Entrevista: Como implantar uma política de Segurança e Saúde no Trabalho

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Por Karen Pegorari Silveira

No mês em que é comemorado o Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho, conversarmos com o especialista em Desenvolvimento Industrial, do Serviço Social da Indústria (SESI – Departamento Nacional), para entender porque é importante manter uma política de Segurança e Saúde no Trabalho e como isso pode ajudar uma indústria a manter sua competitividade.

Veja na íntegra a entrevista:

Por que é importante implantar uma política de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) em uma empresa e quais os riscos caso a preocupação com este tema não seja levada em consideração?

Marcelo Benedet Tournier – Uma política de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) é fundamental para qualquer empresa, independente do seu tamanho, setor econômico ou faturamento. É nesta política que se define o compromisso que a liderança tem com a segurança e o bem-estar dos colaboradores, quais são os papéis e responsabilidades de todos neste processo e quais as principais ações para que o ambiente de trabalho seja seguro e saudável para todos.

Empresas que não priorizam SST sofrem o reflexo desta decisão no bolso.  Um dos impactos financeiros é no FAP – Fator Acidentário de Prevenção.  Esta alíquota pode duplicar os custos que a empresa tem com o Seguro de Acidentes do Trabalho (SAT).  Se não houver uma gestão de SST com foco em reduzir frequência, gravidade e custos com acidentes de trabalho, as despesas podem chegar a até 6% da folha de pagamento por ano, dependendo do setor em que a empresa se enquadra.

Além disto, uma gestão ineficaz de SST custa caro para empresas que possuem planos de saúde.  Neste cenário de crise econômica, os custos médicos e hospitalares aumentaram 17,1% em 2015.  Como referência, a inflação (IPCA) foi de 8,9% no mesmo período.  Em consequência disto, várias operadoras de saúde aumentaram em até 100% os valores dos contratos renovados com clientes corporativos durante 2015, sendo que o aumento foi maior nas empresas com alta sinistralidade (taxa que representa o uso do plano pelos funcionários).

Empresas que investem na segurança e bem-estar de seus colaboradores possuem um diferencial competitivo – algo fundamental neste grave momento de recessão.

É muito comum que saúde seja vista como um custo para o empresário.  Mas quando ele investe no bem-estar de sua força de trabalho, gera mais adiante uma economia com doenças que foram evitadas, além de ajudar as pessoas a serem mais saudáveis, engajadas e a produzirem mais resultados.  Isto é valor agregado para o seu negócio.

Quais ações a empresa deve adotar para mitigar impactos negativos na saúde de seus trabalhadores e o que deve ser levado em conta nestas ações?

Marcelo Benedet Tournier – Nos últimos anos, ao observar os dados do INSS de auxílio-doença no Brasil, percebemos que os acidentes de trabalho vêm diminuindo, com um aumento gradual de afastamentos devido a doenças crônicas (doenças cardiovasculares, problemas musculoesqueléticos, depressão e ansiedade).

Isto requer que os programas de SST tenham planos de ações que vão além do Ambiente físico (preocupado apenas com as questões ocupacionais).  É necessário que a empresa olhe também para o Ambiente psicossocial (relações de trabalho com colegas e com as lideranças) e com recursos pessoais para a saúde (estimulando a mudança de comportamento dos trabalhadores, para a aquisição e manutenção de um estilo de vida saudável dentro e fora do trabalho) e o envolvimento da empresa com a comunidade.

Como engajar os colaboradores a participarem destas ações e a adotarem o estilo de vida mais saudável sugerido nas atividades?

Marcelo Benedet Tournier – Para que este engajamento ocorra de modo sustentável, é necessário que os programas ofereçam abordagens diferenciadas de mobilização das pessoas na empresa.  Por exemplo, alguém que possui fatores de risco, mas não sabe disto, necessita de ações de conscientização, como avaliações de risco à saúde.  Outros, que já conhecem seus fatores de risco, mas não fazem nada para cuidar da saúde, necessitam de estratégias de motivação. Para aqueles que já são motivados, atividades de “coaching” em saúde podem aumentar as habilidades de cuidado, economizando com doenças e tratamentos evitáveis.  Finalmente, para se pensar em uma adesão dos empregados a longo prazo nas práticas, é importante que as empresas ofereçam o máximo possível de oportunidades, em que os indivíduos sejam valorizados e lembrados dos benefícios que suas escolhas promovem para sua saúde.

Como a empresa pode ajudar seus colaboradores a terem uma saúde melhor e que impacte menos em sua competitividade?

Marcelo Benedet Tournier – É importante que as lideranças das empresas tenham acesso a ferramentas de gestão com baixa complexidade e alto impacto, que apoiem a construção de estratégias de saúde populacional em seus ambientes de trabalho.  Uma abordagem de destaque é o modelo de ambiente de trabalho saudável da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a OMS, para que uma programa de saúde em uma empresa dê certo, é fundamental que possua cinco chaves:  Comprometimento da liderança, envolvimento dos trabalhadores, respeito à ética e legislações vigentes, integração e sustentabilidade das ações e um processo de gestão de segurança e saúde no trabalho que permita melhorias contínuas das práticas de prevenção e promoção.

Artigo: Quando proteger e cuidar agregam valor ao negócio

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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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Grácia Elisabeth Fragalá*

“A segurança, saúde e bem-estar dos trabalhadores são preocupações vitais de centenas de milhões de profissionais em todo o mundo, mas a questão se estende para além dos indivíduos e suas famílias. Ela é de suprema importância para a produtividade, competitividade e sustentabilidade das empresas e comunidades, assim como para as economias nacionais e regionais.[1]

O Estado de São Paulo, em sua edição de 28/03/2016, informa sobre o fechamento de 4,4 mil fábricas em São Paulo. Conforme noticia o periódico, o “país perdeu 1,1 milhão de empregos industriais em um trimestre”. Fatos como esse têm se repetido nos últimos tempos, preocupando empresários, trabalhadores e a sociedade em geral, com impactos em termos de expectativas que nada mais fazem que agravar a crise em que estamos imersos.

Neste cenário de instabilidade econômica, uma das repercussões sociais, sentidas no dia a dia das empresas, é o aumento dos acidentes de trabalho e dos afastamentos por doença, acarretando o aumento dos custos com planos de saúde, perda de produtividade, crescimento dos índices de absenteísmo e impactos no FAP – Fator Acidentário de Prevenção.

Pesquisa realizada pela FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – no ano de 2014, com a participação de 401 indústrias, mostrou que fatores relacionados aos afastamentos dos trabalhadores por motivos de doença estão entre as principais preocupações dos líderes empresarias e dos profissionais de Recursos Humanos, como podemos observar nos gráficos abaixo. Também surge com destaque o custo da assistência à saúde.

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Para fazer frente a essas preocupações, um número crescente de empresas tem optado por definir políticas de Segurança e Saúde no trabalho que estabeleçam um modelo de atenção integral e integrada às necessidades do trabalhador.

Integral, na medida em que contempla os vários aspectos que envolvem a atividade profissional – ambiente físico do trabalho, ambiente psicossocial, recursos para a saúde pessoal, envolvimento da empresa na comunidade e as múltiplas dimensões da saúde: física, emocional, social, profissional.

Integrado, na medida em que exige que os vários atores interajam – não apenas as equipes de Segurança e Saúde, mas as áreas de recursos humanos, de produção, as equipes jurídicas, as equipes de responsabilidade social empresarial-. Enfim, os temas de Segurança e Saúde irão fazer parte de todos os processos da organização, permeando a cultura da empresa para que se construa um ambiente de trabalho saudável.

As equipes de Segurança e Saúde tem a função de identificar os riscos, propor as ações preventivas e corretivas, contribuindo para a redução das situações de adoecimento do trabalhador. Porém, para que isso ocorra, é preciso que essas equipes tenham atuação estratégica e sejam envolvidas nos vários processos decisórios com impactos para a Segurança e Saúde do trabalhador e que a política de Segurança e Saúde receba o apoio da alta liderança.

Empresas que possuem políticas de Segurança e Saúde integradas à estratégia do negócio descobriram que é possível transformar os ambientes de trabalho em espaços privilegiados para a promoção de saúde e prevenção de doenças e acidentes. Isso lhes garante maior competitividade em situações de crise como a que enfrentamos na conjuntura atual. Essas organizações entenderam que desenvolver ações para evitar acidentes e o adoecimento dos trabalhadores é um investimento que gera a redução de custos importantes com passivos trabalhistas, sinistralidade e absenteísmo. O capital humano saudável, engajado e motivado é o principal ativo de uma organização, que poderá fazer a diferença em momento de dificuldade, inovando, modificando processos produtivos, gerando melhores resultados.

Uma política de Segurança e Saúde, atrelada à estratégia do negócio, com métricas e indicadores adequados, constitui-se em ferramenta de gestão de alto valor agregado.

Além disso, num mercado competitivo, a escolha do consumidor recai sobre empresas socialmente responsáveis, empresas que proporcionam um ambiente de trabalho saudável e que desenvolvem ações para promover a saúde, segurança e o bem estar de seus colaboradores.

* Grácia Fragalá é vice-presidente do CONSOCIAL – Conselho Superior de Responsabilidade Social, diretora Titular do CORES – Comitê de Responsabilidade Social, gerente de Segurança e Saúde do GPA e possui mais de 15 anos de experiência como gestora de Segurança e Saúde em empresas de grande porte.

[1] Ambientes de trabalho saudáveis: um modelo para ação: para empregadores, trabalhadores, formuladores de política e profissionais. /OMS; tradução do Serviço Social da Indústria. – Brasília: SESI/DN, 2010.