Especialistas defendem a educação digital para blindar crianças e adolescentes contra os riscos da internet

Roseli Lopes, Agência Indusnet da Fiesp

Pesquisa da MMA Mobile Report Brasil elaborada no ano passado concluiu que os brasileiros passam em média quatro horas por dia na internet. Seja para navegar, ler notícias, acessar e-mails ou conversar. Num mundo em que essa conexão começa cada vez mais cedo, falar de educação digital nunca foi tão atual para o uso seguro e responsável das redes de comunicação. O tema ganhou mais relevância dentro da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) com o 1º Congresso de Educação e Cidadania Digital promovido pelo Departamento de Segurança (Deseg) da Fiesp e realizado em sua sede, nesta terça-feira (19 de setembro).

“Fomentar o debate sobre educação digital, sobre a forma como interagimos nas redes, como nos relacionamos, levando para o ambiente online as mesmas cautelas e precauções da vida offline é fundamental para que possamos enfrentar a vulnerabilidade contida nas redes”, diz Ricardo Lerner, vice-presidente e diretor titular do Deseg. Para Lerner, os riscos presentes nesse meio de comunicação podem ter um impacto negativo sobre as gerações mais novas”.

Nessa linha, a educação é defendida como o meio mais eficaz para proteger os usuários da internet e redes sociais e ao mesmo tempo ajudar crianças e adolescentes a fazer o bom uso dessa ferramenta de comunicação presente no nosso dia a dia”, na avaliação de Alessandra Borelli, advogada, diretora e coordenadora do Núcleo de Educação Digital do Deseg.

Diretor de Educação do Sesi-SP, rede com 160 unidades espalhadas pelo estado atendendo o ensino fundamental, médio e uma unidade de educação infantil, Fernando Carvalho de Souza falou da convicção do Sesi a respeito da importância de se conscientizar alunos e principalmente a comunidade educacional sobre a necessidade do uso ético, seguro e responsável das tecnologias da informação. Falou sobre os programas de capacitação de sua equipe pedagógica com foco na educação do uso saudável da internet.

No Senai-SP, a questão da segurança cibernética é voltada para ajudar empresas, com base no estudo de que a maioria dos ataques se dá por problemas com pessoas e não dos sistemas. “Temos 13 módulos de educação a distância com temas variados e preparamos o 14º módulo com foco na Educação e Cidadania Digital, conta Ricardo Terra, diretor técnico do Senai-SP.

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Na fiesp, especialistas apontam os riscos que ouso abusivo da internet pela geração mais nova traz à saúde física e emocional. Foto; Ayrton Vvignola/Fiesp

Uso abusivo

Martha Gabriel, professora e consultora de Marketing, Inovação & Educação, falou sobre as mudanças na forma de se viver após as novas tecnologias. Chamou a atenção para as alterações na vida de todos com a tecnologia das redes. “A tecnologia digital não é apenas um instrumento facilitador de nossa vida no dia a dia. Ela mudou nosso modo de pensar e, principalmente, nossa maneira de agir”, diz.

Um dos problemas, e ao mesmo tempo desafio, apontados pela educadora diz respeito ao impacto não apenas na vida dos internautas, mas na educação como um todo, da explosão de conteúdo veiculado na internet, que gera um problema de validação da informação. “Está cada vez mais difícil validar as informações veiculadas, segundo a professora. Outro ponto para o qual Martha chamou atenção é a mudança no ritmo biológico de adolescentes que usam muito a internet.

Nessa mesma linha, “estudo recente, de 2015, comprovou que pessoas que ficam muito tempo online aceleram o ritmo biológico. Mas talvez a principal preocupação em relação à internet diz respeito ao uso abusivo por adolescentes e ao crescente número de crianças conectadas. Na avaliação do Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Hospital das Clínicas, a dependência digital se tornou hoje um problema de saúde pública. Há 30 anos Nabuco trabalha com saúde mental e nos últimos 15 tem se dedicado a pesquisar indivíduos que se valem da tecnologia de forma abusiva. “As pessoas perderam totalmente o bom senso de como usar as redes, especialmente por meio do smartphone”, diz.

Para o especialista, hoje, o que preocupa é a chamada geração digital, nascida a partir de 1995, criada sob a exposição a algum tipo de mídia digital. Essa geração diz ele, pode ter surfado na internet sem nenhum propósito 10 mil horas até os 18 anos de idade e 20 mil horas apenas com jogos de viodeogame. “É muita vida não vivida, fazendo com que os impactos comecem a aparecer de forma extremamente preocupante”, diz o psicólogo. Tudo isso, continua, tem criado um deslumbramento, uma sedução imensa e aquilo que tinha a perspectiva de ser bom de informação começa a se tornar um problema.

Essa preocupação em estar conectadas, estar passando coisas boas, começa a criar problemas de dependência, conta Nabuco. “Há casos de adolescentes atendidos por nós que chegam a ficar 45 horas conectados”, por mais absurdo que isso possa parecer, relata o médico. É como se esses jovens começassem a trocar a vida real pela vida da internet, diz ele.

Unicef

Essa “troca” está na mira do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), responsável por garantir os direitos de crianças e adolescentes. Adriana Alvarenga, chefe do escritório do Unicef em São Paulo, destacou que as mídias digitais se transformaram em um campo de interações, experiências e conhecimentos que podem contribuir muito com as crianças e  adolescentes para que ampliem seu universo de relações, suas fontes de conhecimento e formas de expressão. Usadas de forma errada, no entanto, expõem o adolescente a um ambiente nocivo.

Um estudo de 2015 realizado com crianças de 9 a 17 anos mostrou que quase 80% das crianças e adolescentes são usuários de internet. Isso representa 23,4 milhões de meninas e meninos. Adriana fala da preocupação em relação aos pais que acham normal crianças cada vez mais novas, ainda bebês, já brincando com tablets e smarthphones, quando os estímulos necessários nessa fase da vida para seu desenvolvimento pleno estão bem distantes desses aparelhos.

O desenvolvimento é o ponto central da avaliação de Evelyn Eisenstein, médica pediatra e coordenadora da Rede Esse Mundo Digital. Ela é crítica feroz do uso abusivo da internet pelos adolescentes e pior, de forma errada. “Não é só viver o mundo acelerado não, não é só passar imagem. Crescimento de criança e adolescente leva 20 anos. A internet pode ser uma arma digital. A gente tem hoje uma arma poderosa na mão de uma criança que não sabe o que está fazendo. Estamos vivendo em um mundo violento, não podemos querer educar os filhos usando a tecnologia com a desculpa da aparência e da imagem tecnológica. É preciso pensar o que queremos para nossos filhos e netos, qual o sentido da vida. É sobre isso que devemos refletir”, fala.

Segundo a médica, há pesquisas com evidências científicas mostrando que crianças que passam mais tempo em frente à tela da televisão são hiperativas. Diz que a saúde digital das crianças está sendo esquecida. que as crianças e adolescentes estão acessando a violência na internet e isso está causando medo, ansiedade. “O principal problema que estamos vendo são crianças com transtorno de sono por causa de jogos violentos na internet. Além disso, desenvolvem problemas de crescimento, de audição, de falta de apetite e problemas de postura, lesão de esforço repetitivo entre outros.

Pornografia infantil

A médica também citou a pornografia online com um fator de enorme preocupação, lembrando que a pornografia infantil no Brasil é atualmente o crime online mais frequente. E de que não há por que ter dúvidas de que se está diante de um problema de saúde pública. “Não basta dar oportunidade à criança de acesso à internet, é preciso fazer o alerta, falar sobre os riscos da tecnologia. Temos de falar sobre isso e proteger por meio da educação.

Outro perigo embutido nas redes foi lembrado por Fabiana Vasconcelos, psicoterapeuta e representante do Instituto Dimicuida. Ressaltou as brincadeiras disseminadas entre jovens na internet,  como o jogo de asfixia, o desafio do desmaio, o jogo do enforcamento ou a ingestão de canela em pó. “Crianças de 9 a 17 anos todos dentro desse  quadro perderam a vida para essas práticas”, disse. Esse é um dado estatístico dos EUA entre jovens do mundo inteiro. A pesquisa detectou mais de 1.300 crianças e jovens que perderam a vida no mundo inteiro com essas práticas.