Artigo: Os líderes que as empresas brasileiras precisam

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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Por César Souza*

Fala-se muito que o tripé da sustentabilidade das empresas é baseado em três pilares: o econômico-financeiro, o social e o ambiental. Mas, no meu entender, falta, contudo, pelo menos mais um importante pilar: a capacidade de desenvolver líderes em todos os níveis, não apenas no topo. Ou seja, a sobrevivência e perpetuidade das empresas é diretamente proporcional à sua capacidade de desenvolver líderes de qualidade, além de oferecer produtos e serviços de excelência.

E o assunto liderança vem definitivamente tirando o sono dos presidentes das empresas. Em pesquisa realizada pelo Grupo Empreenda, 71% das empresas dizem não terem líderes suficientes, em quantidade e qualidade, para garantir a execução estratégica das empresas nos próximos anos. O estudo mostra também que as empresas não acreditam que seus modelos de gestão estejam adequados: 27% das organizações acredita ser preciso reinventar o modelo atual e mais de 70% dizem necessitar, ao menos, fazer algum ajuste.

Mas afinal qual é o termômetro para saber se o desempenho da liderança está adequado à organização? Basta observar se há clientes insatisfeitos, baixa retenção de colaboradores, parceiros desconfiados ou acionistas apreensivos com os resultados. Estes são os principais indícios que mostram que uma empresa está engessada por velhos paradigmas.  Estes sintomas ocorrem pois ainda vemos algumas empresas sendo dirigidas pelo “espelho retrovisor”, quer dizer, tentando reaplicar soluções que deram certo no passado mas que não mais se ajustam ao cenário atual.

É importante também ter em mente que no futuro serão necessários líderes em quantidade muito maiores que no passado. Para se manterem competitivas as empresas precisam de cada vez mais de líderes em todos os níveis. A disponibilidade de líderes eficazes – não de simples gerentes eficientes – para “empresariar” produtos, áreas geográficas, mercados ou projetos passou a ser um dos maiores fatores para distinguir empresas vencedoras.

As empresas necessitam de líderes em todos os seus centros de resultados, inclusive nas áreas funcionais que precisam de espírito mais empreendedor e menos burocrático. As vencedoras serão aquelas que souberem montar verdadeiras Fábricas de Líderes, fortalecendo a liderança e arquitetando condições para que a liderança se manifeste também em outras pessoas.

Nesta corrida contra o tempo, o líder da atualidade deve compartilhar sua causa com a equipe, conduzindo e engajando-a para que encontre as respostas necessárias para conquistá-la. As equipes – principalmente as formadas pela geração Y – anseiam cada vez mais aprender algo novo do que simplesmente executar o que o chefe pede. Aliás, a palavra “chefe” remete também a alguém que só ordena a execução, sem engajar ou desenvolver – algo extremamente ultrapassado.

Dessa forma, engana-se quem pensa que um líder é basicamente um gestor de pessoas e resultados. É muito mais do isso. É também um gestor de clientes, parceiros, processos e sistemas, independente da área em que atue na companhia. E, claro, é alguém que deve disseminar os valores e cultura da empresa, com coerência entre o que faz e fala.

Há ainda um último aspecto pouco explorado pelos líderes corporativos e que faz toda a diferença. É o autogerenciamento, a maneira como um líder gerencia seu tempo, se autodesenvolve, como aplica sua inteligência emocional e equilibra todas as dimensões da vida (saúde, amigos, família, vida espiritual e em comunidade).

Existe um preconceito de que se preocupar com essas coisas possa tirar o foco e o tempo do trabalho. Mas o que importa não é trabalhar mais, e sim melhor. Quando um líder exercita sua autogestão, oxigena seu cérebro. Quando está com amigos, recebe conhecimentos e assimila referências que não estão dentro do seu dia a dia na organização.  Quando trabalha em uma comunidade, sente-se bem consigo mesmo. O sucesso está no equilíbrio.

Enfim, o que falta no comando das empresas não são competências técnicas, pois estas são possíveis de serem construídas, aprendidas ou complementadas com o conhecimento de outras pessoas. O que falta de fato são líderes que não tenham receio de perder o poder ao desenvolverem sucessores e sejam hábeis para construir pontes (e não paredes) entre todos os envolvidos na conquista da sua causa, do seu propósito.

* César Souza é consultor e presidente-fundador do Grupo Empreenda. Foi eleito pelo Fórum Econômico Mundial um dos 200 Líderes Globais do Amanhã e apontado pela revista Você RH como um dos 8 entre os Melhores Experts Mundiais em Gestão de Pessoas. É autor de diversos best-sellers, sendo o último NeoEmpresa.