Menos sufoco para São Paulo: deve chover a partir deste mês

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

As águas mais quentes do Atlântico este ano provocam tendência de maior fluxo da umidade oceânica e mais chuvas, disse o meteorologista Augusto José Pereira Filho em encontro do Conselho de Meio Ambiente (Cosema), dia 27, ao tratar das causas e dos efeitos da seca no Estado de São Paulo e na Região Metropolitana.

A previsão de Pereira Filho é que de setembro até o início de 2016 haverá significativa precipitação no Sul do Brasil, alcançando também São Paulo. No prognóstico apresentado, em dezembro, janeiro e fevereiro haverá pluviosidade intensa no Rio Grande do Sul e no norte da Argentina, com forte seca desde a Amazônia até o Nordeste, além de Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo.

Em função do El Niño, a probabilidade de chover mais em São Paulo é de 62%, e de chover menos, 38%. O evento El Niño, o pior dos últimos 65 anos, terá impacto global, particularmente na Indonésia.

Em 2014, o aumento da temperatura guardou relação direta com uma mudança climática local, por causa da ilha de calor que se tornou São Paulo e, em parte, por conta da diminuição da quantidade de nuvens, explica Pereira Filho.

O período chuvoso “mais seco” é de 1941, e o registro de 2014 está entre os 13 piores da série histórica. Mesmo assim, o período compreendido entre 2010 e 2013 encontra-se entre os mais chuvosos da história de São Paulo, em 82 anos, segundo o especialista.

Pereira Filho apresentou projeção, com base nos dados da Sabesp e do crescimento populacional ajustado, que a Região Metropolitana de São Paulo terá mais 2,5 milhões de habitantes daqui a 20 anos. “Isto significa que precisaremos de mais um Cantareira se nada for feito, mas se a Sabesp conseguir reduzir as perdas físicas é possível controlar o consumo exacerbado”, sentenciou.

Ele também frisou que, na RMSP, o verão começava em novembro e prosseguia até fevereiro e depois esfriava, na década de 30, mas agora se inicia em agosto-setembro e se prolonga até o mês de abril, e a temperatura subiu, em média, 2ºC – enquanto o aumento global foi de meio grau – e a umidade relativa do ar era mais alta também. A ex-terra da garoa não tem mais tanta nebulosidade, é mais poluída, com mais poeira, sinais de suas mudanças microclimáticas ao se tornar uma ilha de calor.

Para ele, algumas pessoas associaram o aquecimento global à falta de chuvas, mas o aquecimento faz com que haja mais evaporação de água e, portanto, o sistema fica mais úmido, e não seco, apontando para o que resulta em variabilidade climática e não em mudança climática.

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Reunião do Cosema, conduzida por Walter Lazzarini, com a participação do meteorologista Augusto José Pereira Filho. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Mudanças do clima no planeta

Entre as possíveis causas das mudanças climáticas que o pesquisador sinalizou encontram-se interações complexas entre atmosfera, hidrosfera, criosfera, litosfera e biosfera que determinam o clima.

O meteorologista lembrou que, em função dos testemunhos geológicos dos últimos 18 mil anos, é possível compreender que hoje 10% do planeta Terra, principalmente Antártica e Groenlândia, sejam cobertos por geleiras que antes se estendiam sobre latitudes médias – elas avançam e se retraem. “O último avanço na era glacial alcançou os Estados Unidos, quando a Amazônia se reduziu a uma savana, pois a água fluiu para a Antártica. Com temperaturas mais altas, no período interglacial, a quantidade de gelo e a temperatura oscilam muito e, quando se entra no período glacial, aí se permanece por milhares de anos. Ainda estamos no interglacial”, disse. Na Antártica, a quantidade de gelo, inclusive no oceano, tem aumentado ao longo do tempo e atingiu recorde em 2014, o que coincidiu com a crise hídrica em São Paulo, afirmou o especialista.

O Sol esteve em máxima atividade em 2000, e agora ela está caindo. Este mínimo de atividade solar irá perdurar por aproximadamente 25 anos, e a quantidade de aquecimento incremental irá diminuir, segundo a exposição feita. Desde 2006 o aumento da temperatura tem sido mais acentuado em altas latitudes, no hemisfério Norte; aqui, no Sul, registra-se queda. “Minha posição é que tem havido, na média, um resfriamento, e o aumento de acúmulo de gelo na Antártica para nós é péssima notícia, porque a evaporação mais alta aqui leva a umidade para lá e ela não retorna”, explicou.

Em sua conclusão, as causas das mudanças climáticas locais são relacionadas à vegetação, crescimento urbano, poluição do ar e efeitos globais de menor impacto. “As mudanças climáticas devem causar desastres naturais mais frequentes e mais graves”, disse, e é uma retroalimentação dos problemas – prejuízo, crescimento populacional, poluição ambiental, epidemias, sistema de saúde precário – diante de maior exposição aos efeitos do tempo, com seus ciclones, tempestades, deslizamentos que levam a mais prejuízos e menos desenvolvimento.

Por isto, ele reforçou o trabalho necessário a ser desenvolvido por diversos agentes, inclusive pelo Conselho de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp, para que trabalhe em um círculo virtuoso de prevenção, mitigação, preparo, monitoramento, planejamento, legislação, uso do solo e da água, além do controle da poluição que levaria a um quadro de risco menor em termos ambientais.

O presidente do Cosema, Walter Lazzarini, enfatizou que o encontro trouxe reflexões e conceitos importantes e que “a questão do aquecimento global sempre provoca grandes debates”. Ele reafirmou o compromisso da indústria, pois a Federação mantém um Comitê de Mudança do Clima, que irá à COP21, e tem participado periodicamente das Conferências das Partes.

Augusto José integra o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo, é PhD em Meteorologia pela University of Oklahoma e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP). O professor pesquisa, leciona e desenvolve projetos com ênfase em sensoriamento remoto da atmosfera por radares e satélites ambientais, entre outros temas.