Christiane Torloni: ‘Ou você é nelsonrodrigueano, ou você não é brasileiro’

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

Nelson Rodrigues não perdia a oportunidade de ridicularizar a figura do psicanalista: “Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso ainda é o psicanalista”, disse, certa vez. Sua obra, predominada pelo sarcasmo, possui conceitos identificados com a psicanálise e com o teatro grego.

Para tentar descobrir por que os psicanalistas eram loucos por ele, o palco do Teatro do Sesi São Paulo recebeu na noite desta quarta-feira (24/10) a atriz Christiane Torloni, estrela da segunda versão de O Beijo no Asfalto (1980), ao lado do jornalista Luiz Zanin Oricchio, do jornal O Estado de S. Paulo; o psicólogo Elie Cheniaux, coautor do livro Cinema e Loucura, que estuda as obras de Nelson; e Ruy Castro, biógrafo e curador do projeto do Sesi-SP Nelson Rodrigues 100 anos.

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Da esquerda para a direita: o jornalista Luiz Zanin Oricchio, a atriz Christiane Torloni, o biógrafo de Nelson Rodrigues Ruy Castro e o psicólogo Elie Cheniaux. Foto: Mauren Ercolani.

Christiane Torloni, uma nelsonrodrigueana assumida, disse estar feliz de participar do debate. “É muito bom ser unido pelo Nelson. Ele é, literalmente, um anjo pornográfico”.

A atriz contou que era muito importante o fato de Nelson acompanhar as filmagens. “Pecar era uma coisa muito importante, mas com a bênção do Nelson era perfeito. Você peca com a bênção dele”, afirmou.

Segundo Torloni, o contato com o dramaturgo no início de sua carreira foi fundamental. “Nelson é como Shakespeare, pois sua métrica não é para ser natural. Ele é um homem do teatro e entende que essa naturalidade transporta as pessoas”, afirmou ao revelar que sentiu raiva quando ele morreu. “Eu nunca tive tanta raiva de um morto, porque ele morreu antes do filme ser lançado e isso foi uma grande decepção. Eu me senti traída”.

Na visão da atriz, revelar Nelson para o brasileiro é uma tarefa difícil, porque ele não tem “papas na língua” e nos faz ver e ser o que realmente somos e, assim, questionar-se: “Por que nós, brasileiros, somos assim? Quem somos nós?”.

“Nelson Rodrigues traz essa brasilidade de uma maneira tenebrosa. Queira você ou não, ou você é nelsonrodrigueano, ou você não é brasileiro”, afirmou.

Ruy Castro completou: “se Nelson escrevesse em outras línguas, ele não seria brasileiro”.

“Depois que você encontra o seu Nelson Rodrigues, você se converte. Não tem volta”, alertou Torloni.

Nelson no divã

O debate discutiu os conceitos de psicanálise usados nos textos do autor. “Nelson Rodrigues era ao mesmo tempo um moralista e um tarado”, afirmou o psicólogo Elie Cheniaux ao explicar que sua obra causa um efeito moral na plateia.

“Ele acaba satisfazendo os dois lados: o Id, com a satisfação dos desejos sexuais, agressivos e homicidas; mas também o superego, com a condenação na própria obra, que traz a punição e a morte”, explicou o psiquiatra ao lembrar que nas obras rodrigueanas sexo e morte andam sempre de mãos dadas. “Seus personagens fazem coisas terríveis e são punidos”, explicou Cheniaux.

Na visão do jornalista Luiz Zanin Oricchio, Nelson era um homem incômodo que nos joga na cara muita coisa para qual estamos mal preparados para aceitar, mas que sabemos que são importantes. “Ele falava coisas indigeríveis. Sua obra ao mesmo tempo atrai e causa repulsa”, afirmou ao ressaltar que suas obras têm valor universal no sentido de que atingem o psiquismo não só do cidadão brasileiro, mas sim de toda sociedade brasileira.

O jornalista acredita que a sensação de estranheza que as obras rodrigueanas causam nos leitores e espectadores têm a ver com a cobrança do público pelo realismo do dia a dia.

Mas, para Oricchio, Nelson trabalhava com os desejos. “Ele é uma figura associada a extremos que mexe com pulsões nossas extremamente primitivas, das quais temos pouca consciência e não queremos ter consciência”, explicou.

Ao lembrar as chamadas peças míticas rodrigueanas, afirmou que “possuem elementos que descem mais baixo no pensamento psíquico humano: é o Nelson fundamental”.

“Uma vez que você é mordido pela obra de Nelson Rodrigues, você está perdido: é para o resto da vida”, concluiu.