Seminário na Fiesp aborda gestão de negócios em saúde e financiamento do setor

Agência Indusnet Fiesp

Em seminário nesta quarta-feira (24/8) na Fiesp, o Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) discutiu a busca de sustentabilidade no setor. O evento foi aberto por Ruy Baumer, coordenador titular do BioBrasil, o Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde e Biotecnologia da Fiesp.

Marcelo Britto, vice-presidente da Confederação Nacional de Saúde, conduziu o painel sobre finanças. O assunto, disse, é dos mais espinhosos a tratar: como dar sustentação a esse sistema?

Valdesir Galvan, superintendente geral da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), abordou os modelos de remuneração existentes e o que se pensa no mundo. Lembrou que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes a assumir o compromisso de universalizar seu sistema de saúde. Exibiu dado do IBGE de que famílias pagam por mais de 51% da saúde, contra 46% de recursos públicos.

Traçou cenário de aumento dos custos da saúde acima da inflação, redução do número de operadoras de planos de saúde e crescimento da judicialização. Dados da Anahp, dos maiores hospitais, mostram queda de receita e aumento de despesas. Há, afirmou, necessidade de mudar a atual sistemática de pagamentos. Até que isso ocorra, para alcançar a sustentabilidade, disse, é preciso que cada envolvido faça sua parte.

Descreveu os modelos de remuneração mais frequentes, entre eles o fee for service, com procedimentos e conta aberta, o mais usual. Privilegia, disse, uma relação custo/benefício perversa, com custos administrativos elevados e que não geram valor agregado na produção dos melhores resultados de saúde para os beneficiários. Um de seus efeitos ruins é a desativação de maternidades e alas pediátricas e buscando serviços de alta complexidade.

Galvan disse que gosta do modelo – mas não da quantia paga – do SUS, com valor por procedimento. “Formato da tabela é interessante.”

Quanto ao modelo por desempenho (P4P), com pagamento atrelado à relação entre a qualidade do cuidado e o preço pago por ele, identificou como  obstáculos a falta da cultura da qualidade no Brasil, citando dado que mostra que apenas 5% dos hospitais têm certificação.

Adotado nos EUA, Austrália, África do Sul e vários países da Europa Ocidental, o sistema DRG enfrentaria desafios para ser adotado no Brasil, como diferenças no sistema de codificação, baixa informatização dos hospitais, o tempo para sua implantação e a necessidade apurar sistematicamente os custos por paciente. Associado a conceitos de qualidade, é modelo melhor, afirmou.

Brito destacou que as glosas retiram recursos do segmento.

Hemorragia na saúde suplementar

José Augusto Andrade fez análise detalhada do setor de saúde suplementar, compreendendo a medicina de grupo, as cooperativas, a autogestão e as seguradoras, mas não as filantrópicas. De 2015 para 2016 aumentou a velocidade de perdas no sistema, afirmou. Nos seis primeiros meses de 2016 já se perdeu mais que em 2015. Crise está bem clara no setor, disse.

Ponto mais alto, maior quantidade de usuários, foi de 49 milhões em dezembro de 2014. Até junho de 2016, sistema perdeu 1,85 milhão de pagantes, segundo dados da ANS. Com 21% da população, o Estado de São Paulo tem 36% dos usuários da saúde suplementar do Brasil. São Paulo foi responsável por 45% da perda de usuários do país de 2014 a 2016. Sistema perde R$ 450 milhões por mês.

Nosso sistema de saúde suplementar em junho de 2016 está menor do que era em 2013, e sua recuperação será lenta e difícil, exigindo esforço de todos os atores envolvidos no processo, afirmou.

A parte dos prestadores

Andrade lembrou que o ticket médio no Brasil foi de R$ 236 reais em 2015, dos quais R$ 200 ficaram com os prestadores de serviços. Seguradoras têm o maior ticket médio e são as que maior valor deixam para a rede prestadora. Autogestão vem em segundo. Os outros dois deixam menos recursos para os prestadores, problema nos Estado em que têm maior participação.

Seminário Gestão de negócios em saúde e financiamento do setor, na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp