Reforma da estrutura regulatória é essencial para aumentar inserção internacional do agronegócio

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Os desafios para aumentar a presença do agronegócio brasileiro no mercado internacional foram tema da reunião desta segunda-feira (7 de maio) do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag).

Ao abrir a reunião, Jacyr Costa, presidente do Cosag, mencionou eventos importantes do agronegócio realizados nos dias anteriores, a Expozebu e o Agrishow. O sucesso da Expozebu se deveu à ABCZ, disse Costa, que também cumprimentou Francisco Matturro, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), e o prefeito de Ribeirão Preto, Duarte Nogueira pelos resultados da Agrishow.

Marcos Jank, CEO da Asia-Brasil Agro Alliance (ABAA) fez a palestra principal, sobre “Competitividade internacional do agronegócio brasileiro”. Abiec, ABPA e Única patrocinam a ABAA.

Muito eficiente na agricultura, o Brasil começa a perder quando vai vender, devido a problemas de infraestrutura, e vai mal no exterior, disse Jank ao iniciar sua exposição.

O projeto da ABAA, explicou, é um trabalho de representação física permanente, interagindo com stakeholders fora do âmbito governamental e acompanhando a formulação de políticas. E o grande objetivo é abrir mercados. Há um imenso mercado potencial, mas o processo de certificação é complexo, dificultando o acesso de frigoríficos.

Renasceu com força no mundo todo a pressão protecionista, destacou Jank, e o Brasil tem culpa por isso, por exemplo na Europa. Não falta assunto conflitivo.

Na opinião de Jank, a reforma da estrutura regulatória do comércio é, “de longe” a iniciativa mais importante para aumentar a inserção brasileira no mercado mundial de agro. É preciso, defendeu, fazer o benchmarking internacional, olhando para Austrália, Nova Zelândia e Peru, que têm feito bom trabalho, na hora de modernizar e agilizar a estrutura pública de suporte ao comércio exterior do agronegócio. Jank deu como exemplo o tempo que o Brasil leva para responder questionários.

É preciso integrar diplomatas, adidos, equipes locais, Apex e associações. No acesso a mercados é preciso derrubar barreiras não tarifárias e retomar negociações comerciais. Buscar novos mercados (Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Indonésia) para velhos produtos e levar novos produtos a velhos mercados. O governo precisa estabelecer marcos regulatórios estáveis.

E o grande desafio é a adição de valor, diferenciação e imagem. Por exemplo, na Ásia o trabalho em imagem se concentra em sanidade e qualidade, e quase nada em sustentabilidade.

Panorama

Estados Unidos (commodities, com 11% das exportações) e Europa (com maior valor agregado, 10%) são os grandes players do agronegócio mundial. China (6%) supera o Brasil (5%) nas exportações, tendo crescido 9% ao ano, tendo como grande mercado a Ásia.

Nas importações a China sobe para 11% (quando combinada com Hong Kong), atrás dos 12% da União Europeia e 11% dos EUA.

O Brasil tem o saldo comercial mais importante, seguido de Argentina, que tem crescido, Canadá e Austrália. Se não fosse o agronegócio o Brasil estaria enrolado no saldo comercial.

Jank acha péssimo que esteja estagnado o nível de importações do Brasil, por não dar ao agro moeda de troca quando busca novos mercados.

“Temos que fazer reformas que permitam que o Brasil importe mais, inclusive no agronegócio. Se não repensarmos isso, o país vai ficar para trás”, afirmou

Houve mudança radical no destino da exportação do agro, sendo a Ásia hoje destino de 48% (China e Hong Kong, 30%). “Não podemos brigar com a China, que é nosso maior comprador.” São quase US$ 30 bilhões por ano para a China, sendo cerca de 70% disso graças à soja.

Destacou a importância da feira chinesa de importações (leia mais sobre ela adiante neste texto). É mais importante ir lá em novembro do que bater todo mês em Bruxelas.

Quatro cadeias produtivas (complexo da soja, açúcar e etanol, produtos florestais, carne e couro) são responsáveis por 77% das exportações. Nossa pauta é muito concentrada, e tende a ficar nos produtos agrícolas, menos complexos que as proteínas animais. Há perda de share em todas as carnes, mas ganho nos produtos agrícolas, com destaque para o forte crescimento anual do share em milho e algodão. “Ganhamos share nos produtos em que os países facilitam para o Brasil.”

Nas commodities que interessam ao Brasil, o país tem forte controle em soja e farelo de soja, no açúcar, na carne de frango. Vê movimento de aproximação da China com a Europa, pelo lado dos importadores, enquanto estão muito pouco organizados os exportadores, apesar de concentrarem fortemente a venda dessas commodities.

Em países desenvolvidos há pressão contra o consumo de carne, que tem caído, mas há quantidade muito grande de países com grande população que ainda consomem pouca carne.

Desafios para o Brasil são adicionar valor, por exemplo com tarifas mais altas em farelo e óleo de soja. Para a carne de frango os obstáculos são muito maiores, com muitos países fechados. Poucas plantas são habilitadas a vender. Em suínos também poucos países compram do Brasil. Em relação à carne bovina, mostrou a diferença entre o acesso da Austrália e do Brasil ao mercado asiático. Japão, Coreia do Sul, Indonésia e Vietnã estão fechados. Se conseguisse exportar para eles, seriam US$ 870 milhões por ano de receita adicional.

A Austrália consegue vender carne a US$ 7.000 por tonelada, contra US$ 4.000 do Brasil. “Fizeram sua lição de casa”, disse Jank, oferecendo carne apreciada na Europa, com rastreabilidade.

Jank explicou mecanismos norte-americanos de estímulo ao acesso do agronegócio a novos mercados. Em 2018 foram beneficiadas 70 associações. O orçamento anual do Brasil, da Apex, para agências de promoção de exportações e investimentos, não é inferior ao de países concorrentes, mas há pouquíssimos escritórios. Falta representação em países da Ásia que não a China. Outros países têm presença muito forte de seus escritórios internacionais na outra ponta. No Brasil os funcionários ficam concentrados no próprio país.

A visão chinesa

Valmor Schaffer, presidente da Cofco Agri, maior empresa de alimentos da China, elogiou a apresentação de Jank. “Acertou na mosca nas observações que fez” a respeito da China.

As empresas brasileiras efetivamente não conhecem muito do marco regulatório de outros países, e empresas de outros países que vêm para cá não conhecem absolutamente nada do marco regulatório brasileiro. Multas astronômicas surpreendem as matrizes. Deveríamos ter alguém que respondesse antes sobre questões tributárias, defendeu.

A Cofco estima que até 2021 haverá 600 milhões de habitantes chineses na classe média, que consome mais proteína animal, que exige para sua produção o aumento da produção vegetal.

Na hora de investir os chineses veem a viabilidade do negócio. Quem for tentar vender precisa se preparar para levar coisas com consequência.

A Cofco é cobrada sobre investimentos em infraestrutura e transporte no Brasil e deve nos próximos meses anunciar projetos, revelou.

Qualidade e sanidade são mandatórios na hora de exportar para a China, afirmou Schaeffer, e o Brasil tem problemas recorrentes. Por exemplo, ao armazenar milho os produtores usam inseticida mais barato, em vez do produto adequado. “O maior drama é chegar a um porto e ter um navio refugado.” Defendeu trabalho duro na questão da qualidade e da sanidade, citando as aflatoxinas.

Sobre a guerra comercial, disse que deve beneficiar o Brasil, mas cria uma distorção do mercado e não é possível saber suas consequências futuras. “O cenário é muito ruim” fora do curto prazo.

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Reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp . Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Jacyr Costa, presidente do Cosag, cumprimentou Roberto Rodrigues, que integrou a mesa principal da reunião, por entrevista publicada no dia anterior pelo jornal O Estado de S. Paulo. “Ele coloca a agricultura antes da política.”

Confiança

O Índice de Confiança do Agronegócio (IC-Agro), índice estruturado em conjunto por Fiesp e OCB, foi tema da reunião. “O índice é muito importante”, disse Jacyr Costa, e precisa ser compreendido. Roberto Betancourt, diretor titular do Departamento do Agronegócio da Fiesp (Deagro), explicou os números do levantamento.

Há um recorde de confiança revelado pelo IC Agro, mas é muito desigual entre agricultura e alguns ramos da pecuária, estando negativo em relação ao leite, exemplificou Betancourt. Ainda falta incluir aves e suínos, setores que estão em situação ruim. Tudo tem ajudado o setor de soja e milho, mas cana e café puxam para baixo o índice. A explosão de produtividade e preço dos grãos levou a indústria a bater recordes de confiança. O otimismo se deve à capitalização do produtor rural, que está comprando antecipadamente.

Missão à China

A missão empresarial à China International Import Expo foi tema da reunião. Harry Chiang, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex) explicou a importância do evento e convidou os empresários presentes a participar. “Nossa missão é vender, vender e vender.” A Fiesp vai tentar preparar os empresários que não têm experiência em vender para a China.

A China, disse, está promovendo, pela primeira vez, reuniões regulares com governos, inclusive o brasileiro, para que a feira seja bem-sucedida. A China pretende importar até US$ 10 trilhões nos próximos 5 anos. “O Brasil está em ótima posição para exportar”, afirmou, lembrando que as disputas comerciais entre China e EUA abrem oportunidades.

A classe média chinesa está aumentando, disse Chang, e tem grande interesse em produtos importados. E o Brasil é bem visto por ela.

Devem passar 150.000 compradores pela feira, que ocupará 240.000 metros quadrados e terá a participação de 120 países. Destacou dos 8 pavilhões o de alimentos e agro. Realizada de 5 a 10 de novembro em Xangai, é a primeira feira organizada pelo governo central da China.