Especialistas defendem gás natural a preço justo durante 14º Encontro Internacional de Energia da Fiesp

Guilherme Abati, Agência Indusnet Fiesp

Na tarde desta segunda-feira (05/08), especialistas do setor de gás natural discutiram a questão do preço do recurso natural durante o 14º Encontro Internacional de Energia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O evento segue até esta terça-feira (06/08), no hotel Unique, na capital paulista.

Luiz Henrique Guimarães, presidente da Comgás, iniciou sua exposição afirmando que o preço justo é uma luta de todos do setor.  “Preço justo é aquele que é adequado, sendo fundamental para o crescimento do País. Os preços praticados aqui no Brasil estão em linha com os valores europeus. Estamos mais caros que os Estados Unidos, entretanto, estamos na média do mercado mundial”, informou.

Guimarães, presidente da Comgás: preços em linha com padrões europeus. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Guimarães, presidente da Comgás: preços no Brasil em linha com padrões europeus. Foto: Julia Moraes/Fiesp


“O gás natural não é o único combustível da matriz brasileira que não sofreu qualquer tipo de desoneração de impostos nos últimos anos. E por isso não passou dos 10% da base da oferta de  matriz energética”.

Para Guimarães, o preço competitivo só virá com  criação de um plano de crescimento de oferta. “Não existe redução de preço sem oferta. E para isso precisamos mensurar o tamanho deste mercado.  Precisamos saber onde queremos chegar para trabalhar pela meta”.

A revolução do gás natural 

Segundo Guimarães, o mundo sofre uma revolução e o gás natural está capitaneando está mudança.  “Há oportunidades para preços mais competitivos. A competitividade e o custo energético são estratégicos para o Brasil. Temos acesso limitado e infraestrutura desafasada”.

O presidente da Comgás disse que é preciso garantir uma oferta segura. “Precisamos de planejamento para o crescimento de oferta e demanda. Para tanto, precisamos integrar os setores de transporte, elétrico e de mobilidade para o crescimento do setor de gás natural”.

No fim de sua apresentação, o presidente da Comgás, fez recomendações para impulsionar o mercado de gás brasileiro. “Precisamos eliminar o PIS/Cofins na venda do gás natural. Precisamos também da geração de base com térmicas e leilões de energia regionais e por fonte, com maior incentivo à geração distribuída de forma geral. E, por fim, é necessária a redução de 10% no pagamento de royalties do óleo pelas empresas produtoras para o equivalente na produção de gás natural no ano”.

André Gohn, diretor da Solvay, empresa química da Bélgica que atua em 55 países, também deu destaque à questão do preço. “Esse é um ponto importante, já que o gás natural é estratégico e complementar”.

Gohn alertou sobre o atual cenário da indústria brasileira. “Há muitas incertezas. Gás na terra sempre haverá. O importante é ter políticas e regras para que o gás seja comercializado da maneira correta, no preço ideal”, pediu.

“O consumo nacional aumenta ao mesmo tempo em que a indústria nacional perde competitividade com o aumento das importações. É preciso senso de urgência. A indústria nacional passa por muitas dificuldades – o preço é uma delas. Precisamos de uma política setorial para o gás natural. Precisamos de um preço justo para o gás, para que possamos fazer negócios e fazer o país crescer”, encerrou.

Mais demanda com preços justos  

Edmar Fagundes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisou a questão pelo lado da demanda. “É o tema principal da indústria mundial. O preço justo deveria cobrir os custos de produção e permitir uma remuneração aceitável. Por parte da demanda, justo seria permitir a competitividade de forma sustentável.  O Brasil tem demanda desde que o preço seja justo”, analisou.

“Com um preço entre US$ 7 a  US$ 10 por milhão de BTU, teríamos um setor saudável. Com US$ 14 não somos competitivos e a indústria recorre à importação”, afirmou. “Se não compensarmos a falta de competitividade das indústrias nacionais com desvalorização cambial nosso setor não será sustentável”.

“Não há preço justo, há preço aceitável para cada nível de demanda”, encerrou. “Com um preço próximo dos US$ 7  por milhão de BTU (Mbtu) poderíamos alcançar em 2015 a produção de 110 milhões de metros cúbicos por dia”, encerrou.

Enrique Sira Martinez, diretor sênior na América Latina do IHS, apresentou um estudo sobre o preço justo do gás natural por parte da oferta. “O Brasil continuará a comprar gás natural de mercados estrangeiros, principalmente da Bolívia. A demanda interna é crescente e a indústria é a principal locomotiva”, afirmou.

Martinez: preço para alavancar a demanda. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Martinez: demanda interna por gás é crescente no Brasil e indústria é locomotiva. Foto: Julia Moraes/Fiesp


Martinez falou ainda sobre a previsão de preço de gás natural no Brasil. “Acreditamos que o preço não supere os R$ 11,98 a partir deste ano”, disse.

A mesa foi presidida por Lucien Belmonte, diretor-titular-adjunto da Divisão de Energia do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Fiesp.

Comgás confirma cálculo de volume de gás natural apontado pela Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

Durante o processo de revisão tarifária da Comgás, realizado nos meses de maio e junho, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contestou fortemente as previsões de consumo de gás natural, apresentadas pela concessionária e pela Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo) para o período 2009/2014.

Os dados divulgados pela própria concessionária nesta quinta-feira (30) dão razão à Fiesp. Já no mês de julho de 2009 foram vendidos 11,3 milhões de metros cúbicos diários. Este volume é muito superior à previsão apresentada pela Comgás em seu plano de negócios, elaborado para efeito da revisão tarifária. Nele, este volume só seria retomado em 2014.

É importante ressaltar que o volume registra proporção inversa à margem operacional, elemento básico para o cálculo da tarifa. Isto é, quanto menor o volume, maior a tarifa.

A Fiesp apresentou dois cenários de projeção de demanda (conforme dados da tabela), calculados com base em informações das indústrias que representa.Já a Arsesp, responsável legal pelo processo de revisão tarifária, previu em sua nota técnica que apenas entre 2011/2012 seriam comercializados 11,3 milhões de metros cúbicos diários. Na nota técnica revisada, sua previsão foi ligeiramente ajustada para 11,5 milhões de metros cúbicos diários para o mesmo período.

A entidade qualificou ainda como insustentáveis as previsões de volume apresentadas pela Comgás e pela Arsesp, que ignoraram um mercado pré-existente que superava 11,5 milhões de metros cúbicos diários no final de 2008.

A Fiesp também observou a contradição entre o plano de negócios aprovado pela Arsesp para a concessionária, que previa investimentos em infraestrutura de distribuição em torno de R$ 2,1 bilhões para o período 2009/2014, se o volume pré-existente fosse retomado apenas em 2014.

De acordo com os números apresentados pela Comgás, seu lucro operacional foi 200% maior no primeiro semestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2008, mesmo diante do momento de crise econômica mundial, da queda acentuada do PIB brasileiro e da redução do consumo de gás natural nos cinco primeiros meses de 2009, na ordem de 38,5%.

“Diante deste quadro, estamos certos que a Arsesp reconhecerá o equívoco de suas previsões e revisará imediatamente a nova tarifa estabelecida em junho de 2009”, afirmou Paulo Skaf, presidente da Fiesp.