Tecnologia é chave para otimização de recursos hídricos e mobilidade urbana

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Quando o assunto é mudanças do clima, incluem-se também discussões em torno da otimização dos recursos hídricos e as tendências de mobilidade urbana no futuro.

Por isto, o 3º Fórum Econômico Brasil-França, realizado nesta segunda-feira (15/6), na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), abriu dois painéis com estes temas com diversos convidados franceses e brasileiros.

Um dos participantes, o CEO da Suez Environnment, Gabriel Toffani, frisou o desperdício existente: 1/3 da água transportada é perdida no Brasil, 40% do esgoto não é tratado e 40% da água não é faturada, números que se somam ao fato de apenas 2% da água ser destinada ao reúso. Com o stress hídrico, deve-se utilizar cada vez mais água de reúso para irrigação urbana, cultivo, fabricação e reabastecimento, apostando-se em planejamento e investimento e evitando-se uma “guerra de água”, concluiu.

Participantes da mesa do 3º Fórum Econômico Brasil-França, na Fiesp. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

 

Samuel Lee, vice-presidente para América Latina da Itron, apontou que os 34% da água perdida no mundo significam prejuízo de US$ 18 bilhões ao ano, ou 4 entre 7 pessoas que ficam sem o líquido. Esse foi um dos motivos para que a empresa desenvolvesse projeto que incorpora a tecnologia de informações obtidas junto ao cliente, o big data, o que resultou no agrupamento de 1 milhão e 500 mil clientes com 75 milhões de dados compilados diante de 25 variáveis a fim de compreender os níveis de perdas aparentes, reais e totais.

Para ele, “muda o modelo de negócio com informações, para ser sustentável, em um cenário em que haja incremento de investimentos para melhoria na eficiência operacional e antecipação de crises”, como a que vem sendo vivida por São Paulo.

Outro exemplo partiu da General Water, concessionária particular que abastece shoppings e grandes condomínios que compram o serviço. Segundo seu gerente Fernando Barros, a vantagem é a independência das operadoras públicas voltadas primariamente ao abastecimento da população. Outros benefícios são a reutilização de efluentes industriais e pluviais, menor gasto energético, além de controle da emissão de GEE na própria planta.

Mobilidade urbana e novos meios de transporte

As restrições impostas realmente podem levar à inovação. Na opinião de Christian Brodhag, diretor de pesquisa da École des Mines, o menor custo das informações possibilita o avanço na construção de cidades inteligentes, as smart cities, entendendo-as como um sistema e realizando a gestão dos serviços urbanos, indissociável, por exemplo, de questões como a mobilidade individual versus a mobilidade coletiva. Para ele, iniciativas como a Rede 21, especialmente para a troca de informações, são fundamentais para a sustentabilidade; dela já participam 9 países, mas o Brasil ainda não a integra.

Um exemplo claro de mobilidade, em Paris, foi apresentado por François Destribois, diretor da América Latina da RATP Developpement, que agrega linhas de metrô e ônibus, além de trens regionais. “É importante que haja segurança física e mental do passageiro e que seu deslocamento não sofra entraves, sem atrasos, o sistema é que deverá resolvê-los”, afirmou. É condição essencial a intermodalidade.

No Brasil, a RATP é parceira no desenvolvimento da Linha 4 do metrô (Butantã-Luz, amarela) em São Paulo, desde 2014, e ela atua também na revitalização de bondes do Rio de Janeiro.

A leitura de Alain Bullot, diretor de projetos no Brasil do Groupe SNCF, se soma à de Destribois: “as cidades são concorrentes, é preciso oferecer qualidade de vida e proximidade com a metrópole. Sentir-se perto não se mede em quilômetros, mas sim em previsibilidade de tempo”. De acordo com o participante, quando ocorre algo no sistema, é preciso detectar o incidente em 30 segundos, reagir em um minuto e solucioná-lo em dez, no máximo. Há esforços em termos de informações customizadas para os passageiros, como no Twitter, por exemplo, e a reformulação das antigas linhas radiais do metrô, que passavam pelo centro de Paris, por outras anelares.

O panorama do transporte, em São Paulo, foi apresentado por Thierry Besse, coordenador do Comitê de Parceria Público-Privada da Secretaria de Transportes do Estado: transporte de 4 milhões de usuários/dia no metrô; de 6 milhões/dia nas linhas férreas, que são antigas, mais 10 milhões/dias nas linhas de ônibus municipais.

Em sua avaliação, há um desafio de governança dos transportes em curso, para atender a esta demanda de mobilidade, e por isto são necessários projetos ambiciosos como a Linha 6 (Brasilândia-São Joaquim, laranja) e a Linha 18 (bronze, São Paulo-ABC). Além do mais, algumas linhas férreas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) são bem antigas, algumas centenárias. Segundo Besse, a modernização do sistema requer planejamento.