Celso Lafer, ex-presidente da Fapesp, fala na Fiesp sobre importância do amparo à pesquisa

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Ao frisar que “é pela ciência que se vence” e que conhecimento é poder, frase do filósofo e ensaísta Francis Bacon, o professor Celso Lafer, ex-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), abriu sua participação no Conselho de Estudos Avançados (Consea), em 21 de setembro, para tratar da importância do amparo à pesquisa. O presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder, reforçou a importância de discutir pesquisa e desenvolvimento no âmbito da indústria paulista.

Acadêmico, em sua introdução Lafer frisou que a pesquisa é um dos pilares do mundo contemporâneo – em parte, em função da velocidade com que a cultura científica da pesquisa básica e aplicada impacta e amplia o horizonte do conhecimento. Outro fator apontado é a transposição de barreiras, como a clonagem e a espacial, que modifica a vida do ser humano. Por isso, “a possibilidade de uma sociedade exercer o controle dos seus rumos passa pela capacitação cientifica e tecnológica, ou seja, pela sua capacidade de avaliar e produzir conhecimento e explorar o seu potencial de aplicação”. Lafer exemplificou com temas sociais e essenciais, tais como matriz energética, oferta de alimentos, redução da pobreza, escassez de água e mudança climática, que passam pela capacitação cientifica e tecnológica.

Com essa avaliação em perspectiva, o professor demonstrou que hoje não se vende mais caixa de papelão, há um conhecimento agregado aliado à eficácia. “Vende-se o projeto de uma caixa de papelão ondulado capaz de transportar frutas, de manter sua qualidade, de suportar a refrigeração, de poder ser transportada em containers”, avaliando que a academia não está alheia ao que afeta a competitividade da indústria.

Ao refletir sobre o pioneirismo do Estado de São Paulo no reconhecimento da importância ao respaldo à pesquisa no País, rumo a novos conhecimentos, citou a criação da Universidade de São Paulo (USP) e a própria Fapesp.

A proximidade entre os campi e o parque industrial distingue São Paulo de outros parques brasileiros. Segundo Lafer, o Estado produz quase metade da ciência feita no País, e as empresas são a principal fonte de recursos no Estado, respondendo por aproximadamente 61%. Em contraponto, a participação do governo estadual na composição do financiamento total da pesquisa é superior ao reservado pelo governo federal. “A intensidade da preocupação com a pesquisa medida em participação no Produto Interno Bruto (PIB) é muito mais significativa em São Paulo, que é de 1,6%, comparável à Espanha, Portugal e China. Aqui, os gastos em pesquisa e desenvolvimento são dez vezes maiores do que o segundo colocado nacional, o Rio de Janeiro, e 23 vezes mais do que Minas Gerais, na terceira posição. Com alta produção de artigos científicos, mais do que qualquer outro país da América Latina, São Paulo produz o dobro da Argentina.

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Reunião do Consea com a participação do ex-presidente da Fapesp Celso Lafer. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Ao fazer referência a indicadores, o apoio à pesquisa com vistas a sua aplicação recebeu, nos últimos anos, mais da metade dos recursos totais. Em 2014, o valor, de R$ 1 bilhão e 200 milhões, foi voltado a diversas áreas do conhecimento, especialmente a saúde, contemplada com 28% do total. Nesse mesmo ano, a Fundação contratou 11.609 projetos de pesquisa e manteve 11.179 bolsas de iniciação científica ao pós-doutorado.

Nesse balanço, o professor Celso Lafer frisou a conexão entre o mundo da produção e do conhecimento, e exemplificou com o Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), que intensificou o relacionamento entre as universidades e os institutos de pesquisa, com empresas localizadas em São Paulo e no exterior. Desde seu lançamento, em 1995, 340 projetos de instituições foram aprovados com empresas do porte da Petrobras, Braskem, Microsoft, Biolab, CSN, Rhodia, Suzano, entre outras.

Lafer enfatizou alguns programas, como a Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), com foco em inovação que, em 2014, desembolsou R$ 23,4 milhões. Foram 3.410 projetos apoiados desde sua criação, em 1997, em 120 cidades. Entre os benefícios elencados, a geração de empregos e o aumento da atividade econômica nos municípios parceiros.

O campo da Engenharia também mereceu programas de longo prazo, com disponibilidade de recursos, para os centros de excelência aplicados à inovação em gás natural, com a BG Brasil; em química sustentável, com a GSK; em bem-estar e comportamento humano, com a Natura; e engenharia urbana com a Peugeot-Citröen.

O ex-presidente da Fapesp apontou três grandes programas multidisciplinares, em rede, vitais à economia brasileira e ao mundo dos negócios. O primeiro deles é o Biota, voltado à biodiversidade do Estado, a fim de avaliar oportunidades de exploração sustentável e subsídio à formulação das políticas de conservação dos remanescentes industriais. “O Biota tem papel, no plano internacional, com a Convenção da Biodiversidade, que foi assinado no encontro do Rio, em 1992”, avaliou.

O Bioen, Programa de Bioenergia, criado em 2008, “é auxiliar na mudança da produtividade de cana e desenvolvimento de novas oportunidades, com o aproveitamento da biomassa na geração de energia”, sinalizou.

O terceiro, a Mudança do Clima, programa surgido também em 2008, fundamental na compreensão das consequências econômicas do fenômeno e como ele incide na América do Sul e no Brasil. Ao citar o papel da ciência na diplomacia, Lafer lembrou que, quando esteve à frente da Rio 92, demonstrou-se a necessidade do domínio dos dados de base da mudança climática, sem os quais não se poderia ter capacitação diplomática na condução do processo.

Como grande capital nos oitos anos que esteve à frente da Fapesp, Lafer citou a internacionalização da Fundação. “A ciência não se faz hoje de maneira isolada”, apontando para a interação com pesquisadores de outros países diante do nível alcançado por São Paulo que pode fazer essa troca hoje “em pé de igualdade”. Em sua gestão, foram celebrados mais de 130 novos acordos de cooperação com universidades, agências de financiamento, institutos de pesquisa e empresas de outros países, colocando o Estado no mapa mundial da Ciência, repercutindo na pesquisa produzida em São Paulo. “O Conselho Nacional de Pesquisa, CNPq, seu equivalente federal, tem 46, quase três vezes menos do que a Fapesp”, exemplificou.

Celso Lafer esteve à frente da Fapesp desde 2007 até este ano. Advogado, membro da Academia Brasileira de Letras, foi ex-ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e, ainda, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Também foi embaixador do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) e junto à Organização das Nações Unidas (ONU). À frente do Itamaraty, foi responsável pela organização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (a Rio 92, ou ECO92) que, no Rio de Janeiro, reuniu mais de cem chefes de Estado.

Homenagem

O presidente da Fiesp e do Ciesp, Paulo Skaf, participou do final da reunião para cumprimentar o professor Lafer, que foi homenageado pelo presidente do Consea, Ruy Altenfelder, por sua dinâmica e competente gestão na presidência da Fapesp.