Falta de ‘previsibilidade’ é o maior problema do setor de construção

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

A solução para os problemas que afetam a cadeia produtiva da construção pode ser sintetizada em uma só palavra: “previsibilidade”. A opinião é de Frederico Bussinger, consultor do Instituto de Desenvolvimento, Logística, Transportes e Meio Ambiente (Idelt), ao participar na manhã desta segunda-feira (21/07) da reunião do Grupo de Trabalho de Responsabilidade com o Investimento do Departamento da Indústria da Construção (Deconcic) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“A palavra-chave é previsibilidade. Eu acho que ela deveria ser uma bandeira do setor˜, disse ele, mencionando alguns dos gargalos abordados na reunião por representantes da área que afetam a execução das obras e o desenvolvimento da cadeia produtiva – entre eles, a dificuldade de obter licenças ambientais.

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Gargalos do setor foram abordados no encontro. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


A reunião contou com duas apresentações: a de Fernando Valverde, presidente da Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção Civil (Anepac), e a de Afonso Mamede, presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema).

Valverde destacou a contribuição do setor de agregados para a construção. “Areia e brita constituem a base da construção civil˜,  lembrou, acrescentando que o setor tem tamanho bruto de R$ 19 bilhões e vem crescendo anualmente de 2 a 4%.

Segundo o presidente da Anepac, o setor vem registrando melhorias no processo produtivo e avanços significativos em governança corporativa, enquanto prevê, para o futuro, maior grau de complexidade e dificuldade na outorga de licenças, um crescimento das ferramentas de Tecnologia da Informação para controle de custos, planejamento, controle de estoques e integração de sistemas e a excelência em segurança e saúde no trabalho.

Mas esse crescimento pode ser afetado por alguns dos principais problemas. Um deles, ressaltou Valverde, é a insegurança jurídica, citando o novo marco regulatório. “Uma mudança muito profunda foi feita e o setor está sendo penalizado”, reforçou.

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Valverde: gestão na mineração deveria ser descentralizada. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Outros gargalos, segundo ele, são a elevada carga tributária e as diferenças de valores de impostos em cada unidade federativa, além de fatores como as deficiências logísticas, dificuldades crescentes para obtenção de licenças e a inexistência de planejamento. “Toda vez que se faz um plano diretor, exclui-se o setor˜, disse Valverde, citando como exemplo o município de São José dos Campos e de Caraguatatuba, onde, segundo ele, estão proibidas as extrações de areia. “Isso é muito grave.”

De acordo com Valverde, o país tem areia em abundância, mas as restrições têm levado as empresas do setor a cada vez mais terem que buscar esse insumo em lugares mais distantes. “O transporte é tudo por caminhão. Areia e brita nunca vão faltar, mas a questão é a que preço vai chegar.”

O que falta para o setor, segundo ele, é planejamento. “Acho absurdo a gestão ser feita pela União”, concluiu Valverde, sugerindo a descentralização para os governos estaduais preparados para assumir essa gestão.

Máquinas e equipamentos para construção

Afonso Mamede, presidente da Sobratema, disse que a associação tem procurado desenvolver pesquisas e estudos para fornecer informações ao mercado. E que cinco gargalos foram identificados nos setores de máquinas e equipamentos para construção: mão de obra, questões tributárias, falta de planejamento no canteiros de obras, investimentos e pós-vendas.

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Mamede: lentidão nas liberações dos projetos, por parte do governo, é outra dificuldade que paralisa obras. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

De acordo com o estudo, a falta de qualificação da mão de obra interfere na segurança e na qualidade das obras, ocasionando ainda baixa produtividade e elevado nível de desperdício. É preciso, assim, investir na certificação da mão de obra por órgãos profissionais qualificados e independentes.

“Outro drama que temos são as barreiras fiscais e alfandegárias”, disse Mamede. Ele criticou a perda de competitividade devido à tributação de Imposto Sobre Serviços (ISS) referente a operações sobre o valor total do equipamento e a legislação tributária para a industrialização de pré-moldados.

A lentidão nas liberações dos projetos, por parte do governo, é outra dificuldade que paralisa obras. Segundo o presidente da Sobratema, é preciso maior previsibilidade na liberação dos recursos e mais rapidez na resolução de questões jurídicas e ambientais. Já pelo lado das construtoras e empreiteiras, é necessário evoluir na análise prévia de riscos de projetos e no cumprimento de prazos, além de constituir uma visão de longo prazo.

Na liberação de investimentos, um dos problemas é a avaliação de contratos das obras com base exclusivamente no preço. “O baixo custo tem impacto na qualidade das obras˜, apontou Mamede. Ele disse ainda que é preciso uma reavaliação do modelo de licitações e um exame diferenciado das contratações feitas por intermédio do Regime Diferenciado de Contratações (RDC) e Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Por fim, o setor convive com dificuldades para obter peças de reposição. Tanto por falta de pessoal para executar a instalação como por fatores como preço alto, falta de peças e demora no envio e entrega da peças.

>> Veja as apresentações feitas durante a reunião  

Mão de obra

Abílio Weber, diretor da escola “Orlando Laviero Ferraiuolo” do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), especializada em construção, disse que a unidade forma anualmente 9 mil pessoas por ano e que a cada ano, em média, o Senai-SP coloca no mercado 106 mil profissionais dentro de atividades que atendem à construção civil. Segundo ele, no entanto, as construtoras ainda privilegiam mão de obra não qualificada.

“Qualificar não é treinar. É dar a ele condições de, ao entrar numa entidade laboral, saber qual é a atuação dele e a consequência de sua ação. Capacitar e qualificar é muito mais abrangente. Quando tenho pessoa qualificada tenho redução de perdas, redução de acidentes, tenho mais produtividade˜, ressaltou.

Outros convidados

O superintendente de Orçamento Programação e Controle da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do Estado de São Paulo, Silvio Vasconcelos,  disse que o organismo vem procurando qualificar o sistema de contratação. Outro convidado, o representante da Caixa Econômica Federal, Sergio Henrique de Andrade, afirmou que a falta de planejamento nos projetos muitas vezes tem dificultado a liberação de pagamentos.

Já Eurimilson João Daniel,  da Sobratema, alertou que as empresas têm enfrentado dificuldades com o fluxo de caixa. Mario Humberto Marques, da Alusa Engenharia,  reclamou das dificuldades com licenças ambientais. Por fim, o consultor Fernando Garcia mostrou preocupação com a queda de 40% do nível de investimento na indústria de transformação como um todo na carteira do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).  Segundo ele, a falta de investimentos pode ter reflexos mais à frente na capacidade de atendimento do setor de construção civil às demandas do país.

Avaliação

Para Manuel Carlos de Lima Rossitto, diretor titular adjunto do Deconcic,  a reunião foi bastante positiva. “A riqueza desse GT é que a gente tem todas as etapas da cadeia produtiva participando com ideias e conhecimentos profundos. Nosso foco é a obra rodando. Com isso, toda cadeia é beneficiada.”