Sustentabilidade e risco ambiental ditam o crédito bancário

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

Desde que bancos do mundo inteiro se comprometeram a pautar suas operações financeiras com os olhos voltados para a proteção ambiental, aderindo, 25 anos atrás, a uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) nesse sentido, a variável ambiental passou a fazer parte dos modelos de avaliação de risco de crédito às empresas. O que faz com que, hoje, seja quase impossível uma companhia tomar um empréstimo bancário sem que nele esteja computado seu grau de comprometimento com a saúde do meio ambiente. No Brasil, a ação do Pnuma de quase três décadas atrás ganhou robustez em 2014, ano em que o Banco Central tornou obrigatória o inclusão, por parte dos bancos, da Política de Responsabilidade Socioambiental em toda decisão sobre financiamento a empresas.

A relevância do risco ambiental nas instituições financeiras levou o Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp (Cosema) a trazer novamente o tema para debate, ressaltou Walter Lazzarini, presidente do conselho . Na terça-feira (25 de julho), o economista Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de Relações Institucionais da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), falou sobre o trabalho que a instituição vem fazendo para mitigar os riscos inerentes às mudanças climáticas apontados em 2016 durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. “Olhando para os compromissos e as contribuições que o Brasil levou para o acordo climático, a leitura que fazemos é a de que a sustentabilidade é mais do que nunca algo que precisamos perseguir e transformar em oportunidades para o país, falou Vasconcelos.

O economista da Febraban disse ainda que, tanto na questão do uso da terra quanto na questão de energia, o Brasil tem vantagens competitivas quase inigualáveis sobre outros países. Principalmente nas questões que dizem respeito ao agronegócio, à segurança alimentar e à produção de alimentos com alta tecnologia a custos competitivos, avalia Vasconcelos. Um exemplo, diz, é a geração de energias baratas. “Temos uma capacidade enorme de geração de energia que pode ajudar definitivamente todo o parque industrial brasileiro.”  Bem trabalhado, emenda o economista, tem tudo para se transfomar em fator competitivo no mercado internacional.

“A sustentabilidade será efetiva a partir do momento em que estiver integrada e fizer parte do dia a dia dos negócios de todos nós”, fala Vasconcelos. Ele admite, no entanto, que ainda há muito desconhecimento nesse processo, e por isso, de alguma maneira, é preciso levar isso para dentro das casas e principalmente das empresas. Por isso, a Febraban trabalha antecipando tendências na área socioambiental que impactem o setor financeiro. Também procura identificar modelos de negócios que contribuam para o cumprimento das metas para o combate às mudanças climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito da COP-21, a Convenção do Clima de Paris, realizada em 2015.

Atuação

Na Febraban, a governança do tema é trabalhada sob a regência de duas comissões: uma envolvendo diretamente os 29 bancos associados de forma a levar a discussão de propostas a todo o mercado financeiro e o mercado de capitais. A segunda comissão é intersetorial, da qual fazem parte associações como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e a Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), entre outras. “É importante que a discussão ocorra de forma compartilhada não apenas entre os bancos associados da Febraban, mas de forma integrada e sinérgica entre todo o sistema financeiro, respeitando a particularidade de cada mercado, para que possamos avançar na agenda brasileira de sustentabilidade”, diz Vasconcelos.

Ele conta que outra ação ligada ao tema é o Café com Sustentabilidade, evento aberto, anual, que nos últimos 10 anos já levou 52 temas para discussão abordados por 160 palestrantes que falaram a 2.500 participantes. O próximo, marcado para agosto, abordará o conjunto de recomendações finais sobre riscos climáticos do Financial Stability Board (FSB), divulgadas em junho deste ano.  A partir daí o objetivo é o de avaliar e discutir os conceitos e as recomendações do relatório final; identificar os negócios financeiros, as práticas existentes relacionadas à gestão do risco climático; e, por fim, comparar práticas existentes com as recomendações, identificar lacunas e, a partir destas, enxergar as oportunidades.

Todo ano, a Febraban também mede quanto dos financiamentos bancários estão sendo canalizados para setores da chamada economia verde segundo a classificação das Nações Unidas. Em 2015 (último dado disponível da Febraban), os 14 bancos que, juntos, respondem por 87% das operações de crédito bancário, emprestaram R$ 1.893,0 bilhão. Desse total, R$ 617,6 bilhões (32,6%) financiaram projetos dos setores tidos com maior potencial de risco e por isso sujeitos à diligência socioambiental do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Outros R$ 316,9 bilhões (16,7%) foram destinados a setores da economia verde, aqueles voltados ao desenvolvimento de produtos ou processos sustentáveis. Os números referentes a 2016 serão conhecidos em agosto.

Até hoje, o Brasil emitiu US$ 3 bilhões em títulos verdes usados no financiamento de projetos de eficiência energética, renováveis, manejo sustentável de florestas e outros que contribuem para o alcance das metas de longo prazo de sustentabilidade de companhias. Mas o volume ainda é considerado baixo diante das demandas, na avaliação de Vasconcelos, pois o setor, diz ele, demanda mais. “Temos muito potencial para montar projetos atraentes, financeiramente saudáveis e com retorno, além de ambientalmente corretos”, fala o executivo da Federação dos Bancos.

Setor agropecuário

Em 2017, a Febraban desenvolveu um projeto de apoio à implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), unindo-se, assim, a associações do setor agropecuário, como Abag, Única e Embrapa, entre outros. A implementação do CAR é uma peça de sustentação do Código Florestal. “Pretendemos que o CAR seja mais uma fonte de avaliação de risco para a tomada de crédito. A partir de janeiro de 2018, o produtor rural que não tiver o CAR não poderá tomar qualquer tipo de crédito do setor financeiro”, conta Vasconcelos.

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Mario Sergio Vasconcelos, diretor da Febraban, (segundo da esq. para a dir.), fala na Fiesp sobre a relevância do risco ambiental dentro das operações do mercado financeiro. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“Vejo o CAR como uma das soluções para os clientes, e por isso foi elencado como um dos principais projetos da Febraban para 2017. Temos 4 milhões de propriedades que, ao fazerem seu cadastro, irão se deparar com passivos ambientais e aí precisarão atender as exigências para ficar de acordo com a legislação”, observa o economista da Febraban. Até 31 de maio último, 4,2 milhões de imóveis rurais estavam cadastrados dentro do programa do CAR. Dos 397,8 milhões de hectares de área cadastrável, o serviço Florestal Brasileiro cadastrou uma área superior à informada pelos produtores rurais, de 410,6 milhões de hectares.