No Centro Cultural Fiesp, Chacal convida o público a experimentar a diferença entre a poesia escrita e a poesia falada

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Palavra com forma, som e ritmo. Ela e suas mais diversas manifestações foram alvo do bate-papo realizado na noite desta segunda-feira (18/11) no Espaço Mezanino, no Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso, com o poeta, letrista, músico e performer, Chacal.

Do alto de seus quase 40 anos de carreira, Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal, prefere se autodefinir como um “Falador de Poesia”, ou um performer (no termo mais contemporâneo) ou, simplesmente, um apresentador oral de seus poemas.

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Chacal: teatro, literatura e poesia em pauta no InteligênciaPontoCom. Foto: Beto Moussalli/FIESP


Encontrar o que distingue o texto escrito do texto falado sempre foi motivo de inquietação a Chacal. Afinal, se os signos escritos e orais são semelhantes, porque é tão diferente um poema escrito de um falado? “Eu acho que a gente fala para ajudar a clarear o texto escrito. Ou talvez seja uma área híbrida entre o teatro a entoação do poema”, refletiu o poeta.

Mas, para ele, mais do que pensar, o ideal é sentir o texto escrito e o texto falado. E por isso, em sua palestra, ele convidou a plateia “experimentar” a leitura e a audição de poema.

Inicialmente, propôs que todos lessem, individualmente, o poema “Jornalário” (do livro Galaxias, do poeta Haroldo de Campos) e um trecho do poema Sexo (de André Sant’anna). E depois pediu que ouvissem a declamação dos poemas na voz dos autores.

Ele confessou que sempre teve dificuldade de entrar nas “galáxias” de Haroldo de Campos, até ouvi-lo declamar. “Com a gravação, conseguiu se iluminar para a beleza do texto. A voz e a dramaticidade que ele dá, ajuda a iluminar o texto. As pausas é a respiração do texto e é muito importante”, disse.

O público também pode assistir  a um vídeo com a declamação de André Sant’anna, durante a Feira Literária de Frankfurt. “Como podem ver, esses são textos de vertigem, para se ler sem pontuação. A leitura do André [Sant’Anna] tem algo de vertigem, mas ele também tem um certo humor, um tom irreverente e sarcástico”, ressaltou.

Relembrando sua própria trajetória de vida, Chacal disse que sua relação com a poesia foi iniciada não pelos livros, mas ela música.

Um poeta que o influenciou definitivamente foi Allen Ginsberg, o controvertido poeta dos anos 1970 que lutava contra a Guerra do Vietnã . Ele conta que a primeira vez que viu Ginsberg foi em Londres, em 1972, durante um festival internacional de poesia.

Naquele ano, Chacal tinha se mudado para a capital britânica logo após publicar o seu segundo livro intitulado “O Preço da Passagem”, cujo título se referia à sua intenção frustrada de custear a viagem com a venda dos exemplares.

Para surpresa de Chacal, no festival de poesia, Ginsberg entrou com macacão e muletas. “Quando eu o vi declamando, fiquei maluco. Eu já tinha dois livros publicados, mas não sabia como passar da poesia escrita para a poesia falada.”

Leia, a seguir, alguns trechos da palestra de Chacal no InteligênciaPontoCom:

“Para mim, a poesia falada não está ligada ao escrito, mas está ligada ao canto, ao teatro”.

“Quando se vê uma declamação, o ouvinte torna-se um expectador e tudo que está em cena (figurino, cenário, interpretação) passa a ter significação”.

“Tem a coisa que é própria da apresentação, que é própria do canto. A cadência, o ritmo e as pausas que você faz, que são próprias da poesia falada, e que na poesia escrita você não encontra”.

“Para mim, a poesia entrou pelos ouvidos do que pelos olhos. Na minha casa ouvia-se muita música, meu pai ouvia tango, e era uma época muito rock’n roll”.

“A música popular brasileira tem um nível de letras muito alto, desde que o samba é samba. Tudo isso me influenciou, Das marchinhas, depois a Bossa Nova, a Tropicália, e também a musica internacional, como Bob Dylan e os Beatles”.

“E na época vivíamos contracultura, tudo era transgressão e buscávamos ir contra o cânone. Por isso nossa busca era na música”.

Para ver o vídeo da palestra de Chacal, clique aqui.

Chacal em poucas palavras

Chacal, nos anos 1970, foi um dos primeiros autores brasileiros a questionar a forma de publicação de poemas e utilizar o velho mimeógrafo para divulgar suas poesias. No teatro ele participou de montagens de grupos de vanguarda como Asdrúbal Trouxe o Trombone. Na música, foi parceiro em composições de Moraes Moreira (Revoada, Meio Fio), Lulu Santos (Você Teima) e 14 Bis (Xadrez Chinês). Também foi coautor dos hits “A Lata”, sucesso na voz de Fernanda Abreu, e “Radioatividade”  da banda Blitz de Evandro Mesquita.

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Emicida. Foto: Divulgação

Emicida no próximo InteligênciaPontoCom

O próximo bate-papo do InteligênciaPontoCom será com um dos grandes nomes da música contemporânea brasileira, o rapper Emicida. Fique por dentro da programação!


Chacal é o convidado do InteligênciaPontoCom no dia 18 de novembro

Agência Indusnet Fiesp

No dia 18 de novembro, segunda-feira, às 20h, acontece mais uma edição do evento InteligênciaPontoCom, que promove bate-papos entre o público e grandes nomes da área cultural, trazendo como convidado o poeta e letrista brasileiro Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal. Na palestra “Fala a Palavra, entre o Livro e o Teatro”, Chacal usa exemplos como Galáxias, de Haroldo de Campos, e Sexo, de André Sant’anna, para demonstrar as mudanças com a colocação da voz e da performance no poema. O evento é gratuito.

O Chacal: teatro, literatura e poesia em pauta no InteligênciaPontoCom. Foto: Divulgação

O Chacal: teatro, literatura e poesia em pauta no InteligênciaPontoCom. Foto: Divulgação

Irreverente, criativo e contestador, na década de 1970 Chacal marcou com a sua primeira produção com o livro Muito Prazer e foi um dos primeiros poetas a utilizar do mimeógrafo para divulgar sua poesia. Autor de diversos livros, ele continua escrevendo e vivendo com fervor. No currículo, além de seus poemas, estão as célebres parcerias com Lulu Santos, 14 Bis, Blitz e com outros grupos e compositores de sucesso.

Serviço

InteligênciaPontoCom – Chacal
Data: 18 de novembro, segunda-feira
Horário: 20h
Local: Espaço Mezanino (Avenida Paulista, 1313, em frente ao metrô Trianon-Masp)
Entrada gratuita