É mais um sonho que a indústria paulista realiza, diz Skaf na aula inaugural da Faculdade Sesi-SP de Educação

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Foi uma recepção e tanto para a primeira turma do curso de graduação e licenciatura da Faculdade Sesi-SP de Educação. Os 160 alunos tiveram nesta segunda-feira (13/2) uma aula inaugural com Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, um dos mais importantes pensadores da educação e democracia na América Latina.

Antes da palestra de Toro, os alunos foram saudados por Paulo Skaf, presidente da Fiesp e do Sesi-SP, que, para a plateia lotada de estudantes e professores, revelou-se emocionado por momentos como aquele.

“É mais um sonho que a indústria paulista realiza”, disse Skaf. “Desejo a todos de coração que tenham sucesso, que aproveitem bastante. O que o Brasil mais precisa é educação de qualidade”, afirmou. É ela, destacou, que dá a oportunidade que as pessoas querem.

A educação permite transformar a realidade de uma pessoa, lembrou. E a peça principal para isso, ressaltou, é o professor. “Vim para dizer para vocês alunos que estão de parabéns por terem escolhido ser educadores. Não há coisa mais nobre que ser um professor. Ele se realiza quando passa seu conhecimento. Quando os alunos aprendem, o professor fica realizado. É o caso dos 160 alunos da primeira turma, de uma faculdade pioneira.” O caminho não é fácil, afirmou Skaf. “É uma missão.”

“Quero”, disse o presidente, “que vocês se sintam muito bem na Faculdade Sesi-SP de Educação, que curtam muito.” “A aula inaugural da faculdade para formar professores torna realidade um sonho”, afirmou Skaf, que antes havia relatado a mudança de estrutura do Sesi-SP para permitir a implantação do ensino integral no Ensino Fundamental. Também ocorreu o mesmo para estender ao Ensino Médio a qualidade do Ensino Fundamental. “Junto a isso, o estímulo ao esporte e à alimentação equilibrada, que também fazem parte da educação.” Ainda agora, a visita a novas escolas, com sua ótima infraestrutura, surpreende, afirmou. E não é só escola bonita, destacou, lembrando conquistas como as vitórias de alunos do Sesi-SP em torneios de robótica e do Senai-SP em olimpíadas do conhecimento.

“É preciso ter sempre novos desafios”, disse.

Walter Vicioni Gonçalves, superintendente do Sesi-SP, lembrou seu amor de longa data pela educação, vinda da pré-escola. A tarefa de criar uma faculdade para formar professores no Sesi-SP lhe foi dada em 2009 por Paulo Skaf, recordou. O inconformismo permitiu levar adiante o projeto, apesar das dificuldades burocráticas.

A formação por área de conhecimento une o ensino prático ao teórico, explicou, destacando a importância para isso da residência escolar, com os alunos que quiserem podendo estagiar no Sesi-SP enquanto estudam. Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Matemática são as formações oferecidas para esta primeira turma. Vicioni encerrou sua fala ressaltando a importância das pessoas que trabalham no Sesi-SP.

O secretário de Educação do Estado de São Paulo, José Renato Nalini, participou da aula inaugural.

Skaf fala antes da aula inaugural da Faculdade Sesi-SP de Educação. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Skaf fala antes da aula inaugural da Faculdade Sesi-SP de Educação. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

 

Mudança de paradigma

Pedindo desculpas por falar em espanhol, Bernardo Toro se disse honrado em estar na aula inaugural. Há, disse, capacidade, conhecimento acumulado, no Brasil – a grande questão é saber como dirigir esse potencial para a educação.

Sua apresentação teve como título Saber cuidar: o novo paradigma da educação em tempos de mudança climática. O desafio, explicou, é como direcionar todo o conhecimento para fazer um mundo melhor.

Segundo Toro, saber cuidar, conceito nascido no Brasil, é questão de sobrevivência da espécie humana. A educação, disse, tem importância muito grande nisso. Poder, sucesso e acumulação têm guiado a vida, incluindo a educação. Houve avanços graças a isso, como na comunicação, mas houve também o aquecimento global. Como, perguntou, passar disso para o paradigma de saber cuidar?

Estamos ao mesmo tempo nos pondo em risco e, com a comunicação e o turismo em massa, criando todas as condições para nos reconhecer como espécie e criar a grande família humana, disse Toro. Para as crianças, o mundo começa a ser apenas uma aldeia. No dia em que todo ser humano perceber os outros como uma espécie, defendeu, perde o sentido a guerra.

A solução dos problemas atuais requer nova ordem ética, mudança que não vem da noite para o dia. “Precisamos aprender a tomar decisões com 20 anos de antecedência em relação à educação.”

O cuidado tem a capacidade de reparar o passado e preparar o futuro, disse Toro, citando Leonardo Boff. Não é uma opção – se não aprendermos a cuidar, pereceremos. Vida digna e bens ecossistêmicos do planeta precisam ser cuidados.

O aprendizado básico inclui

Cuidar de si mesmo;

Cuidar de quem está próximo, dos vínculos;

De que está longe, das instituições;

Cuidar dos estranhos;

Cuidar do planeta.

Na educação atual, disse Toro, parece que é mais importante a matemática que o corpo humano, o que considera erro gravíssimo. É preciso aprender a cuidar do corpo, o lugar em que as pessoas podem ser e habitar. Os autocuidados com a saúde, expressão corporal, estética, teatro, esporte e outras áreas são vitais.

É muito fácil levar a medicina a um povo sadio, e muito difícil a um povo enfermo, disse, mas estamos mais interessados na medicina que na saúde. Segundo o professor, temos que repensar toda a educação em favor do corpo.

Cuidar da inteligência requer renunciar ao princípio guerreiro da força intelectual, a que é vista como propriedade pessoal, privada e interna para dominar os outros. Um bem privado localizado no cérebro e que se manifesta no desempenho em provas. No lugar dela, entra o altruísmo cognitivo, o desenvolvimento da inteligência solidária, a capacidade de procurar e dar ajuda na tentativa de solucionar problemas. Saber a quem pedir ajuda e a quem ajudar a caracterizam. E desenvolver a responsabilidade política, social e cultural, sabendo como se deve ajudar.

Segundo Toro, o dinheiro não é problema, a questão é o que se faz com ele. O grosso do dinheiro no mundo é empregado de forma especulativa. Ele deveria ser empregado para criar ativos saudáveis.

Saber pedir e dar ajuda leva ao reconhecimento do outro, cria vínculos duradouros e saudáveis.

Cuidar do espírito, ser autônomo, requer autoconhecimento, saber o que se deseja. Exige autoestima, apreciar-se sabendo com o que conta. Autorregulação, a autoadministração, saber dar ordens a si mesmo, saber como alcançar suas metas. Conhecimento e controle dos sentimentos aflitivos (ira, avareza, inveja, ciúme). As pessoas, defendeu, precisam ter um projeto de vida. Aprender a ouvir as ordens internas, que são satisfatórias, são libertadoras, diferentemente das que vêm de fora.

Como formar crianças e jovens livres é o grande desafio da educação na América Latina. É um dos grandes desafios da educação contemporânea.

Como passar da heteronomia à autonomia é o desafio, disse Toro, saindo do comportamento normatizado, externo em direção a um projeto de vida, superando o temor e a dependência com a liberdade, trocando a aprovação e a culpa pela responsabilidade, o prêmio/castigo pela aprendizagem.

Aprender a cuidar

Cuidar de quem está próximo, dos vínculos com os familiares chegados e os amigos íntimos implica em aprender a conhecer os outros, a valorizar os outros, a interagir com os outros. Aprender a criar redes emocionais sociais e profissionais é competência fundamental num mundo globalizado.

Cuidar dos distantes exige aprender a cuidar e fortalecer as instituições e as organizações. As instituições, explicou, nos permitem criar convergências e proteger de forma estável nossos interesses. O maior indicador de pobreza é não estar organizado, e o primeiro passo para superar a pobreza é se organizar. Por meio da organização nos tornamos atores sociais, cidadãos.

E outro passo da mudança da paradigma é cuidar dos estranhos, que não conhecemos, o que requer aprender a cuidar dos bens públicos. O público é aquilo que serve a todos de igual maneira para a dignidade de todos.

Finlândia e Suécia, usou como exemplo, têm ensino público. Todas as escolas de bairro têm a mesma qualidade, em qualquer lugar do país. Os filhos de todos, não importa a condição econômica, estudam nas mesmas escolas. Isso não existe no Brasil.

Segundo Toro, não é problema de dinheiro nem de educadores. Não é de estrutura. “O problema é que aceitamos com muita facilidade que haja dois sistemas de ensino, um de qualidade para nossos filhos e outro para os filhos dos outros.” Mudar isso é um grande desafio para a América Latina. São os bens públicos que tornam equitativa uma sociedade.

Cuidar do planeta exige austeridade como valor fundamental da vida e expressão social. É preciso reusar as coisas, reduzir o consumo e reciclar. A mudança climática é o maior desafio. A América Latina, com 3 vezes o território da China e um terço de sua população, é o continente verde do planeta, para onde todo os outros continentes olham como reserva para superar os desafios futuros. Para encerrar, Toro falou sobre uma nova visão: seremos, podemos ser, parte fundamental do bem-estar da espécie humana.