Análises da presença da cidade no cinema encerram a Mostra Franco-Brasileira

Dulce Moraes, Agência Indusnet

A “Cidade no Cinema” foi o tema do Colóquio de Cinema Franco-Brasileiro, realizado nesta quinta-feira (05/06), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Colóquio de Cinema Franco-Brasileiro - A Cidade no Cinema, contou com palestra da especialista em cinema francês, Céline Scemama. Foto: Helcio Nagamine/FIESP

O encontro fechou a programação da Mostra Cultural de Cinema Franco-Brasileiro, promovida pela Cátedra Globalização e Mundo Emergente Fiesp – Sorbonne.

Entre os dias 02 e 05 de junho, a mostra exibiu ao público nove filmes retratando a trajetória histórica do cinema, desde o período da Sinfonia das Cidades (Cinema Mudo) e a Idade Clássica  (Cinema Falado) até as fases do Cinema Moderno e Contemporâneo.

O Colóquio contou com a palestra “Cinema: o Deus das Nossas Cidades”, de Céline Scemama, professora de Estética do Cinema na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, que expressou a inter-relação e influência do cinema na construção das cidades. Especialista em análise de filmes, Céline é autora de livros como “Histórias do cinema de Jean-Luc Godard. A força fraca da arte” , “Antonioni – Deserto Figurativo”, entre outros.

Também participaram do Colóquio, as especialistas Carolin Overhoff Ferreira, professora de Cinema Contemporâneo no Curso de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Cecília Mello, professora de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

Em uma breve entrevista ao portal da Fiesp (leia ao final dessa página), Céline esclarece que a escolha do título de sua apresentação foi uma alusão ao filme brasileiro “Cidade de Deus”, que a impactou. “Mais que um tema eu quis apresentar uma problemática e demonstrar como o cinema é um resultado da cidade, ao mesmo tempo que ele cria a cidade. Tem essa relação dupla. O cinema retrata e também participa da criação da cidade”, explicou.

Recriação das cidades 

Com a exibição de imagens de filmes representativos do cinema francês, Céline demonstrou como cada cineasta percebeu e recriou as cidades em suas obras, dando um sentido próprio, mas também social, das sensações de cada momento histórico retratado.

Na foto (ao fundo de chapéu): Jean Vigo se deixa filmar em cena de festa nos bairros pobres da cidade, no filme "A Propos de Nice", de 1928 . Foto: Reprodução

No filme ‘A Propos de Nice’ (de 1928), por exemplo, a cidade francesa é retratada com o olhar anárquico de Jean Vigo, expondo os contrates sociais entre o requinte da elite e os bairros pobres do subúrbio. “O pai de Vigo foi um anarquista que faleceu na prisão. E essa dimensão anárquica dele é mostrada em sua obra, reforçando sua fama de ‘brigão’, que fala o que quer e não tem papas na língua”, explicou Céline.

Nesse mesmo sentido, ela citou outro longa-metragem da década de 1960 — o ‘L’Amour’ , de Maurice Pialat — que apresenta com tom violento e melancólico as cenas de pobreza de Paris a poucos metros do quadrilátero mais rico da capital francesa.

Céline ilustrou também como as ruínas das cidades, muito utilizadas em filmes épicos com uma áurea estética romântica, nas produções francesas e italianas do período pós-2ª Guerra Mundial ganharam outra dimensão. “O cinema transformou o mito romântico das ruínas clássicas gregas para a rigidez dos escombros das cidades bombardeadas”.

Imaginário e consciência social

O senso comum que se tem sobre certas cidades e metrópoles do mundo foi criado pelo cinema, na opinião da professora da Sorbonne. “O cinema registra a cidade em cenários e esses cenários serão gravados em nossa consciência e na nossa percepção sobre elas”. Contudo, essa possibilidade pode ser transformadora, ela acredita. “Se o cinema projeta nossas cidades ele nos permite perceber e pensar nossas cidades”, afirmou.

Em sua apresentação, Carolin Overhoff Ferreira, professora de Cinema Contemporâneo na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destacou que a industrialização provocou mudanças drásticas no mundo, como a urbanização, tendo um forte  impacto nos seres humanos e na nossa forma de pensar, fatos esses muito retratados pelo cinema.

Visão poética da cidade no curta "Manhatta", de 1928. Foto: Reprodução

Carolin exemplificou essa transposição com o filme “Manhatta”, de 1929. “Em seus curtos nove minutos, ele fala da cidade, das paisagens, dos skylines, mas também fala da vidas dos indivíduos, das pessoas na cidade”.

O Colóquio foi finalizado com a palestra da professora Cecília Mello, da Universidade de São Paulo (USP).

 

ENTREVISTA:

 

Céline Scemama é  professora de Estética do Cinema na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autora dos livros “Histórias do Cinema de Jean-Luc Godard. A força fraca da arte”  e “Antonioni – Deserto Figurativo”. 

Professora Celine Scemama, da Universidade Sorbonne. Foto: Helcio Nagamine

Como você acredita que a cidade interfere no cinema e o cinema interfere na cidade?

Céline Scemama – Minha apresentação tem o título de “Cinéma. Dieu dans la cité” (Cinema, o Deus das Nossas Cidades), fazendo um jogo de palavras com o filme brasileiro “Cidade de Deus”. Mais que um tema eu quis apresentar uma problemática e demonstrar como o cinema é um resultado da cidade, mas ele também cria a cidade. Tem essa relação dupla. O cinema retrata e participa da criação da cidade.

Em relação ao cinema europeu, como você avalia o cinema brasileiro nesse aspecto de retratar as cidades ?

Céline Scemama – Eu não sou especialista em cinema brasileiro, mas tive a oportunidade de assistir a alguns filmes brasileiros com esse enfoque, inclusive o  “Cidade de Deus”, do Meirelles, e outros também. Eu sinto que os problemas urbanos brasileiros conseguem ser lidos e enxergados e retratados no cinema brasileiro. Quando eu propus esse tema “A Cidade e o Cinema” a ideia era mostrar a diferença de como esses problemas urbanos são retratados pelo cinema, tanto do ponto de vista brasileiro como francês.

Você considera que o impacto do cinema em termos de transformação social é algo gradual?

Céline Scemama – Há duas abordagens que podemos analisar: a da imposição de um modelo dominante e há o outro modelo do Benjamin, do cinema como espetáculo e entretenimento, mas que permite uma certa tomada de consciência gradativa. Eu acredito que o cinema pode transformar a sociedade, mas ele passa por essa sensibilização interna e isso é gradativo.

Creio que o cinema norte-americano é o exemplo perfeito desse paradoxo. Pois ao mesmo tempo que ele impõe o modelo dominante de Hollywood ele também cria esse espírito da autocrítica. É como essa dinâmica opera entre imposição do modelo dominante e a percepção e tomada de consciência dos expectadores.

O Brasil recebeu bastante influência cultural francesa, especialmente no século 19. Como você avalia essa aproximação entre Brasil e França, via cultura e via educação, inclusive pela parceria entre a Fiesp e a Universidade de Sorbonne?

Céline Scemama – Acho essa parceria da Fiesp e da Sorbonne  muito positiva. Por outro lado, há alguns elementos que apontam que a Europa está em uma fase de declínio em alguns aspectos. Na verdade, estamos respondendo a uma necessidade, pois a Europa precisa dessa projeção. Esse tipo de encontro é importante para trazer quase uma “transfusão de sangue”, de energia, para Europa se renovar. E essa parceria responde a essa necessidade de renovar.