. E depois será a decolagem.

O que França e Brasil tem a aprender um com o outro dentro dessa experiência da cátedra conjunta?

Guillermo Hillcoat – Esta é uma pergunta bem pertinente. Desde o começo, nós consideramos a relação com a Fiesp como uma relação de paridade. O Brasil é uma economia em que existem oportunidades em todos os aspectos, tanto econômicos, industriais, agrícolas, quanto acadêmicos. Tem problemas de mão de obra, de qualificação, de melhoria de infraestrutura.

Hoje, temos problemas que são comuns – aqui e na Europa – como a questão da desindustrialização, o problema do êxodo de empresas com a concorrência asiática, as questões ligadas a pesquisa, desenvolvimento e inovação, com novos produtos e métodos produtivos.

Então, temos problemáticas que hoje são transversais. Não há somente os antigos países industrializados e os países em desenvolvimento como nos anos 60/70. Hoje, existe uma multipolaridade de regiões emergentes, não tem somente os Brics – eles são os mais conhecidos, e o Brasil faz parte –, mas tem uma segunda onda que chamamos dos “neo-emergentes” como África do Sul, México, Turquia e mesmo outros na América do Sul, como Colômbia e Peru, que são economias bem dinâmicas – ainda que de menor dimensão que a do Brasil.

De modo que consideramos esta relação [com a Fiesp] como uma relação de aprendizagem e de colaboração entre iguais, entre pares, e é neste espírito que nós começamos a identificar certos projetos na área jurídica, da competitividade, do meio ambiente, das energias renováveis – áreas na qual o Brasil não somente pode demandar colaboração mas tem ativos a transferir. Por exemplo, na área de energias renováveis como o bioetanol, o Brasil é um país avançado, que está na ponta da produção e das exportações.

Então, as expectativas são boas?

Guillermo Hillcoat – Sim, absolutamente. Estamos, de fato, somente no começo da identificação de possibilidades de colaboração. A cada conversa, seja quando encontro especialistas dos departamentos da Fiesp, seja quando tive a oportunidade de conversar com o Dr. Paulo Skaf, e, também, claro, com o Dr. Mario [Frugiuele], como na reunião desta manhã [08/04] com os dois vice-reitores da Paris 1 que estão conosco, ou nos encontros de pessoas do Derex [Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior] e de outros departamentos, aparecem ideias, sugestões, pistas para desenvolver projetos de pesquisa ou, talvez, workshops, de modo que as possibilidades são enormes e nós estamos apenas no começo da identificação de áreas de colaboração.

* Com tradução de Beatriz Stevens 

Entrevista: Jean Marc Bonnisseau, vice-reitor de Relações Internacionais da Sorbonne

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

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Jean Marc Bonnisseau: trabalho em comum com as empresas pode ser um trabalho de interesse verdadeiramente bilateral. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Em entrevista ao site da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Jean Marc Bonnisseau, vice-reitor de Relações Internacionais da Universidade Paris 1 Pantheon-Sorbonne, fala sobre a aproximação entre a instituição e a Fiesp que resultou na cátedra “Globalização e mundo emergente”.

Leia trechos da entrevista:

Interesse pelo Brasil

As relações universitárias e intelectuais entre a França e o Brasil são muito antigas: Claude Lévi-Strauss foi professor na Universidade de São Paulo, nós temos intercâmbios nas áreas de filosofia, história e geografia há décadas. Nós, da Universidade de Paris, como outras universidades de Paris e francesas, com as universidades brasileiras, especialmente as universidades de São Paulo e do Estado de São Paulo, desde muito tempo. Temos intercâmbios também nas áreas de cinema, de direito, das artes… Então, verdadeiramente, a proximidade intelectual franco-brasileira é extremamente ampla.

Agora, no plano econômico, é verdade que, hoje, o Brasil aparece como país emergente e se tornou, efetivamente, um destino privilegiado do ponto de vista da cooperação universitária. Temos vários estudantes brasileiros que vêm, alguns estudantes em cotutela de doutorado, temos alguns estudantes franceses que vêm estudar e fazer estágios no Brasil.

Então, quando tomei posse há alguns meses, a pessoa que me precedia [Christine Mengin], como vice-presidente encarregada das Relações Internacionais, me disse: “O Brasil é um destino privilegiado, você tem que ir”. E foi a segunda viagem internacional que fiz, no final de agosto, início de setembro 2012. Então, o Brasil é, verdadeiramente, para nós, um elemento extremamente importante para nossa estratégia internacional. E eu diria, para resumir, que o que eu descubro hoje é uma grande proximidade intelectual nos assuntos mais relevantes, de um ponto de vista econômico, evidentemente, os problemas de competitividade, de desindustrialização, de taxa cambial, de direito do trabalho, direito social, todas estas perguntas que estão no cerne de nossas problemáticas na Europa e também estão no cerne das problemáticas da Fiesp, de São Paulo, e, de maneira geral, do Brasil.

E nós sentimos uma grande confiança em todos esses intercâmbios intelectuais que existem desde muito tempo entre a França e o Brasil. O Brasil não é novo para a França, a França não é nova para o Brasil, mas, hoje, efetivamente, existe uma relação, tanto no plano interuniversitário quanto nas relações com a sociedade civil, empresas, todo o Brasil totalmente novo e renovado.

E eu penso também que esta tradição intelectual nos aproxima muito mais do que nós estamos próximos da Ásia e da China. Desta forma, nesta competição internacional, a Europa, o Brasil, talvez a América Latina de uma maneira geral, nós sentimos que temos bastante coisa para fazer juntos, talvez não tendo que passar pelos Estados Unidos, e que realmente temos interesses em comum que se enraízam em uma longa história. O Brasil é também a história portuguesa, um país europeu. Temos uma língua em comum que nos aproxima. Todos esses elementos hoje são fundamentais para nosso interesse em trabalhar com este país, com as universidades mas também com a sociedade civil, as indústrias, enfim, todo o Estado brasileiro.

Esse acordo com a Fiesp, essa cátedra Fiesp-Sorbonne, é realmente, para nós, uma ferramenta essencial para desenvolver todas essas relações num interesse verdadeiramente mútuo entre a França e o Brasil.

Interesse pelo sistema Sesi-Senai

A troca vai acontecer nos dois sentidos. Nós tivemos a impressão, hoje de manhã, de ver toda a força desta organização em torno do Senai-SP [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo]. E na França toda essa questão da formação profissional está no centro de vários debates, particularmente por causa pela taxa de desemprego elevada que temos – e que continua a aumentar. E está claro que a formação profissional não é talvez tão eficaz quanto ela deveria ser no sistema francês para lutar contra o desemprego e ajudar os trabalhadores a adquirir qualificações novas para uma melhor integração no mercado de trabalho. Então, acredito que nós esperamos aprender um pouco e observar essa organização. E talvez importar boas práticas do Brasil para a França, essa questão de uma organização da formação profissional. Este é um dos pontos para mostrar efetivamente como as trocas são bilaterais.

O segundo ponto é que nós temos também na Universidade Panthéon-Sorbonne uma tradição de formação profissional, tanto na formação inicial com contratos de aprendizado e contratos de profissionalização, como na formação contínua. Aqui também temos uma certa expertise em temas que sejam talvez um pouco mais “fundamentais” – no sentido de acadêmicos – do que aqueles tradicionalmente ensinados pelo Senai, mas acredito que podemos também encontrar alguns pontos bem específicos sobre os quais poderíamos colaborar na formação de experts de diferentes níveis, o que pode ser bastante útil e operacional nas empresas.

Penso em algumas áreas nas quais a França é líder. Exemplo: em questões de análise de risco, que são também riscos industriais, como também financeiros etc. Em questões como essas poderemos ter uma cooperação bastante interessante com uma visão bastante aplicada e operacional como é, pelo que entendi das apresentações desta manhã, os objetivos do Senai.

Critérios de avaliação dos projetos

Penso que o ponto principal é que estes projetos sejam desenvolvidos de maneira verdadeiramente bilateral, quero dizer, que seja verdadeiramente uma área de interesse comum entre a Sorbonne e a Fiesp. É o primeiro critério.

O segundo critério, os resultados, não necessariamente de um ponto de vista de publicação científica, mas em todo caso, conseguir realizar verdadeiros trabalhos em comum, utilizando o cruzamento de dados que nós podemos ter na Europa e dados que aqui estão disponíveis. Evidente que uma federação patronal tem acesso a muitos dados, muitas vezes difíceis de adquirir. E pode ser um elemento muito importante. Então, trabalhos em comum com o cruzamento de dados novos e então, um “output” científico em relação aos trabalhos conduzidos.

E o terceiro aspecto, eu diria, a avaliação vai ser feita pelos próprios profissionais. Espero muito que os profissionais da Fiesp, quero dizer, as empresas associadas, os especialistas, os presidentes de empresas, possam dizer “sim – esta formação nos ajudou e nós conseguimos ver sua aplicação prática.

Três anos é um tempo bastante curto para que as ideias desenvolvidas dentro de um parâmetro de pesquisa possam ser implementadas, mas a capacidade de implementar ideias novas me parece um elemento bem importante.

Não falamos até agora, mas podemos falar dos estudantes. Acredito que nossos estudantes podem também se beneficiar, o que pode também ser um critério de avaliação, mediante estágios aqui no Estado de São Paulo. Eu conto bastante com isso. Ou até mesmo projetos de tese em comum.

De novo, três anos pode ser um tempo curto para implementá-las, mas nós temos esse sistema na França de teses feitas entre Universidades e empresas. Podemos imaginar teses entre uma empresa brasileira e uma universidade francesa. E isso seria um forte sinal de sucesso. A tese é verdadeiramente um destaque que mostra que temos interesses em comum, que em três anos conseguimos desenvolver algo e, frequentemente, são cooperações que continuam a durar, por terem se iniciado bem cedo na carreira do jovem pesquisador, que continua a agir como ponte entre as duas instituições.

Mensagem para comunidade acadêmica

Nós já temos projetos em curso nas áreas de competitividade, de direito social comparado, direito do trabalho. Então, o projeto essencial é dizer, hoje, no Brasil, que existem problemáticas que são próximas das nossas. E, nesse ponto, nossos colegas talvez não estejam totalmente informados. O Brasil aparece como um país em pleno desenvolvimento. Então, quando falamos do Brasil, não pensamos imediatamente em problemas de desindustrialização e de competitividade do ponto de vista da Europa.

Então, ajudar nesta “tomada de consciência” e dizer que, sobre estas temáticas, um trabalho em comum com as empresas pode ser um trabalho de interesse verdadeiramente bilateral. Quer dizer, não será simplesmente nós que vamos trazer nosso, digamos assim, “savoir-faire” ou nossas competências,  mas que podemos adquirir também através deste contato direto com empresas e profissionais que estão todos os dias em contato com a “economia real” ou com o “direito real”.

Hoje de manhã estávamos comentando sobre direito ambiental, que é particularmente complexo, sobre questões deste tipo temos muito a ganhar trabalhando sobre uma comparação França-Brasil. Ou até mesmo Europa-Brasil ou América Latina. Enfim, tem várias extensões possíveis. E, então, para nossos colegas, desmistificar um pouco o Brasil, primeiramente, e em seguida, pegar problemas brasileiros e comparar com os nossos, que é o interesse de todos os estudos comparativos, e, em terceiro lugar, esta cooperação com a Fiesp abre o espaço para a cooperação com vários outros parceiros do Estado de São Paulo e com o Brasil de uma maneira geral.

E então nos abre para outras parcerias acadêmicas, o que é sempre bastante positivo para nossas pesquisas e para nossos estudantes. E eu digo também que vocês poderão encontrar, para os seus estudantes em mestrado ou doutorado, oportunidades de estágio no exterior, o que vai lhes permitir uma experiência extraordinária e reforçar a sua empregabilidade.

Gostaria somente de destacar que a Panthéon-Sorbonne é a primeira universidade na área de ciências humanas e sociais na França (história, geografia, sociologia, artes) e uma das primeiras na Europa, sendo também uma das mais antigas.

De forma que nós nos apoiamos em uma experiência de séculos e, para nós, é um novo renascimento: a Europa se projetou nas Américas nos anos de 1500 e, agora, é o sistema universitário que também se projeta para esse novo mundo.

Acredito que será bem proveitoso para nós todos, destacando esta longa tradição, na qual se insere e se enraíza nossas pesquisas, de pessoas que trabalham para o “longo prazo” e sobre várias áreas geográficas [temos, por exemplo, vários especialistas da história da América Latina) e contamos também com esse tipo de especialistas para obter uma análise mais ampla dos fenômenos, não olhando somente para os últimos 10 anos, ou o problema imediato, como, por exemplo, da concorrência com a Ásia.

* Com tradução de Beatriz Stevens 

Entrevista: Nadia Jacoby, vice-reitora de Comunicação e Sistemas da Informação da Sorbonne

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

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Nadia Jacoby: nossas expectativas são, antes de tudo, descobrir o que nós somos capazes de fazer neste ambiente novo. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Durante a visita à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no dia 15 de abril, a vice- reitora de Comunicação e Sistemas da Informação da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, Nadia Jacoby, atendeu a reportagem do site da Fiesp.

Nessa entrevista, Nadia Jacoby fala sobre os interesses comuns que motivaram a parceria e comenta as primeira reuniões de trabalho com diretores da Fiesp após assinatura da “Globalização e mundo emergente”, acordo de cooperação entre as duas instituições.

A parceria Fiesp-Sorbonne

“Foi um feliz concurso de circunstâncias, um encontro não programado entre meus colegas da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne e dirigentes da Fiesp que descobriram um interesse comum para eventualmente montar, juntos, um acordo de cooperação. As discussões tomaram certo número de meses, o que, acredito eu, seja a garantia do estabelecimento de uma relação mutuamente interessante, e hoje, para nós, é quase natural, eu diria, trabalhar com um parceiro que faz perguntas que nós também fazemos. Nós questionamos as coisas como universidade, do ponto de vista acadêmico, e nosso parceiro, a Fiesp, faz o mesmo tipo de perguntas, mas de um ponto de vista muito mais operacional e, eu diria, muito mais pragmático. Em todo caso, do ponto de vista da conduta das relações industriais.”

As reuniões de trabalho com departamentos da Fiesp

“A primeira impressão é de um grande interesse por parte dos diretores dos diferentes departamentos da Fiesp que encontramos sobre esta cooperação em surgimento. Eu diria que se as principais temáticas foram definidas, de certa forma ainda resta tudo a fazer. A parte essencial do trabalho está diante de nós. Então, minha primeira impressão é realmente de um interesse bem forte e importante da parte desses diretores de departamento da Fiesp que compartilharam conosco quem são, o que fazem, quais são suas atividades – e quando falo de departamentos eu penso, inclusive, no Senai-SP e no Sesi-SP que não são, se eu entendi bem, exatamente departamentos da Fiesp, mas instituições afiliadas. De forma que, hoje, para nós, iniciamos essa colaboração, ao mesmo tempo, em bases de interesse comum, de uma dinâmica comum, e de respeito e interesses recíprocos das atividades dos dois parceiros.”

Expectativas

“Acredito que nossas expectativas são, antes de tudo, descobrir o que nós somos capazes de fazer neste ambiente novo. É um novo tipo de acordo, tanto para a Fiesp quanto para a Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne. Não temos o hábito de trabalhar regularmente num período de três anos, período concernente a essa cátedra. Sei que nós iremos construir juntos uma colaboração bem sucedida que vai nos levar também a fazer coisas que talvez não tenhamos feito, de uma maneira que não fizemos até agora. Eu acho que este já é um dos objetivos.”

* Com tradução de Beatriz Stevens