José Arthur Giannotti no InteligênciaPontoCom: ‘A minha geração consumia a cidade e era consumida por ela’

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

“A minha geração consumia a cidade e era consumida por ela”, disse o professor titular de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), escritor e um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) José Arthur Giannotti, convidado da noite desta terça-feira (13/08) do InteligênciaPontoCom. O encontro foi organizado pelo Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) e consiste em bate-papos entre o público e personalidades de diferentes áreas.

Giannotti falou sobre a sua geração, sobre o embate capitalismo x comunismo e sobre o advento e a força das redes sociais hoje. E isso a partir da sua vivência, numa análise do Brasil de hoje e seus desafios. O evento foi realizado no Espaço Mezanino do Centro Cultural Fiesp, na sede da entidade, na Avenida Paulista.

Giannotti: reflexões sobre as cidades e sobre o advento das redes sociais. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Giannotti no InteligênciaPontoCom: reflexões sobre as cidades e sobre as redes sociais. Foto: Julia Moraes/Fiesp


“Nasci em São Carlos em 1930 e me apropriava da cidade de modo inconcebível hoje”, disse. “Vivia na cidade e pelos córregos na maior liberdade”. Segundo ele, tratava-se de uma relação com o espaço urbano que não existe mais. Seja no interior ou nas metrópoles, como São Paulo, onde já vivia na década de 1950. “Morava no Centro, perto da Santa Casa, e era aluno de colégio do estado. Ia a pé da Santa Casa até a Baixada do Glicério para estudar todo dia”, contou.

Essa sensação só ganhou força com a entrada na USP, ao lado de companheiros como Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso, entre outros. “A minha geração consumia a cidade e era consumida por ela”, afirmou. “Perdemos a espontaneidade na relação com a cidade e no nosso comportamento em público”, disse. “Temos que pensar em como falar ao celular na rua. Espero que a nova geração seja mais espontânea”.

Redes sociais e renovação

De acordo com Giannotti, depois da dualidade capitalismo x comunismo, veio a construção de um “centrão onde todos os parceiros entram em condições de igualdade, inclusive na corrupção”. “Estávamos sem qualquer crítica ao capitalismo, sem base para a reinvenção do capitalismo brasileiro, sem nada que lançasse a sociedade para uma renovação”, disse.

Para o filósofo, as redes sociais e os movimentos agora formados podem ajudar a mudar esse quadro. Segundo Giannotti “novas formas de tecnologia, novas redes sociais e novos movimentos” fazem parte desse processo de mudança. Mas com algumas ressalvas. “Movimento social pode dar tudo: na primavera árabe ou em movimentos fascistas e extremamente violentos de direita”.

Nesse cenário, é preciso estar atento ao que virá. “São movimentos sociais cujo desempenho político a gente não sabe onde vai dar e isso vai exigir de nós uma atenção muito especial”, disse.

O InteligênciaPontoCom envolve uma série de bate-papos mensais entre o público e criadores/pensadores de diferentes áreas. Nomes expressivos da literatura, artes visuais, cinema, filosofia, sociologia, esporte, teatro e música participam da programação.