Veja quais são os sete principais desafios do Brasil no comércio exterior

Katya Manira, Agência Indusnet Fiesp

“Estamos migrando de uma Globalização 1.0 para uma Globalização 2.0”, explicou o professor de economia da Universidade de Brasília e colunista do jornal Valor Econômico, Jorge Arbache, durante a centésima reunião do Coscex, realizada na manhã desta terça-feira (17/11) na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. “Nesta nova fase o nexo está entre comércio, investimento, serviços, propriedade intelectual e novos padrões de comércio. É, sem dúvida, algo muito mais complexo e que ainda não entendemos seus contornos, justamente por estamos vivenciando tudo isso.”

Para que não fique isolado e sofra futuramente com essas novas mudanças nos padrões comerciais mundiais o Brasil precisa enfrentar uma série de desafios e, segundo Arbache, os mais importantes são estagnação econômica, demografia, desindustrialização, acordos plurilaterais, serviços, produtividade e isolacionismo comercial, detalhados a seguir.

 

O gráfico mostra que o PIB per capita brasileiro tem sofrido quedas nos últimos anos. A previsão para este ano é de -4,5%. Para 2016, estima-se uma queda de 2,5%. As projeções ainda apontam que uma retomada semelhante ao nível de 2014 (US$ 8 mil) virá apenas em 2022.

Essa condição do PIB per capita brasileiro indica queda na produtividade do país, o que pode causar um “constrangimento fiscal”, segundo Arbache. “As externalidades negativas geram incertezas, que por sua vez, impactam nos financiamentos e nos investimentos públicos e privados.”

Todo país tem, em sua história, um período de “bônus demográfico”. Isto é, uma época em que a maior parte da sua população está em um período economicamente ativo (entre 17 e 60 anos). É quando a nação tem a maior capacidade de produzir, já que gasta menos com idosos e crianças ao mesmo tempo em que a poupança está em alta. Não é coincidência que países como a China tenham pulado de patamar econômico justamente nessa fase.

O Brasil teve seu bônus demográfico precocemente. Hoje, a taxa de natalidade aqui é menor do que países desenvolvidos, como por exemplo, Dinamarca, França e Estados Unidos.  Isso diminui a força produtiva do país, principalmente quando somado à migração da mão de obra para o setor de serviços.

“O Brasil praticamente destruiu esse bônus. Criamos uma massa enorme de pessoas trabalhando em áreas menos produtivas”, lamenta o professor, explicando ainda que esses dois fatores combinados eleva o Custo Unitário de Trabalho, piorando assim, a competitividade dos produtos brasileiros.

A indústria é, por definição, o setor que mais pode criar externalidades positivas e inovação, além de ser o setor que melhor pode inserir um país nas Cadeias Globais de Valor. Quando um país vivencia o fechamento de suas indústrias ele perde inovação, empregos de qualidade e renda. Entretanto a desindustrialização reduz, sobretudo, a capacidade de financiamento do Estado já que é ela a maior pagadora de impostos.

“Se você mata sua indústria e primariza sua pauta de exportação você está piorando a capacidade de funcionamento do Estado. Além é claro de refletir no aumento de importação”, explica Arbache.

Os mega-acordos que estão despontando pelo mundo, como o Trans-Pacific Partnership (TPP) e o Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) possuem capítulos sem precedentes e que vão além do comércio, encampando também questões relacionadas à prestação de serviço, propriedade intelectual, serviços de telecomunicações, investimentos, normas ambientais entre outros.  Juntos os dois acordos citados acima corresponderão por 70% do fluxo de comércio internacional e isso fará com que países que estão de fora tenham problema na hora de comercializar sua produção. “De imediato o TPP causará desvio de comércio e investimento. Pensei na carne da Austrália…”

Apesar de representar 70% do PIB – nível de países desenvolvidos – os serviços no Brasil, diz Arbache, são “caros, ruins e deficientes”. Por estar voltado ao consumo de famílias e não ao fomento de indústrias, esse setor apresenta pouca inovação e parece não buscar novas oportunidades, o que pode ocasionar “consequências graves para os nossos filhos”.

O professor explica que serviços serão o grande gerador de emprego e renda no futuro, mas não se vendidos isoladamente, e sim agregados a um produto. É o caso do iPhone, Netflix, Uber, Airbnb e outros inúmeros exemplos de empresas de serviços que estão crescendo exponencialmente.

“Ainda discutimos Custo Brasil, mesmo sabendo que isso não resolve mais. Existe uma nova ordem de produtividade feita por robôs, inteligência artificial, impressoras 3D e Internet das Coisas”, enfatiza Arbache. “Então as fábricas não vão gerar mais empregos no futuro. Em contrapartida, os softwares e toda a aparagem utilizada para fazer essas máquinas funcionar precisaram de alguém, aumentando ainda mais os empregos na área de serviços.”

Logo, discutir custos de trabalho, otimização da mão de oba e escalas de produtos está perdendo a importância. Agora é preciso discutir que indústria queremos e como ela será.  A Índia e a China, por exemplo, já anunciaram que sua característica industrial está mudando exatamente para esse rumo.

Para ter influência é preciso agir, participar e interagir.

Os acordos comerciais firmados pelo Brasil são pouco expressivos e isolados dos principais fóruns e comitês. Não há projetos coerentes ou realistas, não há estratégia para o Mercosul e estamos ficando de fora das principais discussões globais. O Brasil perde por isso, pois é impossível se privar do fluxo de comércio mundial.

“Estamos aceitando tudo o que nos impõem como se isso fosse neutro, e não é. Isto importa para o Brasil, porque estamos integrados nas Cadeias Globais de Valor, porque a competitividade de nossa indústria e serviços é muito baixa e produzimos pouco conhecimento.”