Para especialistas, investir em qualidade de vida aumenta a produtividade e traz retorno

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Na manhã desta terça-feira (28/01) foi realizada, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mais uma reunião do Grupo de Estudos em Saúde Corporativa, iniciativa da Diretoria de Esportes e Qualidade de Vida do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP).

O encontro reuniu médicos do trabalho e gestores da área de medicina do trabalho e qualidade de vida de empresas de diversos setores como Banco Santander, Apsen Farmacêutica, Grupo Abril, Natura, Casas Pernambucanas e General Electric, entre outros.

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Ricardo De Marchi coordenador do Grupo de Estudos em Saúde Corporativa (Gesc) do Sesi-SP. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Ricardo De Marchi, médico e coordenador do Grupo de Estudos em Saúde Corporativa (Gesc) do Sesi-SP, destacou a importância desse encontro para as indústrias que têm como foco a produtividade. Segundo ele, a relação da produtividade com a saúde ainda é muito pouco discutida e valorizada. E a mudança desse cenário é uma das bandeiras desse grupo. De Marchi ressaltou também a importância de uma aproximação entre a Medicina do Trabalho e a Medicina Assistencial, de modo que elas sejam vistas de uma só maneira – a Saúde Corporativa.

O encontrou contou com a palestra do gerente de Qualidade de Vida do Sesi-SP, o médico Eduardo Ferreira Arantes, autor dos livros “Retorno Financeiro de Programas de Promoção da Segurança, Saúde e Qualidade de Vida nas Empresas” e “Ciências da Vida Humana”.

Arantes falou da importância de escolhas e mudanças. “Eu mesmo troquei o estetoscópio pela gravata, o bisturi pela caneta, o remédio pelas feiras. Mas a troca mais difícil que tive que fazer na minha vida foi trocar a doença pela saúde. O médico que trata a doença se sente infinitamente mais poderoso que aquele que promove a saúde.”

O gerente de Qualidade de Vida do Sesi-SP apresentou dados em que procurou mostrar como os investimentos em qualidade de vida dão retorno às empresas, mas advertiu: “Quem simplifica a Qualidade de Vida não vai ter resultado.”

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Eduardo Arantes na reunião do Grupo de Estudos em Saúde Corporativa do Sesi-SP: medir retorno é importante para avaliar resultados dos investimentos em Qualidade de Vida. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“Os médicos do trabalho deveriam receber comendas nacionais e internacionais”, ironizou Arantes, justificando: “A gente reduz em muito o uso do sistema de saúde. Noventa por cento das grandes empresas têm convênio médico. Olha o impacto que a gente tem na sociedade.”

O outro benefício de se investir em qualidade de vida nas empresas, além da redução de custos de saúde e melhora na produtividade, é a atração e retenção de talentos. “Eu me lembro de um exame admissional de uma trainee em que questionei qual o interesse dela em trabalhar nessa empresa. E ela me disse: ‘vocês têm academia, têm ambulatório de nutrição, têm avaliação cardiológica, têm uma boa bateria de exames periódicos. E isso me atraiu vir para cá’.”

O especialista recomendou, no entanto, atenção redobrada no desenvolvimento de um programa, adequando investimentos e medindo os retornos. Segundo ele, é preciso entender que mudança de estilo de vida, como prevenção, é uma iniciativa de longo prazo e que para cada empresa há um modelo apropriado. “Academias em empresas nem sempre vão ser o caminho, pois os 20% de funcionários que participam são pessoas que já cuidam da saúde”, disse ele e acrescentou: “Folderzinho de hipertensão não é programa de qualidade de vida. O programa de qualidade de vida tem que ter indicadores.”

Um erro comum das empresas é encarar os custos médicos como único parâmetro do cálculo do Retorno sobre o Investimento (ROI), explicou o especialistas. “Nós, que somos médicos do trabalho, às vezes colocamos o ROI e apresentamos o custo. Na hora de demonstrar o retorno colocamos como ‘pessoas mais felizes’. Mas esse argumento para as empresas não cola.”

Reflexo nos custos da saúde

Para qualquer programa ter adesão é necessário que ela seja de ‘cima para baixo’, isto é, da alta direção para os demais funcionários.

Um dos problemas de saúde que tem maior custo financeiro e produtividade para as empresas é relativo aos Transtornos Mentais e Comportamentais. Arantes apresentou os dados de um programa em que ele participou e que foram avaliados os líderes das empresas, como diretores e gestores. E exemplificou como esse fator impactou o custo econômico dessa empresa.

Segundo o gerente de Qualidade de Vida do Sesi-SP, o Brasil tem apresentado a maior incidência, no mundo, desse tipo de problema de saúde. E esse fato afeta toda a sociedade e também o mundo do trabalho. “Aliás, como diz o doutor Renê Mendes: ‘Todos os adoecimentos estão relacionados com o trabalho!’”

Embora muitas vezes sejam intangíveis, os investimentos em promoção de saúde e qualidade de vida trazem reflexos claros para as empresas por conta das exigências como o Fator de Acidente Previdenciário (FAP), os Riscos de Acidente do Trabalho (RAT) e o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), salientou Arantes. “Os custos de afastamentos, entre  os anos de 2000 e 2001, foram de R$ 2 bilhões. O equivalente a 2 Itaquerões”, comparou, em referência ao estádio de futebol construído para a Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil.

Finalizando sua palestra, ele citou uma frase de Guimarães Rosa: “Sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, ressaltando que a Segurança e Saúde do Trabalho e Qualidade de Vida são as chamadas atividades-meio e dependem dos indivíduos a tarefa de preservação da própria saúde.

O papel do médico corporativo

Depois da apresentação sobre retorno financeiro, foi realizada uma mesa redonda sobre a relação do médico corporativo e sua relação com provedores de saúde. Entre os assuntos do debate, os convidados falaram sobre a integração entre saúde ocupacional e saúde assistencial.

“A gente não consegue promover saúde corporativa se não houver integração entre ocupacional e assistencial. Nós, médicos do trabalho, estamos muito acostumados a dizer ‘assistencial não é meu’, mas o indivíduo é um só, a saúde é única”, disse Patrick Makhlouf, gerente médico e gestão de pessoas da Natura.

Para ele, os gestores são os grandes responsáveis por promover essa integração e mostrar aos médicos a importância da troca de informação entre eles. “Sem integração, prejudica o colaborador e atrapalha o resultado na empresa.”

Neusa Burbarelli, da área de Recursos Humanos da Editora Abril destacou a questão da qualificação dos profissionais da área ocupacional. “Não importa o projeto que seja criado, a proposta de integração, se não tiver gente aberta para compreender esse contexto, não consegue executar. E a gente não tem gente qualificada atualmente”, lamentou.

Eduardo Arantes, do Sesi-SP, ressaltou mais uma vez a importância do exame médico periódico. “É a principal ferramenta da promoção da saúde, segurança e qualidade de vida nas empresas.”