Foto: Cônsul da Bélgica debate acesso ao mercado europeu para produtos biotecnológicos

O Comitê BioBrasil, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), promoveu nesta terça-feira (13/10) uma mesa redonda sobre o acesso ao mercado europeu para produtos médicos, farmacêuticos e biotecnológicos.

O encontro contou com a participação do cônsul geral da Bélgica, Charles Delagone; do adido tecnológico da Bélgica, Jan Wauters; da  consultora de promoção e investimentos da Embaixada da Bélgica, Cláudia Rolim; do gerente de exportação da Orfit, Matthias Cuypers; do coordenador do BioBrasil, Eduardo Giacomazzi, e do diretor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Antonio Fernando Guimarães Bessa.

Durante a reunião, foi possível entender melhor as oportunidades existentes na Bélgica e conhecer o case da Orfit, empresa belga da área médica que opera no Brasil.

Cerca de 30 empresários belgas e brasileiros participaram da mesa de discussões e conheceram as diferenças mercado belga. O encontro, realizado na sede da Fiesp, foi organizado pelo Consulado Geral da Bélgica no Brasil.

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Mesa redonda na Fiesp sobre o acesso ao mercado europeu para produtos médicos, farmacêuticos e biotecnológicos. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Comitê de biotecnologia vai ajudar a coordenar ações em São Paulo, afirma coordenador do BioBrasil

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

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Ruy Baumer: 'Queremos, como comitê, ser um participante importante na biotecnologia do Brasil'. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Organizar a cadeia produtiva de biotecnologia no estado de São Paulo. Este é um dos objetivos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ao criar um comitê para cuidar do tema, o Combio, de acordo com Ruy Baumer, coordenador titular do Comitê da Cadeias Produtiva da Bioindústria (BioBrasil), ao qual o Combio está vinculado.

Segundo Baumer, que coordena ainda o Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde (Comsaúde), o Combio tem questões específicas para tratar mas atua de modo integrado ao Comsaúde. “A maioria das áreas de inovação, pesquisa e desenvolvimento, fontes de financiamento, demandas e centros de pesquisa [de biotecnologia] é muito parecida ou exatamente a mesma da área da saúde”, explica.

Leia os principais trechos da entrevista com o coordenador do BioBrasil.

Por que a Fiesp criou o Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia?

Ruy Baumer – A Fiesp já contava com o Comsaúde, comitê em que temos a cadeia vertical de todo o setor. Mas a área de biotecnologia engloba outros setores, como o de energia, por exemplo. E o Estado de São Paulo, hoje, não tem nenhuma coordenação de todos os investimentos feitos em biotecnologia.  Então, nós resolvemos criar um comitê para apoiar esta organização.
Por que eles estão estruturados em paralelo e sob a coordenação do BioBrasil?

Ruy Baumer – Os comitês estão separados porque os focos são diferentes. E atuam juntos porque a maioria das áreas de inovação, pesquisa e desenvolvimento, fontes de financiamento, demandas e centros de pesquisa é muito parecida ou exatamente a mesma da área da saúde. Aquilo que é atuação distinta fica em separado; o que é comum fazemos conjuntamente. Para juntar os dois comitês, nós criamos o BioBrasil porque uma indústria pode ser de biotecnologia, mas também pode estar ligada à área de saúde. Nossa ideia é que ele se transforme num departamento, que dentro de seu escopo teria saúde e biotecnologia. Hoje, o BioBrasil é só o guarda-chuva do Comsaúde e do Combio.

De que forma o Combio está atuando com outros departamentos e comitês existentes na Fiesp?

Ruy Baumer – Primeiro, apresentando para os departamentos e comitês existentes o que é o Combio. Todo mundo entendeu que o assunto, que não é o principal tema deles, poderia ser interessante. Então, nós pedimos que eles indicassem pelo menos um participante para participar do comitê, onde nós vamos discutir os assuntos comuns. Todos participam do Combio e atuam naquilo que é demanda comum. O Comsaúde, por exemplo, participa do Combio, com suas demandas relacionadas à biotecnologia: farmacêuticos, produtos médicos, derivados de produtos, pesquisa em laboratórios e convênios que nós estamos fazendo com o exterior na área da saúde.

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Baumer: biotecnologia é um assunto precisa ser desmistificado. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O senhor disse que o setor estava sem coordenação em São Paulo? A participação do Estado nas políticas públicas, em nível nacional, reflete sua relevância?

Ruy Baumer – São Paulo estava sem coordenação nenhuma. As empresas e os centros de pesquisa que atuam no setor estavam tentando encontrar um meio de trabalhar juntos, para poder discutir suas questões. E São Paulo representa mais de 40% dos atores na biotecnologia. Então, nós resolvemos criar um comitê exatamente para ajudar essas entidades, áreas, empresas e setores nas demandas, para poder desenvolver melhor a biotecnologia. Nós precisamos do governo trabalhando junto conosco. Hoje, alguns outros estados estão mais avançados em comunicar seus interesses, embora São Paulo tenha uma atuação mais significativa por conta do dinamismo de suas empresas.

Quais são as metas do BioBrasil?

Ruy Baumer – No Combio, na área de biotecnologia, nossos passos são, primeiramente, organizar o setor no estado de São Paulo, que tem uma participação relevante no país, tanto no desenvolvimento como nas políticas de inovação. Porque ainda tem muita coisa para ser decidida. Ainda tem muita dúvida de como isso é vendido, é negociado. Sempre que se mexe com biotecnologia há algum conflito. Há dúvidas sobre como o assunto será regulado. Tudo tem contato com o ser humano, então, tudo tem regulação. Nós queremos participar para influenciar nessas questões, não só na parte regulatória, mas em temas como financiamento à inovação. Queremos definir o foco e conseguir mais recursos para a inovação.  Não adianta tentar fazer tudo sozinho – estamos trabalhando em convênios, acordos internacionais e parcerias entre empresas e centros de pesquisas brasileiros e estrangeiros. Então, essas são as áreas em que estamos atuando. Queremos, como comitê, ser um participante importante na biotecnologia do Brasil.

Quais são os principais gargalos no setor de biotecnologia?

Ruy Baumer – Em primeiro lugar, ainda há muita coisa para definir em termos de regulação nas áreas de saúde e de agronegócio. Em negócios como petróleo e gás, tem menos. O segundo ponto é a pouca disponibilidade de financiamento para pesquisa. Normalmente, quem trabalha com biotecnologia são centros de pesquisa ligados a pequenas empresas ou empresas inovadoras ou cientistas. Ainda há pouco acesso a esses recursos. Ele é muito complexo, isso tem que ser facilitado. Tudo é muito burocrático. E o terceiro ponto é a questão do conhecimento. É preciso divulgar mais a biotecnologia desde a escola, para não ser um bicho de sete cabeças. E é preciso investir em educação e criação de mão de obra e de centros especializados para trabalhar nesse setor. O Senai-SP vem trabalhando, mas não é suficiente para o Brasil ser um player importante. E estou falando de ações federais, estaduais e municipais. É preciso criar centros de excelência na área de desenvolvimento de biotecnologia. Queremos divulgar ao público o que é biotecnologia e o que pode ser feito. Há ainda pouca informação nas escolas e nos cursos superiores. E o assunto precisa ser desmistificado.

Qual é o papel do governo, tanto o federal como do estado de São Paulo, para desenvolver o setor?

Ruy Baumer – Nossa visão é sempre enxergar o governo como fomentador e facilitador. Ele tem que criar condições para que a inovação exista e para isso precisa colocar à disposição recursos. Ele precisa destravar a burocracia e dar diretrizes de quais são as metas importantes que o país busca na área de biotecnologia, muito mais do que fazer a execução. O que o governo tem que fazer? Aquilo que não é viável para uma empresa privada. É preciso de investimento em longo prazo? O governo entra. É preciso de grande desenvolvimento? O governo entra. Mas tem muita coisa nessa área que pode ser feita por pequenas, medias e grandes empresas, desde que tenham o direcionamento correto, aproveitando até mesmo os recursos existentes. O Brasil tem tecnologia que até Deus duvida, mas está tudo engavetado. Tem muita coisa no papel, muita publicação escrita, mas de prático mesmo, nada. Temos que mudar isso. E é algo em que trabalhamos tanto na área de biotecnologia como na área de saúde.

A indústria vê biotecnologia como despesa ou como investimento?

Ruy Baumer – Há uma mudança de visão. O que a indústria vê hoje é pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou inovação como investimento. Antes ela via isso como despesa; hoje é visto como investimento. O resultado dessa inovação em biotecnologia são produtos biotecnológicos. Pode-se ter biotecnologia num detalhe do seu produto ou num processo ou para fazer perfuração de petróleo sem queimar as perfuradoras. Tudo isso pode usar a biotecnologia. Os remédios, os medicamentos, a genética. Tudo pode ter menos ou mais resultado em biotecnologia. A indústria vê isso como futuro e algumas coisas como presente, mas ela não vê isso como despesa. Ela precisa estar nisso.

A biotecnologia pode ajudar na redução de custos?

Ruy Baumer – Sim. Usando recursos naturais de um lado e até sintéticos do outro é possível conseguir resultados que antes seriam inimagináveis redução de custos, melhoria de meio ambiente, qualidade do produto ou benefícios que o produto proporciona.