Comitê de papel e embalagem da Fiesp discute Custo Brasil e cenário econômico de 2015

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O Comitê da Cadeia Produtiva do Papel, Gráfica e Embalagem (Copagrem) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) se reuniu na manhã desta segunda-feira (17/11) para avaliar os impactos do Custo do Brasil e do câmbio na atividade industrial. O grupo também debateu as perspectivas para o cenário econômico do próximo ano. A reunião foi conduzida pelo coordenador do Copagrem e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo  (Sindigraf-SP), Fabio Mortara.

Fabio Mortara, coordenador do Copagrem, conduziu a reunião. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

O gerente do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp, Renato Corona, apresentou os números da pesquisa “Custo Brasil e a Taxa de Câmbio na Indústria de Transformação 2013”, divulgada pelo departamento em junho deste ano.

Durante sua apresentação, Corona reiterou que somente um conjunto de reformas na esfera macroeconômica pode “dar capacidade competitiva para a indústria”.

“Nós não podemos deixar de falar em competitividade da indústria sem falar de câmbio”, completou o gerente do Decomtec.

Segundo ele, o chamado Custo Brasil – termo com o qual se denomina o conjunto de entraves estruturais que encarecem a produção industrial brasileira – e o desalinhamento cambial são as principais influências para a perda de competitividade da indústria de transformação.

“O problema do câmbio no Brasil não é só que ele está valorizado, mas é a oscilação cambial. Que atrapalha significativamente qualquer planejamento empresarial”, reafirmou.

Em junho de 2014, o Real estava valorizado em 22,1% pelos cálculos do Índice Big Mac. Para equilibrar o câmbio, segundo Corona, seria necessário um patamar de R$ 2,71. Na ocasião a divisa gravitava em torno de R$ 2,20.

Renato Corona: Custo Brasil contribuiu para que mercadorias produzidas pelo setor manufatureiro brasileiro ficassem 33,7% mais caras que produtos importados de países parceiros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Ainda de acordo com a pesquisa do Decomtec, o Custo Brasil contribuiu para que mercadorias produzidas pelo setor manufatureiro brasileiro ficassem 33,7% mais caras que produtos importados de países parceiros, ou seja, nações como a Alemanha, Argentina, Chile, França e outras, que corresponderam a mais de 70% da pauta de importados no ano passado.

Cenário 2015

Outro convidado da reunião, o gerente do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Guilherme Moreira, confirmou que as projeções do departamento para 2014 apontam para um “um ano perdido” na economia brasileira – sobretudo para a indústria de transformação.

Segundo Moreira, a estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 é de algum percentual próximo de 0% de crescimento, enquanto a produção industrial deve encerrar com perdas de cerca de 3,5%.

A previsão para 2015 também indica uma situação adversa da economia brasileira. Enquanto a pressão para um ajuste fiscal, que seria importante para a retomada de confiança do setor produtivo e a consequente recuperação econômica, ganha cada vez mais força, avaliou Moreira.

O governo deve encerrar 2014 com um saldo em suas contas públicas próximo a zero, segundo especialistas. Mas se considerar os gastos com juros, o saldo pode inverter e chegar a 5% negativo. A situação se agrava uma vez que a margem para corte nos gastos públicos em 2015 é muito rígida, de acordo com o gerente do Depecon.

“O espaço para corte é mínimo e isso é da nossa estrutura de gasto. Depois que você aumenta [o gasto], não tem como voltar mais. Se analisar com calma não tem como ser feito [o ajuste]. Essa é a questão para 2015. Se não dá para cortar em lugar nenhum, uma das possíveis saídas seria aumentar o imposto”, explicou Moreira.

Outro ponto de atenção para 2015 é o combate à inflação. Na avaliação do gerente, “a única política hoje de combate à inflação vigente nesse país é aumentar juros ou deixar estourar o teto da meta, um efeito que também é ruim”.

Aparas de Papel

O consultor da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), Pedro Vilas Bôas, fez uma breve apresentação sobre a organização para os membros do Copagrem.

Pedro Vilas Bôas, da Anap: Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo ele, o Brasil consumiu em 2013 mais de oito milhões de papéis recicláveis. E a embalagem representa 59% do mercado de papel reciclável.

O país gera cerca de 4,7 milhões de toneladas de aparas, ou seja, resíduos, de papel no ano. Mas a logística para movimentar esse material e destiná-lo à reciclagem “não é fácil de fazer”, de acordo com o consultor.

O consultor tributário Antonio Expedito Miranda também participou da reunião do Copagrem. Ele apresentou a atuação da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) no combate ao uso indevido de papel imune.

A IBÁ apoia a elaboração e divulgação do Guia de Utilização do Papel Imune, versão 2014, pela Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf). O objetivo da publicação é oferecer informações sobre parâmetros legais par ao uso do papel imune, que é destinado à impressão de livros, jornais e para indústrias gráficas.

Fabio Mortara: ‘Comitê da Fiesp multiplica força de mobilização das entidades da cadeia produtiva de papel, gráfica e embalagem’

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Fabio Mortara, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva do Papel, Gráfica e Embalagem. Foto: Everton Amarro/FIESP

O Comitê da Cadeia Produtiva do Papel, Gráfica e Embalagem (Copagrem) é um dos mais novos comitês de cadeias produtivas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Com menos de um ano de existência, o Copagrem já nasceu forte com a participação de importantes entidades setoriais de âmbito estadual e nacional. Uma das lideranças do comitê é o presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas de São Paulo (Sindigraf-SP) e da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional), Fabio Arruda Mortara.

Em entrevista ao portal da Fiesp, o coordenador do Comitê fala dos principais desafios enfrentados pelas empresas da cadeia produtiva e ressalta que o Comitê tem missão de fortalecer a união e a sinergia já existentes entre as entidades do setor.

Veja a seguir a entrevista concedida por Fabio Mortara:

O Copagrem reúne entidades de diversos segmentos, tanto do âmbito estadual como do federal. O Comitê tem a intenção de unir esses elos para soluções conjuntas?

Fabio Mortara — Na realidade, as entidades da cadeia produtiva já atuavam em conjunto na busca de soluções. Um exemplo disso é a Campanha de Valorização da Comunicação Impressa, realizada há mais de três anos. Mas, o Copagrem, com a força e estrutura da Fiesp, quer tornar mais consistente essa articulação, criando uma agenda permanente de trabalho, ampliando a sinergia e multiplicando a força de mobilização da cadeia produtiva.

No pouco tempo de existência, como o senhor avalia esse início do Copagrem?

Fabio Mortara — Em pouco tempo, já percebemos avanços relevantes. O comitê tem funcionado muito bem, incluindo a dinâmica de seus quatro grupos de trabalho, que são os seguintes: Valorização da Comunicação Impressa; Competitividade Industrial; Tributação e Papel; e Sustentabilidade.

Quais são os principais desafios enfrentados pelos setores da cadeia produtiva?

Fabio Mortara — Nossa cadeia produtiva, em especial a área gráfica, é atingida pela perda de competitividade provocada pelo maior assédio ao mercado brasileiro pelos concorrentes internacionais que perderam espaços nos grandes importadores de produtos e serviços da América do Norte e Europa, afetados pela duradoura crise mundial.

Num cenário como esse, nossos juros altos, impostos elevados, burocracia, insegurança jurídica e outros velhos “inimigos” nacionais dos setores produtivos acabam tendo peso muito maior.

O que é mais necessário para ampliar a competitividade do país no que se refere à cadeia produtiva?

Fabio Mortara — Na realidade, é necessário um conjunto de medidas, mas destaco duas: a desoneração de custos do setor (como a da folha de pagamentos e isenção de PIS/Cofins) e destinação do equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação, o que, além de atender a uma prioridade nacional, estimularia toda a cadeia produtiva.

Acabamos de ingressar com pedido para adoção de margem de preferência para impressos nacionais (editorias e cadernos) nas compras do governo federal. Também defendemos a reforma tributária, a previdenciária e a trabalhista, menos juros e impostos, visando a um choque de competitividade!

O senhor citou a dificuldade enfrentada quanto a concorrência de produtos importados. Quais segmentos dentro da cadeia produtiva que estão sendo mais atingidos?

Fabio Mortara — Pelos dados de desempenho do setor, vemos que as gráficas foram as mais afetadas. O segmento de produtos gráficos editoriais teve a maior queda até o terceiro trimestre (com desempenho 10,7% menor do que no trimestre anterior) e menos 16,2% no acumulado do ano.

Os impressos comerciais apresentaram recuperação de 4,6% em relação ao segundo trimestre e devem fechar o ano com aumento de 0,1% na produção (em 2012, havia registrado recuo de 10,3%).

As embalagens impressas, apesar do crescimento de 0,6% no terceiro trimestre em relação ao segundo, acumula queda anual de 1%. A expectativa é que feche 2013 com redução de 1%, quando a projeção inicial era de 1,7% de crescimento.

Falando em mercado internacional, quais são os segmentos da cadeia produtiva que se destacam como exportadores?

Fabio Mortara — Com certeza, o setor de papel e celulose é o maior exportador de toda a cadeia produtiva. Na indústria gráfica, o segmento de cadernos é, tradicionalmente, o que mais se destaca. Contudo, estamos fazendo grande esforço no sentido de contribuir para ampliar as vendas externas das gráficas brasileiras, por meio da aliança Graphia [Graphics Arts Industry Alliance].

Trata-se de parceria entre a Abigraf Nacional e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), estruturada em três unidades de negócios (Papelaria, Embalagem e Editorial-Promocional) e que disponibiliza para as empresas participantes uma estrutura de apoio operacional e logístico para as ações comerciais de prospecção, abertura e desenvolvimento de novos mercados. O projeto tem apresentado resultados, viabilizando exportações para 27 países das Américas, Europa, África e Ásia.

Até que ponto a disseminação das novas tecnologias (e-books, tablets, entre outros) tem afetado o setor de impressos?

Fabio Mortara — Creio que seria até ingênuo, por parte das editoras, indústrias gráficas, jornalistas, publicitários, publishers e amantes da palavra expressa no papel, negar ou resistir ao avanço do e-book e tecnologias eletrônicas. Também é desnecessário discorrer sobre as vantagens do livro e a comunicação gráfica em geral, sua magia, preço, peculiaridades inerentes às artes da impressão e outros diferenciais.

Mas, creio que o importante é ter consciência de que o mercado da comunicação, do jornalismo, da publicidade e do entretenimento tem espaço para todos os meios. E cabe a cada um agregar novas tecnologias, ampliar sempre a qualidade e se adequar às demandas de uma civilização cada vez mais inquieta e dependente da informação.

Busca por produtos de caráter ecológico e sustentável também é um aspecto do mercado que a indústria deve considerar, correto?

Fabio Mortara — Sim. E a cadeia produtiva da comunicação impressa e do papel tem se empenhado em mostrar à sociedade a sua importância para a disseminação do conhecimento e seu caráter sustentável. Nesse sentido, é relevante a campanha “Two Sides”, revolucionário movimento internacional focado na disseminação do conceito de sustentabilidade e valorização do papel e da comunicação impressa, que estamos trazendo ao Brasil.

Falamos há pouco sobre a busca por inovação e novas tecnologias. Como as indústrias conseguem se diferenciar nesse quesito em relação a outros países?

Fabio Mortara — Dois elos de nossa cadeia produtiva – a indústria brasileira de papel e celulose e as gráficas nacionais – merecem destaque. Ambas têm, na tecnologia agregada, qualidade e processos, condições mais avançadas do que a observada em numerosos países e em nada perdem para as melhores do mundo. Como já disse, nossa desvantagem competitiva está nos impostos, juros, burocracia e no “Custo Brasil” em geral.

As empresas do setor têm utilizados os programas de fomento à inovação do governo? O Copagrem tem alguma ação voltada a esse objetivo?

Fabio Mortara — As entidades de classe encaminham setorialmente esse tipo de solicitação. No caso específico da indústria gráfica, a Abigraf registrou pedidos, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de linhas especiais de crédito para compra de papel e insumos. Isso impacta na inovação. Também conseguiu, recentemente, uma importante conquista, no sentido de que as gráficas produtoras de embalagens possam vender por meio do Cartão BNDES.

As associações nacionais estão com previsões otimistas para fechamento do ano? Quais as perspectivas?

Fabio Mortara — No caso da produção de celulose e papel, podemos observar, na publicação mensal “Conjuntura Bracelpa” [Associação Brasileira de Celulose e Papel], um aumento, respectivamente, de 6,6% e 1,4%, no acumulado de janeiro a setembro de 2013, em comparação a igual período do ano passado.

Com relação à indústria gráfica, ainda não temos os dados consolidados. Porém, a produção no terceiro trimestre encolheu 5,4% em relação ao segundo. No acumulado do ano, a queda é de 9,3%, em comparação com igual período de 2012. Com base nesses números, apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional) reviu a projeção dos resultados do setor para 2013. Até o momento, esperávamos encolhimento de 2,4%, mas o recuo deverá ser de 5,6% ante 2012.