Entrevista: Glaucia Terreo, representante da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil, fala sobre a evolução dos relatórios de sustentabilidade

A coordenadora de atividades da GRI no Brasil conta nessa entrevista como começaram e como estão evoluindo os relatórios de sustentabilidade, como está a aceitação no Brasil e ainda quais são os benefícios para as empresas ao reportar seus impactos.

Por Karen Pegorari Silveira

Um relatório de sustentabilidade é um descritivo que apresenta para a sociedade o desempenho econômico, ambiental, social e de governança de uma empresa. Ele é o meio pelo qual a empresa pode mostrar seus impactos, tanto positivos quanto negativos, e medir suas ações para traçar novos objetivos e mudanças necessárias.

No Brasil, mais de 200 empresas já utilizam as diretrizes do GRI (Global Reporting Initiative) para reportarem seus impactos e o mercado indica um crescimento cada vez maior de empresas interessadas em declarar seu desempenho.

Os benefícios vão desde o incremento de valores positivos à imagem da empresa e aumento da fidelidade à marca até a possibilidade de comparação do desempenho organizacional entre outras organizações.

Leia na íntegra a entrevista que conta mais sobre essa diretriz:

Como começaram os relatórios GRI e como este tipo de ferramenta de gestão e comunicação já evoluiu até os dias de hoje?

Glaucia Terreo – A GRI nasceu formalmente em 1997. Não havia outro padrão internacional de relato na ocasião, existiam apenas experiências isoladas de empresas, normalmente as mais poluidoras e com grandes impactos, atendendo críticas externas de ativistas, principalmente depois de Exxon Valdez, Bopal etc. Uma conversa sobre a necessidade de mais informações acerca das empresas nasceu com o acidente da Exxon Valdez. Nessa época, investidores, institucionais (fundos de pensão, principalmente) começaram a se questionar sobre seus investimentos. Muitos tinham valores e princípios escritos mas se viram coniventes com o acidente, pois eram investidores da empresa causadora do acidente. Essa conversa passou pela Rio92 – sobre instrumentos para a sustentabilidade – e evoluiu até o nascimento formal em 1997. A GRI era um projeto dentro da Coalition for Environmentally Responsible Economies (CERES). Em seguida, o projeto GRI ganhou uma plataforma mundial ao se aliar ao PNUMA – e em 2002 tornou-se uma organização independente sediada em Amsterdã, na Holanda. A parceria com o PNUMA ainda existe e é de extrema importância para a GRI. Há outros parceiros desse mesmo nível como a OCDE, o Pacto Global e a ISO26000. No processo de criação os stakeholders foram representados por especialistas, como Fabio Feldmann, do Brasil. Assim como o Fábio, estiveram lá especialistas dos mais diversos países e áreas de atuação. O objetivo do projeto GRI, depois ONG GRI era, e ainda é, o de criar diretrizes para que organizações pudessem relatar informações Environment, Social and Governance (ESG). Isso ajudaria investidores a tomarem decisões mais fundamentadas, mas também ajudaria internamente as empresas a gerirem seus negócios de maneira mais sustentável. Por exemplo, se você passa a medir “resíduos, efluentes e emissões” e a publicar essas informações, a lógica e a inteligência vão mostrar que você pode ser mais: econômico, ao evitar multas e autuações e a economizar recursos de forma monitoradas; ambientalmente correto, ao gerir e otimizar os recursos naturais; socialmente responsável, cumprindo sua obrigação de evitar qualquer tipo de problema na sociedade, como um vazamento, que depois se torna um problema ambiental e, posteriormente, um problema econômico,  e por último, atraente aos investidores, já que a gestão dos temas representa menos riscos para os negócios.

Quantas versões do GRI existem?

Glaucia Terreo – Em 1997, a GRI começou a trabalhar na primeira versão das suas Diretrizes – a G1 – que foi utilizada como rascunho por cerca de 20 empresas no mundo. Em 2002, a GRI lançou a G2 – na ocasião da Rio+10 – e foi reconhecida no documento final da Conferência como uma das soluções para a sustentabilidade. Depois disso, mais empresas começaram a utilizar o padrão. Em 2006, a GRI lançou a G3, que foi amplamente utilizada, inclusive no Brasil, e tivemos um aumento exponencial de organizações utilizando o padrão. Em 2011, a GRI lançou a G3.1, que continha mais itens sobre a questão de gênero, direitos humanos e comunidade. As principais mudanças da G1 para a G3 foram: maior clareza das definições por meio dos protocolos e ênfase na materialidade dos temas a serem relatados. Os princípios tornaram-se mais claros e as empresas passaram a utilizar de forma mais significativa. Do G3 para G4, houve um incremento na qualidade técnica dos indicadores e protocolos, prescritividade da materialidade e cadeia de fornecedores.

Quais os principais objetivos das novas diretrizes do GRI – G4?

Glaucia Terreo – Em 2013, a GRI lançou sua versão mais madura, a G4 – já traduzida para o português. As principais características desta versão é o fato de ser mais amigável; possui maior rigor técnico – os temas anticorrupção e emissões e energia foram revisados em profundidade para facilitar o uso por parte das empresas e alinhar com o Carbon Disclosure Project (CDP) e Greenhouse Gas (GHG) para emissões e energia; maior foco e prescritividade no processo de materialidade e determinação de limites de seu relato; e, ainda, há um foco maior  em fornecedores e no processo de integração de relatos

Como está a adesão a essas novas diretrizes no Brasil?

Glaucia Terreo – A aceitação está sendo muito boa. Algumas empresas ficaram um pouco desconfortáveis com o foco na cadeia de fornecedores e materialidade, mas elas esquecem que o relato que fazem é “no modelo GRI” e não “para a GRI”. É na, verdade, para a própria organização e para seus stakeholders. Ou seja, a GRI está melhorando para ajudar ainda mais as organizações a gerenciarem suas questões Environment, Social and Governance (ESG) e os riscos inerentes aos negócios. Não é possível mencionar as organizações que estão utilizando o G4, porque são ainda conversas internas, mas temos bastante empresas nesse desafio. A próxima safra de relatos já apresentará versões G4. Em 2013, contabilizamos 210 empresas com relato GRI aqui no Brasil.

Quais os principais benefícios para as empresas ao adotarem as novas diretrizes em seus relatórios?

Glaucia Terreo – Mais fácil para utilizar devido ao rigor técnico, também está mais amigável. Há um manual de implementação para amparar a utilização e, como ele já traz as questões mais atuais da sustentabilidade, o usuário estará mais em sintonia com a agenda internacional de sustentabilidade. O tema Direitos Humanos, por exemplo, já foi trabalhado usando os Princípios da ONU para DH e Empresas, e outras sinergias, que podem ser conferidas no final do G4 e, para utilizar, não precisa pagar nada para a GRI, somente fazer o download e pronto.