Carlos Heitor Cony: ‘Nelson Rodrigues foi, acima de tudo, uma grande figura humana’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

O Nelson Rodrigues cronista, dramaturgo, jornalista e apaixonado pelo Fluminense, todo mundo conhece. Ele era uma figura pública facilmente encontrada nas ruas do Rio de Janeiro, nos cafés ou no estádio do Maracanã.

“Ele se expunha com a maior naturalidade, mas não se fazia de estrela. Era um homem da zona norte do Rio. Todo mundo o conhecia nas ruas. Eram – como ele dizia – seus desconhecidos íntimos”, afirmou na noite desta quarta-feira (28/11), no Teatro do Sesi-SP, o biógrafo e curador do projeto Sesi-SP Nelson Rodrigues 100 anos, Ruy Castro, durante o debate “Nelson em pessoa: o homem como ele era”, o último de uma série de homenagens que ocorreram ao longo de 2012.

Para revelar mais sobre o lado pessoal de Nelson, quatro nomes de expressão foram convidados: o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony; o Dr. Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense e criador da chamada “Máquina tricolor”; a atriz e pesquisadora Neila Tavares, para quem ele escreveu Anti-Nelson Rodrigues; e o ex-jogador de futebol Roberto Rivellino, campeão da Copa do Mundo de 1970.

Cony: "Nelson era um gênio: pinçava o detalhe para achar a palavra exata". Foto: Mauren Ercolani

“Eu me sinto muito à vontade para falar de Nelson porque é uma pessoa em quem penso todos os dias”, revelou Cony, que destacou o fato de Nelson Rodrigues ser um homem dos detalhes. “Ele era um gênio: pinçava o detalhe para achar a palavra exata”.

“Ruy [Castro] finalmente ressuscitou Nelson Rodrigues literariamente, fazendo com que hoje ele participe do imaginário brasileiro”, afirmou o autor ao contar que, quando se conheceram, Nelson não gostava dele por ciúmes do irmão mais velho, Mario Rodrigues, com quem Cony tinha uma relação quase paternal. “Nelson tinha raiva de mim. Até que o Mario morreu, e ele passou a me chamar de ‘falso canalha’ e nos tornamos grandes amigos, embora discutíssemos muito”, contou.

Cony acredita que a obra rodrigueana não focava no panorama geral, mas sim nos detalhes. “Eu, como escritor, não acredito que haja um escritor brasileiro que se preocupe tanto assim com os detalhes”, afirmou. Para Cony, o ambiente rodrigueano era pequeno e repletos de detalhes: dentro de quatro paredes. “Ele estava se lixando para a humanidade, ele se importava com o indivíduo”, completou Ruy Castro.

“É impossível que quem escreva em jornais e na literatura hoje em dia não tenha influências  de Nelson Rodrigues, porque ele foi, acima de tudo, uma grande figura humana”, concluiu.

Bate-bola 

Fluminense, paixão de Nelson Rodrigues. Foto: Talita Camargo

O advogado e ex-presidente do Fluminense, Dr. Francisco Horta, relembrou diversas passagens com o amigo Nelson Rodrigues e confessou que eles eram unidos pela paixão ao time tricolor. “Quando Roberto Rivellino foi contratado pelo Fluminense em 1975, Nelson teve uma participação muito efetiva, pois o empolgou a jogar no Flu”, afirmou Horta ao enfatizar que a ida do jogador ao clube só se deu graças ao apoio de Nelson. “Ele era dono das palavras.”

Rivellino lembrou que Nelson Rodrigues teve participação muito importante em sua carreira. “Eu estava prestes a encerrar minha carreira e Nelson Rodrigues mudou isso.”

“Sou muito agradecido ao Nelson Rodrigues e ao Rivellino porque eles deram ao Fluminense uma época de ouro de um time que jogava por amor: a Máquina Tricolor”, concluiu Horta.

Memórias

Debate Nelson Rodrigues: Nelson como ele era. Foto: Mauren Ercolani

“Eu me apaixonei por Nelson aos 11 anos de idade”, revelou a atriz Neila Tavares, que resgatou a imagem do dramaturgo como figura pública na década 1970, quando ninguém mais se importava com ele. “Encontrei Nelson muito deprimido, num momento complicado. Ele estava muito abatido e, então, pedi para ele escrever uma peça para que eu atuasse. E ele escreveu”.

A atriz lembrou que Nelson escrevia para o ator. “Ele era o homem do teatro, era o homem da paixão por tudo aquilo que fazia e participava”, afirmou. Para ela, Nelson era um homem de grandes gestos de ternura, amizade, generosidade, atenção e humildade. “Ele tinha uma expressão corporal de reverência para com o outro”, lembrou ao revelar que senta muita saudade dele.

“Tenho um amor louco por ele. Não tinha mentiras em Nelson Rodrigues”, revelou a atriz. “Ele me emociona todos os dias, pois muito do que sou como artista e como pessoa, devo a Nelson Rodrigues”, concluiu.

Clima de despedida 

O debate da noite desta quarta-feira (28/11) encerrou ciclo de homenagens do Sesi-SP ao centenário de Nelson Rodrigues. “Essa é uma noite de festa e o homenageado é Nelson”, afirmou Ruy Castro, que relembrou todos os convidados que passaram pelo palco do Teatro do Sesi-SP para falar sobre Nelson, seus personagens e suas obras. “Foram noites memoráveis, em que discutimos Nelson em todos os níveis”, concluiu.