Especialistas debatem usos múltiplos dos reservatórios das hidroelétricas

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

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Jorge Miguel Samek, diretor-geral brasileiro de Itaipu Binacional. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Os usos múltiplos dos reservatórios das hidroelétricas foi tema de um dos painéis da Semana de Infraestrutura (L.E.T.S.), na manhã desta terça-feira (20/05). O moderador do debate foi Décio Michellis, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O diretor-geral brasileiro de Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek, falou sobre a experiência da conexão entre energia, alimento e desenvolvimento regional sustentável.

“Trabalhamos fortemente essa conexão. Porque a nossa matéria-prima é água, que coincidentemente é a mesma matéria-prima de toda a economia regional que vive da agricultura. E Foz do Iguaçu, onde está inserida Itaipu, tem toda sua economia baseada no turismo, advindo da água”, explicou. “Para produzir energia, a hidroelétrica precisa apenas da gravidade, mas não podemos ter um olhar mesquinho e não usar esse insumo principal da melhor forma possível.”

Samek afirmou que é possível compatibilizar o desenvolvimento econômico, a geração de emprego e renda com a proteção ao meio ambiente. Também defendeu a construção da usina de Belo Monte, mesmo com os protestos de ambientalistas. “Vamos ter que dobrar nossa capacidade energética nos próximos 15 anos. O Brasil tem todas as matrizes energéticas possíveis, mas umas são caras, outras são poluentes, outras difíceis”, comentou. “A natureza nos privilegiou. Se não usarmos isso é um crime de lesa pátria. Ainda bem que os investimentos estão vindo, mas é preciso ter esse novo olhar, da múltipla utilização.”

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Fábio de Gennaro Castro, vice-presidente do Comitê de Barragens. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Com foco na lei 9433, que instituiu a política nacional de recursos hídricos, Fábio de Gennaro Castro, vice-presidente do Comitê de Barragens, afirmou que ela deve permear todas as decisões relativas ao uso da água. “Entre os itens da lei, ela diz que, em situações de escassez, o uso prioritário é o consumo humano e a dessedentação de animais. E a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo da água.”

Ele apresentou uma carta, enviada no fim de 2013 pelo Comitê de Barragens e por outras entidades para ao governo federal, listando ações para que a hidroeletricidade seja um fator de desenvolvimento do país. “Pedimos que sejam reestudados os inventários dos rios brasileiros, para que nada aconteça por decreto, mas seja objeto de um planejamento nacional, com discussão com os interessados”, afirmou.

“Se entrarmos na questão ambiental mais a fundo, é fundamental que, onde existam comitês de bacia, que eles opinem. Mas que isso seja visto de princípio. Não como foi feito em Belo Monte, em que foi feito um leilão, é iniciado o processo e só durante o período inicial surgem solicitações que não estavam previstas anteriormente, desandando o equilíbrio econômico.”

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Geraldo Lúcio Filho, do Centro Nacional de Referências em Pequenas Centrais Hidroelétricas (CERPCH). Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Geraldo Lúcio Filho,do Centro Nacional de Referências em Pequenas Centrais Hidroelétricas (CERPCH) trouxe a visão acadêmica sobre a questão. Um dos pontos que ele destacou foi a necessidade das hidrovias.

“A questão mais crítica dos grandes reservatórios com relação aos usos múltiplos é o transporte hidroviário”, disse ele, destacando a questão econômica. “O custo de uma eclusa é muito grande, tanto de construção quanto operacional. Em alguns projetos, caso de Santo Antônio do Giral, há justificativa de construção de hidroelétrica, informando que serão instaladas eclusas e que vai permitir a navegabilidade. E depois, isso é tirado do projeto, o que traz um impacto negativo para os reservatórios.”

Lucio Filho concluiu apresentando duas propostas. “Proponho a implantação de reservatório com a implantação de parques eólicos, on-shore ou off-shore e também a produção de biogás usando as macrófitas como material dos biodigestores.”

Último palestrante, Jerson Kelman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comentou que o uso múltiplo de reservatórios é algo ainda pouco percebido no país, mencionando o controle de cheias. Ele também destacou a questão do sistema elétrico interligado brasileiro, citando as questões específicas da Bacia de São Francisco e de Tapajós.

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Jerson Kelman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

“Nós somos um país predominantemente hidroelétrico. As decisões que se tomam com relação aos reservatórios não têm consequência apenas local. Temos um sistema interligado nacionalmente e é preciso ver as consequências das decisões tomadas localmente na escala do país e não apenas na bacia hidrográfica.”

Kelman também falou da necessidade de investimento no transporte hidrográfico. “Na questão do uso múltiplo, é preciso que ao menos um rio que saia do Planalto Central que tenha uma hidrovia, um trecho de rio que você torne navegável”, diz. “Não é razoável que haja centenas de milhares de caminhões, transitando por nossas estradas, levando grãos. Precisamos escolher um rio que faça sentido e fazer uma hidrovia de verdade.”

L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico. O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets