Igualdade de um ex-detento começa na contratação profissional, diz executivo da Odebrecht

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

A variável de se empregar um ex-detento é a resistência por parte dos funcionários, mas é no processo de contratação que essa diferença diminui e o egresso que está disposto a se reintegrar à sociedade começa a se recuperar, afirmou Luciano Alfredo Bonaccini, executivo da Odebrecht.

Durante o segundo dia do Encontro Nacional do Programa Começar de Novo na sede da Fiesp, Bonaccini compartilhou com empresários e autoridades a experiência da construtora com sete apenados, ex-detentos, em uma obra no Estado de Minas Gerais entre 2007 e 2010.

“Os encarregados avaliaram bem essas pessoas. Trabalharam, se desenvolveram e tiveram sua oportunidade. Após o término da obra, os egressos voltaram ao mercado de trabalho”, afirmou o representante da companhia.

Ele alertou, no entanto, que cabe ao Estado desenvolver outros programas de reintegração depois que uma oportunidade profissional foi dada ao apenado.
“A obra terminou, e como dar continuidade a reintegração? Através de programas de oportunidade do Estado.”

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), idealizador do Programa Começar de Novo, concede um selo às empresas que oferecem oportunidades de trabalho para ex-detentos. A Odebrecht recebeu na manhã desta terça-feira (5) o selo do CNJ, após o trabalho realizado com os regressos em Minas Gerais.

Tranquilidade da obra

Bonaccini ainda afirmou que o maior desafio para a construtora durante o trabalho com egressos foi como manter a tranquilidade entre o quadro de funcionários da obra: “O ambiente de uma obra é relativamente tenso, são de duas a três mil pessoas em um ambiente restrito… em alguns casos temos obras com até dez mil funcionários.”

Antes da contratação de apenados, o departamento de Recursos Humanos da Odebrecht fez um levantamento para selecionar os encarregados de obra com perfil para realizar um trabalho com ex-detentos. “A pessoa que vai estar no dia a dia com o apenado tem que estar preparada para isso”, explicou Bonaccini.

Segundo o executivo, os operários se sentem receosos em trabalhar com apenados, principalmente, por conta de rotineiros momentos de tensão: “No momento de estresse, o apenado pode se declarar como ex-detento e dizer, por exemplo ‘toma cuidado comigo’. Isso já aconteceu. Então você precisa desarmar o espírito de postura de cárcere dele para o trabalho.”

Desfile de moda marca ressocialização de detentas

Alice Assunção e Cesar Augusto, Agência Indusnet Fiesp

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Na passarela, coleção criada por detentas de vários presídios do Estado

Um desfile diferente movimentou a sede da Fiesp na manhã desta terça-feira (6). A grife de moda Daspre, nome que faz referência ao fato de as roupas serem produzidas por detentas (das presas), demonstrou todo o potencial criativo e a capacidade de ressocialização de um grupo de sete mulheres paulistas.

Todas elas cumprem pena em regime semiaberto no Centro de Progressão Feminina do Butantã, em São Paulo. A primeira-dama de São Paulo e presidente do Fundo Social de Solidariedade do Estado, Lu Alckmin, é madrinha do projeto, lançado em 2008 pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap).

“Me sinto muito honrada de ter sido escolhida madrinha desse projeto que resgata o ser humano. Que elas aproveitem a segunda chance que estão tendo em suas vidas”, disse, emocionada, a primeira-dama antes da apresentação.

Foram 16 entradas na passarela para exibir a coleção de roupas, que incluía

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Após o desfile, modelos posam com Lu Alckmin (2ª da dir.p/esq.), madrinha do projeto

um vestido de noiva, criada por detentas de vários presídios do Estado. O programa ainda incluiu a colação de grau de um grupo de detentas e egressas do sistema carcerário de São Paulo, que receberam certificados de conclusão de cursos de Corte e Costura, Crochê, Bordados em Linha e Pedraria.

“As mulheres foram capacitadas para serem multiplicadoras na escola de moda. Aprenderam por dois meses, quatro horas por dia de segunda a sexta, técnicas de costura e modelagem e as tendências da moda”, disse Lu Alckmin.

O desfile integrou o segundo dia do Encontro Nacional do Começar de Novo, programa do Conselho Nacional de Justiça em convênio com a Fiesp e o Senai.

“Prisão é um lugar extremamente caro para deixar as pessoas piores”, diz Milton Gonçalves

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

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Milton Gonçalves afirmou que os investimentos na área de educação são importantes para o combate a criminalidade

“Eu poderia ter sido um criminoso, dadas as adversidades que a vida me trouxe, mas arte me salvou. Basta empenho de cada um de nós para que a sociedade seja mais justa”, declarou o ator Milton Gonçalves, aos mais de 400 participantes do Encontro Nacional do Projeto Começar de Novo, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Senai-SP, nesta segunda-feira (5), no Teatro do Sesi São Paulo.

O ator lembrou que a população carcerária brasileira dobra a cada oito anos, um número alarmante comparado ao crescimento da população. E observou que se o Estado e a sociedade civil não adotarem medidas eficazes até 2080, mais de 90% da população brasileira estará atrás das grades. “Noventa por cento da população morará em um condomínio fechado. Esta é a aposentadoria que vocês desejam? Este é o futuro que vocês sonham para os seus filhos e netos?”, questionou.

Na avaliação de Gonçalves, a falta de acesso da comunidade carente ao ensino básico, somada ao preconceito contra os negros, estimula os jovens a ingressarem na criminalidade. “A nossa grande missão é educar os meninos. É preciso educação em todas as esferas da sociedade para que o desenvolvimento intelectual se dê por completo provendo ao individuo desde cedo os implementos necessários para o seu crescimento enquanto cidadão ativo no seu grupo social”, apontou. E completou: “É preciso oferecer, minimamente, alimentação adequada para crianças e substratos para que ela possa seguir a diante com sua evolução individual com condições minimamente iguais das crianças abastardas”.

Durante a apresentação, Gonçalves afirmou que já sofreu discriminação racial e relatou um episódio marcante durante a sua adolescência, quando foi barrado por um guarda metropolitano, na Avenida Paulista, com a justificativa de que o lugar não era adequado para pessoas negras e pobres.

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Valmir Salaro, apresentador e repórter da Rede Globo

“Hoje estou aqui, em plena Avenida Paulista, e preciso dizer a vocês que é possível mudar o processo; basta vontade política e empenho social. O Brasil somos todos nós, não é uma entidade fantasma aos nossos interesses”. Emocionado, o ator completou: “Hoje eu digo: eu não vou sair da Paulista, meu senhor; meu lugar é aqui”.

Cobertura jornalistíca

Valmir Salaro, apresentador e repórter da Rede Globo, confidenciou que ao longo dos seus 30 anos de carreira, ele realizou poucas matérias valorizando a reintegração de ex-detentos a sociedade.

“Relatar apenas o aumento dos crimes é um erro gravíssimo que nós (jornalistas) cometemos e influenciamos a sociedade”, afirmou. E parabenizou a inciativa da federação: “Eu não conhecia o belo trabalho realizado pela Fiesp de reintegrar e dar educação a pessoas que nunca tiveram acesso”.