‘Precisamos transformar os resultados das eleições em melhores políticas públicas’, diz coordenador do curso de Administração Pública da FGV

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Reformar a administração pública é um dos grandes desafios da democracia brasileira nos próximos anos. A análise é do coordenador do curso de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas – Escola de Administração de Empresas (FGV – Eaesp), Fernando Luiz Abrucio. O acadêmico foi o convidado da reunião do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na manhã desta segunda-feira (14/10), na sede da entidade, na capital paulista.

Na ocasião, Abrucio apresentou uma análise sobre os “avanços e desafios da democracia brasileira”. “Vivemos o regime democrático mais longo da nossa história, o que é um avanço muito importante”, explicou. “Em 1988, criamos a constituição que nos tornou capazes de gerar direitos em grande escala”.

Nesse sentido, mesmo que muitos avanços ainda precisem ser feitos, Abrucio lembrou que o país viveu uma “revolução” em alguns campos, como o direito à educação e o acesso aos direitos do consumidor. “Isso significou ampliar os direitos em larga escala, mexer com a base da população”, disse. “Brasileiros de menor renda estão entrando na seara dos direitos civis a partir do direito do consumidor”.

Abrucio: “Em 1988, criamos a constituição que nos tornou capazes de gerar direitos em grande escala”.  Foto: Everton Amaro/Fiesp

Abrucio: “Constituição nos tornou capazes de gerar direitos em grande escala”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

No que se refere à educação, o coordenador do curso de Administração Pública da FGV – Eaesp, lembrou que, em 1987, “um terço dos brasileiros entre 7 e 14 anos estava fora da escola”. “Hoje, apenas 3 ou 4% dos brasileiros se encontra nessa situação”, afirmou.

Diante disso, um dos desafios que a democracia brasileira precisa enfrentar daqui para frente é justamente melhorar a qualidade da educação. “Precisamos colocar a educação como um grande projeto no país”, explicou. “Pessoas mais educadas podem exercer melhor a sua cidadania e isso também vai garantir o desenvolvimento sustentável do Brasil”.

Reforma na administração pública

Segundo Abrucio, a alternância de poder no país nos últimos anos tem sido feita de forma “razoável e tranquila”, de forma que um outro desafio da democracia brasileira atualmente é “transformar os resultados das eleições em melhores políticas públicas”. “O eleitor será cada vez mais cobrador dos seus direitos, o que é um avanço, por isso o desafio de promover uma enorme reforma na administração pública”, afirmou.

Para o acadêmico, o problema não é “identificar os grandes marcos e problemas, mas executá-los”. “Temos algumas ilhas de excelência, mas elas não dão conta dos problemas importantes da sociedade”, explicou.

De acordo com Abrucio, é nesse ponto que entram reivindicações como o maior cuidado com a mobilidade urbana, uma das principais bandeiras das manifestações nas ruas do país em junho de 2013. Uma questão que passa também por uma melhor coordenação dos governos estaduais com os municípios, por exemplo. “Temos um problema gravíssimo de governabilidade nos municípios”, disse. “Não está em questão a democracia como um valor, mas a sua capacidade de definir políticas públicas no Brasil”.

Delfim Netto: “No fundo, temos um problema de gestão”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Delfim Netto: “No fundo, temos um problema de gestão”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Coordenador do debate na reunião, o presidente do Cosec, Antonio Delfim Netto, concordou que a constituição de 1988 promoveu a criação de uma “sociedade republicana”. “Nenhum país emergente do mundo tem um Supremo Tribunal Federal como o nosso”, disse. “No fundo, temos um problema de gestão com consequências trágicas nos municípios”.