Especialista em prevenção a fraudes bancárias aponta ações cautelares para empresas

Edgar Marcel, Agência Indusnet Fiesp

As fraudes em pagamentos por meio de operações bancárias, via internet ou até mesmo em boletos, são uma realidade que traz prejuízos e transtornos para as empresas.

Durante o seminário Fraudes na Indústria, promovido nesta quarta-feira (31/10) pelo Departamento de Segurança (Deseg) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), especialistas apresentaram essas práticas a empresários, que conheceram meios de evitar tais ocorrências em suas empresas.

Paulo Renato Sivieri, representante da Subcomissão de Prevenção a Fraudes Documentais da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e gerente regional de Segurança em São Paulo do Banco do Brasil, apontou uma tática dos golpistas que já causou prejuízos milionários. Eles alteram as informações constantes no código de barras das faturas a serem pagas e desviam os valores a outras contas.

Paulo Renato Sivieri, representante da Subcomissão de Prevenção a Fraudes Documentais da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e gerente regional de Segurança em São Paulo do Banco do Brasil. Foto: Everton Amaro

A falsificação do boleto, segundo Sivieri, pode ocorrer de diferentes maneiras. “Em ambientes externos, como gráficas, pessoas que lidam com impressão de documentos adulteram os dados no código de barras. A empresa recebe o boleto já adulterado, efetua o pagamento, mas o dinheiro cai na conta do falso cedente”, explicou.

Outra modalidade de fraude acontece em trânsito: “A empresa emite uma carta ou cheque para pagar este tipo de boleto, encaminha ao seu banco pagador via mensageiro ou motoboy [identificados em investigações como partícipes em grande parte dos casos]. Entre a saída da empresa e a chegada ao banco, há uma substituição do boleto: o golpista produz o boleto falso com os dados verdadeiros e, no banco, o crédito acaba indo para uma empresa de fachada”, disse o especialista.

No retorno, continuou Sivieri, o mensageiro se encontra com o aliciador, que, a partir da autenticação feita no banco no documento substituído, promove uma autenticação no documento verdadeiro e este retorna para o financeiro da empresa para fazer a conciliação.

“Ocorre, em tese, uma autenticação fraudulenta dentro de um documento verdadeiro, que estava no departamento financeiro antes da emissão. E a saída desse valor é muito rápida”, alertou Paulo Renato Sivieri, que ressaltou ainda a dificuldade de rastrear estas movimentações financeiras devido à pulverização de contas que recebem esses valores.

Prevenção

Para o especialista, as empresas devem investir em segurança da informação. “É preciso contar com regras, com segundas autenticações, sejam elas por cartão de senhas ou captchas [ferramenta que impede que softwares executem ações automáticas]. Cada banco tem suas precauções para garantir a segurança de seus clientes, principalmente os maiores”, esclareceu Sivieri.

Sivieri afirma que as fraudes acontecem por causa da cobrança sem registro. “Há um incentivo para que os bancos vão junto aos clientes e seus gerentes, para adotarem a cobrança registrada. É a garantia de que os sacados e cedentes sejam preservados”.

Em alguns casos, empresas chegam a criar departamentos antifraude. “Redução de perdas é investimento”, finalizou.

Nota Fiscal Eletrônica é um projeto inovador, mas tem riscos, alerta presidente da NF Brasil

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

A Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) oferece uma série de benefícios durante as transações comerciais. Entretanto, o sistema pode ocasionar alguns riscos às empresas, como fraudes e corrupção de arquivos. O alerta é do presidente da NF e do Brasil – Grupo TAB, Antonio Gesteira, painelista do seminário Fraudes na Indústria, realizado nesta quarta-feira (31/10) pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O especialista apresentou cases de fraudes sofridas por empresas dos mais variados portes e segmentos. Entre os exemplos, destacou a invasão por um grupo de ciberativistas intitulados Anonymous Brasil, que na terça-feira (30/10) atacaram e deixaram fora do ar páginas de NF-e dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Bahia, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Goiânia e Minas Gerais.

“A paralisação do sistema de emissão NF-e pode trazer um custo gigantesco, que não dá para mensurar, para as empresas e o Brasil”, avaliou Antonio Gesteira. Segundo ele, as fraudes são aplicadas com mais frequência nos setores mais lucrativos da economia.

Arquivos

Gesteira alertou para a importância de se organizar os arquivos de NF-e emitidos pelas empresas e, também, os documentos fiscais recebidos pelos fornecedores. Os arquivos, segundo o especialista, precisam ser guardados por no mínimo cinco anos, para eventuais conferências do Fisco. “As empresas não se deram conta da importância deste documento”, concluiu.

Seminário na Fiesp debate fraudes na indústria

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

Realizado na manhã desta quarta-feira (31/10), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o seminário Fraudes na Indústria apresentou os conceitos, ameaças e estratégias de prevenção de fraudes cometidas contra a indústria e seus componentes financeiros e de pagamentos.

O evento foi coordenado pelos diretores do Departamento de Segurança (Deseg) da Fiesp, Ricardo Franco Coelho e Fernando Só e Silva, que ressaltaram a missão do Deseg, de atuar em prol da melhoria da segurança empresarial e pública do Estado de São Paulo.

“Esse encontro é importante para que as pessoas se conheçam, façam network, troquem informações sobre as melhores práticas, o que está dando certo, o que não está dando certo, e levar para as organizações”, explicou Coelho.

Da esquerda para a direita: Paulo Roberto Hummel (consultor da FGV), Ricardo Franco Coelho (diretor do Deseg) e Fernando Só e Silva (diretor do Deseg), na abertura do seminário. Foto: Everton Amaro

Na visão do diretor, o tratamento da fraude é um problema corporativo e estratégico. “A posição estratégica da organização representa uma aliança interna importante”, afirmou.

O consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), João Peres, falou sobre os riscos e fraudes corporativas e explicou que a empresa tem certeza de que, num cenário de fraude, ela será lesada.

“Jeitinho brasileiro”

“Não existe fraude sem haver um processo de corrupção vinculado”, alertou Peres. Para ele, o ‘jeitinho brasileiro’ é uma percepção de que a corrupção já faz parte da nossa sociedade: “Existe embutida na consciência coletiva a concepção de que se poder agir por meio da corrupção”.

Ao apresentar dados estatísticos de uma pesquisa realizada pela KPMG, Peres informou que a perda financeira das empresas brasileiras e americanas em fraudes representa 5% do Produto Interno Bruto (PIB) dos respectivos países. E que 74% das empresas da América Latina disseram ter prejuízo com fraudes, sendo que corrupção e suborno representam 79% deste índice.

João Peres, consultor da FGV: 'Não existe fraude sem haver um processo de corrupção vinculado'. Foto: Helcio Nagamine

O consultor da FGV alertou para o fato de que as fraudes também são cometidas por pessoas de alto escalão nas organizações e lembrou que “não existe corrupção de governo que tenha não envolvimento de empresa privada”.

No seu entendimento, quem produz a fraude é o ser humano, que, portanto, precisa ser avaliado, compreendido e direcionado. “Todo ser humano se adapta à sociedade onde vive”, afirmou, mencionando que, atualmente, as empresas investem 40% do seu orçamento em tecnologia, 50% em processos e apenas 10% em pessoas.

“O programa de prevenção de fraudes deve mexer diretamente com o material humano. E a parte mais difícil é mostrar as vantagens de ser honesto”, sublinhou.

Peres também ressaltou a importância de uma política de transparência, chamada de speak up, que permite denúncias de outros colaboradores, preservando suas identidades. “Essa transparência dá credibilidade à organização”, esclareceu. “A moralidade corporativa brasileira está em baixa”, alertou, lembrando que “nenhuma mudança acontece sem governança”.

Prevenção

Renato Almeida dos Santos, gerente de ética da ICTS: 'Cabe à organização prevenir fraudes e não apenas delegar isso aos gestores'. Foto: Everton Amaro

O gerente de ética da ICTS Internacional, Renato Almeida dos Santos, explicou como a compliance pode ser uma ferramenta de prevenção da fraude organizacional.

Ao mostrar uma pesquisa, Santos afirmou que dentro das corporações, 13% dos colaboradores agem de forma antiética, 60% agem conforme o ambiente e 27% não agem de forma antiética.

Para ele, as organizações não podem focar apenas nas minorias, mas devem influenciar positivamente a maioria. “É possível ensinar ética aos colaboradores, pois, na percepção deles, a organização tem o poder. Cabe a esta prevenir fraudes e não apenas delegar isso aos gestores”, afirmou.

Na opinião do gerente da ICTS, as empresas precisam de uma gestão integrada de ética, com um comitê e um gestor responsável. Ele ressaltou que a posição da organização em relação aos colaboradores é determinante e que ela deve buscar suas vulnerabilidades de processos antes dos colaboradores com tendências antiéticas, a fim de prevenir o problema.

Além disso, enfatizou a necessidade de se investir mais recursos para o momento da contratação dos colaboradores, a fim de evitar problemas futuros, já que, segundo ele, uma das maiores causas da fraude é a competitividade no ambiente de trabalho. “Dinheiro não é o único motivador das fraudes, existem muitos outros, como status, por exemplo”, apontou.