Entrevista: para Ruy Castro, Nelson Rodrigues continua incompreendido pela sociedade atual

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

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Ruy Castro, curador do projeto Nelson Rodrigues 100 anos. Foto: João Caldas.

O escritor e jornalista Ruy Castro se consagrou ao descrever personagens, momentos e cenários  da cultura brasileira.

É dele a autoria dos livros Chega de Saudade [sobre a Bossa nova] e Ela é Carioca -[sobre o bairro de Ipanema, no Rio].

Como cronista, retratou brilhantemente personagens do cinema mundial e adquiriu o gosto por desvendar o que está por trás da cena – isto é, a história de vida das celebridades.

É autor de biografias de personagens como Carmen Miranda (Carmen), o jogador de futebol Garrincha (Estrela Solitária) e o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (O Anjo Pornográfico) – este último, um dos seus ídolos desde a infância.

Em entrevista ao Portal da Fiesp, Ruy Castro fala da sua emoção em ser convidado para ser o curador das homenagens do centenário do seu autor preferido, por meio do projeto Nelson Rodrigues 100 Anos, promovido ao longo deste ano pelo Sesi-SP.

Leia abaixo a entrevista:

Como biógrafo e admirador da obra do Nelson Rodrigues, como você por ser chamado para curadoria do projeto Nelson Rodrigues 100 anos?


Ruy Castro  – Acho um privilégio ter descoberto e me apaixonado por Nelson Rodrigues muito cedo, ainda em criança, e estar até hoje trabalhando com ele e o admirando cada vez mais.

Qual o principal enfoque da exposição? E o que você acha que mais surpreenderá o público?

Ruy Castro – A exposição não trata da vida, mas da obra dele. Acho que ela está muito em cima do Nelson como um desafiador permanente da censura, um lutador pela liberdade de expressão.

Em sua opinião de onde vem a inspiração de Nelson para suas obras, geralmente retratando amor, traição e morte?
Ruy Castro  – Da observação dele de que esses são temas permanentes na trajetória do ser humano.

Nelson também era um apaixonado por futebol e suas crônicas esportivas eram bem características. Você acha que ele influenciou de alguma forma o jornalismo esportivo brasileiro?

Ruy Castro – Influenciou no sentido de marcar um diferencial entre ele e o resto. Tanto que ninguém nunca se atreveu a copiar Nelson Rodrigues. Ficaria ridículo para o copiador. Mas ele ensinou que o futebol não é o território da objetividade, e sim do talento individual.

Outra curiosidade em relação ao Nelson é sobre sua posição política conservadora e de direita. Gostaria que você comentasse um pouco isso  e também como ele  lidava com a censura?

Ruy Castro – Não é pecado ser de direita — outros gênios, como Jorge Luís Borges, também eram. E há milhares de grandes escritores que nunca deram bola para a política, não eram de “esquerda”, nem de “direita”. Em compensação, há milhares de escritores medíocres de “esquerda” — por sinal, a maioria. O fato é que Nelson foi perseguido tanto pela direita quanto pela esquerda, e isso só prova a sua grandeza.

Você acha que Nelson Rodrigues foi incompreendido pela sociedade? Se vivo, como você acha que Nelson definiria a sociedade atual?
Ruy Castro – Ele continua incompreendido. As pessoas hoje o admiram e respeitam, mas não leem direito a sua obra como ela merece.

Muitos afirmam que Nelson Rodrigues é eterno. O que torna sua obra uma referência para todas as gerações?
Ruy Castro  – Justamente a sua universalidade — e eternidade.

Fernanda Montenegro e Daniel Filho relembram obras e histórias de Nelson Rodrigues

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

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Daniel Filho, Fernanda Montenegro e Ruy Castro debatem Nelson Rodrigues


Ele colocava as sensações que todo ser humano tem do pecado, do desvio moral. Ele não falava palavrão, mas levava os outros a pensarem. Só colocava o essencial no texto, era um autor difícil de interpretar. No final das contas era um trabalhador atrás do seu dinheiro.

Esse é apenas um trecho da descrição de Nelson Rodrigues (1912-1980) feita por seus amigos e colegas de trabalho Fernanda Montenegro e Daniel Filho. A atriz e o diretor estiveram no Teatro do Sesi-SP na noite de quarta-feira (15/08) para homenagear o autor em debate sobre sua vida e obra.

O debate “Nelson Na Televisão – O Maldito do Horário Nobre” faz parte do projeto Nelson Rodrigues 100 Anos Sesi-SP, e foi mediado pelo jornalista Ruy Castro, biógrafo do autor e curador do projeto.

“Essa geração de hoje está preparada para o Nelson. Essa geração é capaz de entender o Nelson, de respeitar e de botá-lo no lugar que ele merece porque ele era um autor extraordinário”, afirmou Fernanda Montenegro, que foi próxima de Nelson e também um dos principais intérpretes de sua obra.

Fernanda estrelou a controversa peça O Beijo no Asfalto em 1961, foi para o cinema com a obra A Falecida, no papel da protagonista Zulmira, em 1964 e também trabalhou nas novelas Pouco Amor Não é Amor e em Morta Sem Espelho, além de outras obras de Nelson Rodrigues.

“Ele tinha uma coisa extraordinária, ele só punha no diálogo o essencial”, relembrou a atriz ao falar sobre a peça O Beijo no Asfalto, que conta a história de Arandir, um homem que beijou outro homem no momento de sua morte, em um inusitado ato de caridade, e a repercussão dessa cena por meio de um jornalista sensacionalista e um delegado corrupto.

“Eu me lembro que no Beijo no Asfalto o Arandir chega depois de fugir de polícia. Ele está sendo chamado de homossexual no jornal. O cara criou uma situação trágica para a vida dele, estão querendo matá-lo, mas ele chega em casa e diz: ‘Água’. A mulher olha pra ele, pega um copo d’água, ele bebe e diz: ‘Água linda’. Eu nem sei fazer a cena, teria que estudar. É uma coisa incrível, ele não diz: ‘Estou cansado; nossa, foi difícil a vida lá fora’. Ele só diz: ‘água linda’. Entende? Para o intérprete, ele não pode estar se apoiando em nada que não seja essencial”, explicou a atriz.

Nelson proibido

O debate O maldito do Horário Nobre questionou a censura que Nelson Rodrigues sofreu na televisão. Apesar do sucesso de todas as três novelas que o dramaturgo escreveu para a então TV Rio, todas elas foram perseguidas pela censura.

“A gente lutava pra fazer Nelson, ele era um homem perseguido. Em A Morta Sem Espelho, na televisão, a censura disse o seguinte: ‘Nelson Rodrigues não pode às 20h’. Nós fomos para as 22h30”, contou Fernanda. “Hoje ninguém mais se espanta com coisa alguma, mas vocês não têm ideia da convulsão moral que era para a época, as pessoas deixavam o teatro.”

Daniel Filho, diretor de A Vida Como Ela É, minissérie homônima à coluna que Nelson Rodrigues escreveu durante 10 anos para o jornal Última Hora, afirmou que, acima de tudo, Nelson era um “trabalhador atrás do seu dinheirinho”.

“Ele não dizia palavrão, mas de uma forma intuitiva, às vezes subliminar, levava as pessoas a pensarem. O Nelson tinha essa qualidade. O que o Nelson colocava são sensações que todos os humanos têm do pecado, do desvio moral, essa coisa que fica na cabeça das pessoas e as pessoas têm medo de colocar pra fora”, disse Filho.

Vovô

Mario Vitor Rodrigues, neto de Nelson, também prestigiou o encontro de Fernanda Montenegro, Daniel Filho e Ruy Castro. Sobre a homenagem pelo centenário do maior dramaturgo brasileiro, ele afirmou que “o vovô merece tudo e mais um pouco”.

“O centenário do vovô é uma coisa enorme, realmente importantíssima e, para nós, tem um lado muito emotivo. E quando eu soube do eclipse lunar que iria acontecer com Ruy, Fernanda, Daniel juntos, pensei: ‘Tenho que ir’. Tem uma série de eventos homenageando o vovô e eu gostaria de estar em todos, mas é impossível.”

Norma Blum interpreta o texto “O beijo no asfalto” nessa 4ª feira, 01/08

Agência Indusnet Fiesp

A atriz Norma Blum, que teve papel central na primeira adaptação cinematográfica do texto rodriguiano O beijo no asfalto, na década de 60, revive o enredo teatral nesta quarta-feira (01/08), no Teatro do Sesi São Paulo, às 20h30, durante uma leitura dramática. O evento com entrada gratuita é parte da programação do projeto Nelson Rodrigues 100 anos – uma homenagem do Sesi-SP ao centenário de nascimento do dramaturgo.

Em O beijo no asfalto, Nelson inspirou-se nas cenas de seu cotidiano ao narrar a morte de um conhecido por atropelamento. Na trama, o sujeito, caído no meio da rua, pede um beijo a quem ao acaso o socorria, antes de morrer. Na peça esse gesto de humanidade é devassado e retorcido pela atitude vil das pessoas, exceto pela viúva, que o defendeu até depois da morte.

Sobre o projeto Nelson Rodrigues 100 Anos Sesi-SP

O projeto do Sesi-SP em comemoração ao centenário de Nelson Rodrigues inclui espetáculos, leituras dramáticas, exposições, debates e oficinas. Os destaques do projeto, que tem curadoria de Ruy Castro, biógrafo de Nelson, e direção artística de Marco Antônio Braz, especialista na obra rodriguiana, são a abrangência da programação, a participação de personalidades (inclusive de pessoas que conviveram com ele), a abordagem de aspectos menos conhecidos do dramaturgo – como jornalista, escritor, cronista esportivo e folhetinista – e o caráter pedagógico das ações com os mais de 400 alunos de iniciação teatral dos Núcleos de Artes Cênicas do Sesi-SP.

Até novembro, nomes como Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Nathália Timberg, Christiane Torloni, Nelson Rodrigues (filho), Norma Blum, Daniel Filho e Nelson Pereira dos Santos farão parte da homenagem.

Para mais informações, acesse o site oficial do projeto.

Serviço
O beijo no asfalto
Data/horário: 1º de agosto de 2012, às 20h30
Local: Teatro do Sesi São Paulo – Av. Paulista, 1313, capital

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Veja entrevista com elenco da peça Boca de Ouro, em cartaz no Centro Cultural Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

Frágil, galante, cruel. As muitas faces de um bicheiro do bairro de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, são o tema de “Boca de Ouro“, peça em cartaz no Teatro do Sesi, no Centro Cultural Fiesp. A montagem é baseada em uma das 17 peças teatrais escritas por Nelson Rodrigues, parte integrante da programação multicultural organizada pelo Sesi-SP em homenagem ao centenário do autor.

O desafio de encarnar as múltiplas facetas do protagonista da peça cabe a Marco Ricca. “Todos os bons personagens têm essas gamas diversas, o difícil é dar conta disso tudo”, explica o ator.

Para Ricca, o texto de Nelson Rodrigues é maravilhoso porque tem uma possiblidade de comunicação quase que imediata. “Estou sentindo na carne o quanto é forte esse texto”, revelou.

Lara Córdula, que interpreta Guigui, a amante do bicheiro de Madureira, explica que a personagem conta a história de acordo conforme a situação se apresenta para ela. “Ela é muito intensa e se torna apaixonante por ser apaixonada pelo Boca de Ouro”.

É justamente Guigui quem direciona o leitor em três versões diferentes da menina Celeste, interpretada por Livia Ziotti. “Na primeira, é uma versão idealizada da Celeste, então, ela é a dona de casa dedicada. No segundo e terceiros atos, a gente começa a conhecer outro lado mais sombrio e perverso dessa menina de Madureira”, explicou.

A peça fica em cartaz até 25 de novembro no Centro Cultural Fiesp.  Confira a programação no site

Serviço
Boca de Ouro
Local: Teatro do Sesi São Paulo
Endereço: Av. Paulista, 1.313 – Metrô Trianon-Masp
Temporada: de 29 de junho a 25 de novembro de 2012
Classificação indicativa: 14 anos
Horário: 20h30
Informações: (11) 3146-7405 / 7406

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