No Ecogerma, urgência para melhor gestão da água é um dos focos em discussão

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

A 8ª edição do Congresso Ecogerma, realizado nesta quarta-feira (19/10) na Fiesp, trouxe para o debate dois temas centrais: a gestão da água e o Acordo de Paris: as oportunidades para as energias renováveis.

Ao classificar como marco corajoso o Acordo de Paris, o cônsul-geral adjunto da Alemanha em São Paulo, Uwe Wolfgang Heye, enfatizou que o próximo passo é a adoção de medidas práticas a partir das próximas conferências do clima. Ele reforçou o fato de a Alemanha já ter feito a transição de sua matriz energética, privilegiando-se a energia renovável. O desafio atual, em sua opinião, é encontrar soluções técnicas para se enfrentar a escassez e a ameaça às reservas naturais do planeta.

Para Nelson Pereira dos Reis, diretor de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp, há o interesse de o Brasil e a Alemanha debaterem as questões ambientais. Ele apontou a necessidade de um forte trabalho junto à comunidade, especialmente em função da ratificação do Acordo de Paris pelo Brasil e outros países, pois há metas a serem atingidas e é essencial a participação no processo regulatório para que ele seja efetivado.

Mas Reis lançou um questionamento: “Saímos da crise hídrica. Bem, se é que saímos…”. Em sua avaliação, há lições aprendidas com a crise hídrica, em São Paulo, entre elas, urgência em melhorar a gestão da água; a segunda, não se considerar apenas aspectos estatísticos e séries históricas, mas sim avaliar a questão da crise hídrica de forma permanente e contínua. “A crise requer o envolvimento de todos. A indústria contornou em parte a crise hídrica porque tinha seus planos de contingências, mas mesmo assim muitas empresas tiveram suas atividades limitadas. Caso contrário, o cenário seria pior”, alertou.

Samuel Barreto, gerente de recursos hídricos da TNC no Brasil, lembrou que a crise hídrica deu sinais de alerta desde 2010 e os níveis dos reservatórios começaram a cair vertiginosamente. “Com o descompasso entre oferta e demanda, utilizou-se o volume morto, quase zerando a reserva técnica”, avaliou. Para ele, trata-se de situação crítica ainda não superada e um risco gritante quando se trata de 22 milhões de habitantes na capital, o que representa 20% do PIB brasileiro, sem contar os prejuízos ao setor produtivo. A crise de água registrada em São Paulo, em 2014-2015, foi a pior dos últimos 100 anos.

O desmatamento das bacias e áreas de mananciais, a expansão descontrolada e a impermeabilidade do solo, por exemplo, são apontados como causa. A mudança climática e o fato de a cidade se tornar em uma ilha de calor agravam o quadro. A solução: governança da água, reúso, apostar-se em infraestrutura verde que considere a conservação e a restauração de áreas críticas, na opinião do expositor. De acordo com o especialista, em 2025, o déficit será quatro vezes maior. As previsões das Nações Unidas também não são promissoras: 40% da reserva hídrica mundial poderão encolher até 2030.

Desde a crise foram abertos mil poços, que se somam aos 12 mil já existentes, alertou Ivanildo Hespanhol, diretor do CIRRA, ao tratar do uso das águas subterrâneas. “O acesso à água sem saneamento se traduz no direito de poluir. 80% da água se transformam em esgoto. Não vejo a produção de água hoje como segura”, disse Hespanhol, ao contestar a falta de arcabouço legal e de vontade política em relação ao recurso hídrico. Ele instigou a se criar uma Política Nacional de Reúso de Água e revelou que já é possível obter-se água potável a partir do reúso com o auxílio de sistema de membranas que barra os contaminantes. “É um processo incipiente, mas que vem crescendo, e o esgoto também está aumentando o seu volume”, concluiu.

“Se a crise passou, ainda estamos em um cenário de crise, pois o problema não foi solucionado, refletiu Cilene Victor, coordenadora do Centro Interdisciplinar de Pesquisas da Faculdade Cásper Líbero. Nos últimos50 anos triplicou a retirada de água da natureza e seria preciso termos 3,5 planetas Terra para responder à demanda. Boa parte da culpa é do consumo desenfreado. Ao referir-se à mudança climática, frisou os efeitos nefastos que carrega como o acesso à água cada vez mais difícil e a urgência alimentar.

“Há o perigo de se naturalizar os desastres. Se diz que a culpa da natureza e não do homem”, comparou, ao criticar o tratamento dado pelos meios de comunicação quanto ao tema mudança climática e que não forma uma robusta opinião pública. “A Terra sempre enfrentou mudanças drásticas. A mudança climática não é ameaça ao planeta, mas ao homem”, completou.

Acordo de Paris: janela de oportunidades

Os debates da tarde ainda contaram com Ana Paula Shuay, superintendente de negócios do Desenvolve SP, com foco em eficiência energética e inovação; e o brigadeiro Aprígio Azevedo, diretor de projetos da Fiesp. Para Azevedo, o Acordo de Paris é um balizador no âmbito das relações internacionais e indutor da construção de caminhos em direção a uma economia de baixo carbono. Ainda na percepção da Fiesp, o Acordo estabelece incentivos à utilização de fontes renováveis de energia e prioriza o uso sustentável da agricultura, da pecuária e florestas com foco na erradicação da fome no mundo. Nessa avaliação, ao se estimular o debate sobre precificação do carbono e a troca de informações tecnológicas e científicas entre países, cria-se um ambiente propício à modernização dos processos industriais.

Nesse momento, 81 países já ratificaram o Acordo de Paris, consensuado na COP21, em 2015, representando 61% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Ou seja, o Acordo passa a vigorar plenamente no dia 4 de novembro deste ano.

Na segunda parte do encontro, ainda participaram Antônio Celso de Abreu Junior, sub-secretário de Energias Renováveis do Estado de São Paulo, que tratou das políticas públicas para o desenvolvimento do setor; Alexei Macorin Vivia, diretor-presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE); e Rafael Zambom, docente do European Energy Manager (Eurem).

O Ecogerma é um dos encontros mais representativos na área de meio ambiente, energia e infraestrutura e o maior evento sobre sustentabilidade realizado pelas Câmaras de Comércio Alemãs em toda a América Latina.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539710656

Gestão da água e Acordo de Paris foram os temas do Congresso Ecogerma. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp