Consultor dá dicas de como se preparar para oportunidades na China

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

“A China precisa conhecer o mundo e o mundo precisa conhecer a China”. A frase do discurso de posse do presidente chinês, Xi Jinping, foi enfatizada na palestra de Daniel Lau, diretor de China Practice para América do Sul da consultoria KPMG, nesta segunda-feira (08/09), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Lau foi um dos palestrantes convidados para a reunião plenária do Comitê da Cadeia Produtiva do Papel, Gráfica e Embalagem (Copagrem) da Fiesp.

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De acordo com consultor, momento é das médias empresas chinesas procurarem parceiros, fornecedores e compradores pelo mundo afora. Foto: Beto Moussalli/Fiesp


O encontro, presidido por Fabio Mortara, coordenador do Copagrem e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo (Sindigraf-SP), também contou com apresentações da presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagem (Abre), Gisela Schulzinger, e do diretor e do Instituto para o Desenvolvimento das Organizações (IDO Brasil), Andreas Dohle.

Daniel Lau destacou que a China vive um movimento bastante interessante, tendo a urbanização no eixo central de seu desenvolvimento nos últimos 30 anos. Há três anos, segundo ele, o percentual de população urbana superou a rural, chegando a 51%. “Em 2011, 21 milhões de pessoas se moveram da zona rural da China para as áreas urbanas, o que seria equivalente a duas cidades de Nova York”, afirmou.

Mas, de acordo com o especialista, esse processo não será contínuo e deverá se processar até 2030, sendo, portanto, o momento atual uma oportunidade única.

Ele destacou que o “boom” em que as grandes empresas chinesas iam para o exterior já passou e agora está sendo a vez das médias empresas chinesas procurarem parceiros, fornecedores e compradores pelo mundo afora. “Esses anos de 2014 e 2015 são anos bons para os senhores entenderem, conhecerem a China e formarem o seu networking pessoal na China”, recomendou.

Lau esclareceu que fica a cargo dos governos locais, isto é, dos prefeitos e secretários do Partido, a tarefa da gestão do processo de urbanização em curso, identificando fontes de capital e serviços. Vale ressaltar, no entanto, que na China a figura do Secretário do Partido é mais importante que a de um prefeito e, portanto, merecem mais primazia nos cumprimentos.

Alguns aspectos culturais chineses no mundo dos negócios também foram destacados pelo especialista. O primeiro deles é que, embora existam numerosos dialetos regionais, a melhor comunicação é a no idioma mandarim.

Outro aspecto é a prática do “guanshi”, isto é, a rede de contatos (ou networking). “O guanshi é feito na China há cinco milhões de anos. Portanto, é mais complicado, pois ele pode ativar ou fechar todas as portas”, ressaltou.

Outra expressão citada é o “menzi”, que traduzindo seria o valor da sua face, ou valor da sua pessoa. “Na China tem-se uma preocupação exagerada quanto a isso. Uma vez que a sua imagem é consolidada você tem que se preocupar em manter ou melhorar essa imagem. Por esse motivo, uma resposta a um negócio pode demorar muito, às vezes”, justificou.

A figura do intermediário ou  “middleman” também é muito frequente nos negócios com os chineses e, portanto, é um aspecto a ser observado, segundo o especialista.

Lau também destacou em sua palestra que é importante os empresários brasileiros terem uma ideia das dimensões mercadológicas da China, pois algumas regiões ou cidades, equivalem a população de um país inteiro. Por exemplo, a população de Xangai equivale à da República dos Camarões.

Consumo da geração pós-90

Outro fenômeno social da China apontado por Daniel é a geração de jovens que nasceram após os anos 1990. São cerca de 135 milhões de jovens, dos quais oito milhões, por ano, se formam nas universidades e procuram emprego. “Esses jovens têm vontades bastante diferentes das gerações anteriores.”

Se em 1980 apenas 10 mil jovens chineses estudavam no exterior, em 2012, esse número chegou a 340 mil estudantes. Esses jovens têm outras características de consumo e se endividam, por exemplo, para comprar produtos de marcas e grifes. “É um desafio, para as empresas reter os talentos e também se comunicar com esses jovens.”

Oportunidades estratégicas

Para as empresas interessadas na possibilidade de fazer negócios com a China, Daniel Lau sugeriu que percebam as possibilidades do Plano Quinquenal e da 3º Plenária (da atual liderança do Partido Comunista Chinês), que foi aprovada em novembro de 2013. Segundo o especialista, esses planos funcionam como “faróis de milha”, dando uma perspectiva do que a China quer alcançar no futuro.

No caso do Plano Quinquenal já estão estabelecidas as metas: desenvolvimento do oeste chinês, transito econômico movido pelo consumo interno, melhoria da qualidade de vida dos cidadãos chineses, proteção ao meio ambiente e melhora na eficiência energética.

“É importante ver onde, no atual plano, a sua indústria pode se inserir”, sugeriu Lau, destacando algumas atividades como conservação de energia, proteção ambiental, biotecnologia, veículos de energia limpa, equipamentos de alta qualidade, entre outros.

Já a 3ª Plenária delineou como a sociedade chinesa irá se encaminhar nos próximos anos, dando ênfase nas reformas, na mudança em relação a política de preços (que agora passam a ser determinados pelo mercado) e a participação de capital privado nas empresas estatais chinesas.

Lau também ofereceu uma série de dicas aos empresários interessados em fazer negócio na China ou com chineses. Entre elas, destacou: “envie seus melhores profissionais logo no começo; seja paciente; estabeleça condições contratuais claras; conheça o seu parceiro e faça bem a diligencia e investigação forense; diversifique a equipe de liderança (conselho consultivo); alinhe as operações entre matriz e a filial na China”.

O consultor também deu, ainda, outra dica de ouro: ao se criar uma empresa na China, o empresário deve tomar o máximo de cuidado com o carimbo da empresa, pois quem o tiver poderá faz o que quiser com a empresa.

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Entrevista: Fabio Mortara, coordenador de novo comitê da Fiesp, fala de desafios da cadeia produtiva gráfica e do papel

Guilherme Abati e Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

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Fabio Mortara: 'entidades nacionais vieram porque acreditam que está na hora da cadeia produtiva conversar'. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Pouco antes da primeira reunião do Comitê da Cadeia Produtiva do Papel, Gráfica e Embalagem (Copagrem) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na tarde de terça-feira (09/04), o coordenador do organismo, também presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas de São Paulo (Sindigraf-SP), atendeu a reportagem do site da Fiesp.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Qual o objetivo da criação deste comitê na Fiesp?

Fabio Arruda Mortara – A gente percebeu que a cadeia produtiva do papel, da indústria de comunicação impressa e das embalagens (que também é comunicação impressa) estava precisando se encontrar e começar a discutir suas questões de forma coordenada, integrada e sinérgica.  Então, surgiu a oportunidade, com o apoio fundamental da Fiesp, de reunir mais de trinta entidades da cadeia produtiva – a grande maioria das quais nacionais, que vão de agências de propaganda, jornais, livros e revistas, até a indústria de papel e celulose, de tecnologia da indústria gráfica –, para poder listar as questões mais importantes do setor e passar a tratá-las de forma eficiente e coordenada, como já fizeram, nesta casa, o setor do agronegócio, da construção civil e vários outros setores.

Qual é o maior desafio dessa área?

Fabio Arruda Mortara – A comunicação impressa, sem dúvida, atravessa um momento de grande desafio. Os equipamentos que não são atômicos são eletrônicos e nós vivemos de átomos. A indústria de comunicação impressa e de embalagens lida com átomos e a era da eletrônica, que alguns chamam de digital, são basicamente elétrons. A gente não tem nada contra os elétrons, mas nós temos uma feição muito maior aos átomos. E esse é o grande desafio: entender como a humanidade, a sociedade brasileira vai poder entender, perceber o valor e lidar com isso – sejam atômicas ou, no nosso caso, impressas (em papel ou em outras mídias – nas próximas décadas. E a cadeia produtiva unida vai fazer isso de uma forma, provavelmente, muito mais eficiente.

Jornais e livros têm o risco de acabar com o crescimento das mídias digitais?

Fabio Arruda Mortara – De forma alguma. Nós temos aqui, hoje, presentes, presidentes das principais entidades de livros, presidentes de sindicatos de jornais. Está claríssimo de que essas são mídias que vão permanecer durante muitas décadas, na indústria, na nossa sociedade e mesmo em sociedades desenvolvidas. Então, nós temos certeza de que as formas impressas realmente vão subsistir.  Agora, todas essas mídias vão se acomodar, lógico, mas a gente quer entender isso melhor e esticar o ciclo de vida de todos os produtos, na medida em que isso for possível.

Este encontro é histórico? Por quê?

Fabio Arruda Mortara – Nós temos hoje, aqui, mais de trinta entidades nacionais. Algumas são também sindicatos do estado de São Paulo, mas a grande maioria são entidades nacionais, que vieram porque acreditam que está na hora da cadeia produtiva conversar. E o destino desse grupo, desse comitê, vai depender, basicamente, do tipo de proposta, da consistência do que nós fizermos e dos resultados que a gente conseguir obter.