Análises da presença da cidade no cinema encerram a Mostra Franco-Brasileira

Dulce Moraes, Agência Indusnet

A “Cidade no Cinema” foi o tema do Colóquio de Cinema Franco-Brasileiro, realizado nesta quinta-feira (05/06), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544497909

Colóquio de Cinema Franco-Brasileiro - A Cidade no Cinema, contou com palestra da especialista em cinema francês, Céline Scemama. Foto: Helcio Nagamine/FIESP

O encontro fechou a programação da Mostra Cultural de Cinema Franco-Brasileiro, promovida pela Cátedra Globalização e Mundo Emergente Fiesp – Sorbonne.

Entre os dias 02 e 05 de junho, a mostra exibiu ao público nove filmes retratando a trajetória histórica do cinema, desde o período da Sinfonia das Cidades (Cinema Mudo) e a Idade Clássica  (Cinema Falado) até as fases do Cinema Moderno e Contemporâneo.

O Colóquio contou com a palestra “Cinema: o Deus das Nossas Cidades”, de Céline Scemama, professora de Estética do Cinema na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, que expressou a inter-relação e influência do cinema na construção das cidades. Especialista em análise de filmes, Céline é autora de livros como “Histórias do cinema de Jean-Luc Godard. A força fraca da arte” , “Antonioni – Deserto Figurativo”, entre outros.

Também participaram do Colóquio, as especialistas Carolin Overhoff Ferreira, professora de Cinema Contemporâneo no Curso de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Cecília Mello, professora de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

Em uma breve entrevista ao portal da Fiesp (leia ao final dessa página), Céline esclarece que a escolha do título de sua apresentação foi uma alusão ao filme brasileiro “Cidade de Deus”, que a impactou. “Mais que um tema eu quis apresentar uma problemática e demonstrar como o cinema é um resultado da cidade, ao mesmo tempo que ele cria a cidade. Tem essa relação dupla. O cinema retrata e também participa da criação da cidade”, explicou.

Recriação das cidades 

Com a exibição de imagens de filmes representativos do cinema francês, Céline demonstrou como cada cineasta percebeu e recriou as cidades em suas obras, dando um sentido próprio, mas também social, das sensações de cada momento histórico retratado.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544497909

Na foto (ao fundo de chapéu): Jean Vigo se deixa filmar em cena de festa nos bairros pobres da cidade, no filme "A Propos de Nice", de 1928 . Foto: Reprodução

No filme ‘A Propos de Nice’ (de 1928), por exemplo, a cidade francesa é retratada com o olhar anárquico de Jean Vigo, expondo os contrates sociais entre o requinte da elite e os bairros pobres do subúrbio. “O pai de Vigo foi um anarquista que faleceu na prisão. E essa dimensão anárquica dele é mostrada em sua obra, reforçando sua fama de ‘brigão’, que fala o que quer e não tem papas na língua”, explicou Céline.

Nesse mesmo sentido, ela citou outro longa-metragem da década de 1960 — o ‘L’Amour’ , de Maurice Pialat — que apresenta com tom violento e melancólico as cenas de pobreza de Paris a poucos metros do quadrilátero mais rico da capital francesa.

Céline ilustrou também como as ruínas das cidades, muito utilizadas em filmes épicos com uma áurea estética romântica, nas produções francesas e italianas do período pós-2ª Guerra Mundial ganharam outra dimensão. “O cinema transformou o mito romântico das ruínas clássicas gregas para a rigidez dos escombros das cidades bombardeadas”.

Imaginário e consciência social

O senso comum que se tem sobre certas cidades e metrópoles do mundo foi criado pelo cinema, na opinião da professora da Sorbonne. “O cinema registra a cidade em cenários e esses cenários serão gravados em nossa consciência e na nossa percepção sobre elas”. Contudo, essa possibilidade pode ser transformadora, ela acredita. “Se o cinema projeta nossas cidades ele nos permite perceber e pensar nossas cidades”, afirmou.

Em sua apresentação, Carolin Overhoff Ferreira, professora de Cinema Contemporâneo na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destacou que a industrialização provocou mudanças drásticas no mundo, como a urbanização, tendo um forte  impacto nos seres humanos e na nossa forma de pensar, fatos esses muito retratados pelo cinema.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544497909

Visão poética da cidade no curta "Manhatta", de 1928. Foto: Reprodução

Carolin exemplificou essa transposição com o filme “Manhatta”, de 1929. “Em seus curtos nove minutos, ele fala da cidade, das paisagens, dos skylines, mas também fala da vidas dos indivíduos, das pessoas na cidade”.

O Colóquio foi finalizado com a palestra da professora Cecília Mello, da Universidade de São Paulo (USP).


ENTREVISTA:


Céline Scemama é  professora de Estética do Cinema na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autora dos livros “Histórias do Cinema de Jean-Luc Godard. A força fraca da arte”  e “Antonioni – Deserto Figurativo”. 

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544497909

Professora Celine Scemama, da Universidade Sorbonne. Foto: Helcio Nagamine

Como você acredita que a cidade interfere no cinema e o cinema interfere na cidade?

Céline Scemama – Minha apresentação tem o título de “Cinéma. Dieu dans la cité” (Cinema, o Deus das Nossas Cidades), fazendo um jogo de palavras com o filme brasileiro “Cidade de Deus”. Mais que um tema eu quis apresentar uma problemática e demonstrar como o cinema é um resultado da cidade, mas ele também cria a cidade. Tem essa relação dupla. O cinema retrata e participa da criação da cidade.

Em relação ao cinema europeu, como você avalia o cinema brasileiro nesse aspecto de retratar as cidades ?

Céline Scemama – Eu não sou especialista em cinema brasileiro, mas tive a oportunidade de assistir a alguns filmes brasileiros com esse enfoque, inclusive o  “Cidade de Deus”, do Meirelles, e outros também. Eu sinto que os problemas urbanos brasileiros conseguem ser lidos e enxergados e retratados no cinema brasileiro. Quando eu propus esse tema “A Cidade e o Cinema” a ideia era mostrar a diferença de como esses problemas urbanos são retratados pelo cinema, tanto do ponto de vista brasileiro como francês.

Você considera que o impacto do cinema em termos de transformação social é algo gradual?

Céline Scemama – Há duas abordagens que podemos analisar: a da imposição de um modelo dominante e há o outro modelo do Benjamin, do cinema como espetáculo e entretenimento, mas que permite uma certa tomada de consciência gradativa. Eu acredito que o cinema pode transformar a sociedade, mas ele passa por essa sensibilização interna e isso é gradativo.

Creio que o cinema norte-americano é o exemplo perfeito desse paradoxo. Pois ao mesmo tempo que ele impõe o modelo dominante de Hollywood ele também cria esse espírito da autocrítica. É como essa dinâmica opera entre imposição do modelo dominante e a percepção e tomada de consciência dos expectadores.

O Brasil recebeu bastante influência cultural francesa, especialmente no século 19. Como você avalia essa aproximação entre Brasil e França, via cultura e via educação, inclusive pela parceria entre a Fiesp e a Universidade de Sorbonne?

Céline Scemama – Acho essa parceria da Fiesp e da Sorbonne  muito positiva. Por outro lado, há alguns elementos que apontam que a Europa está em uma fase de declínio em alguns aspectos. Na verdade, estamos respondendo a uma necessidade, pois a Europa precisa dessa projeção. Esse tipo de encontro é importante para trazer quase uma “transfusão de sangue”, de energia, para Europa se renovar. E essa parceria responde a essa necessidade de renovar.

Especialistas debatem investimentos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 na Fiesp

Ariett Gouveia e Giovanna Maradei, Agência Indusnet Fiesp

Foi realizado nesta segunda-feira (02/12), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o seminário “Grandes eventos esportivos no Brasil: a economia do esporte”. Organizado no âmbito da Cátedra Globalização e Mundo Emergente – FIESP-Sorbonne, o evento foi conduzido por Mario Frugiuele, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva do Desporto (Code) na Fiesp e coordenador da cátedra no Brasil.

O professor titular de Economia, Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro Istvan Karoly Kasznar apresentou a palestra “Copa, Olimpíadas, Financiamento do Esporte e Perspectivas”, em que mostrou os investimentos, públicos e privados, que estão sendo feitos no Brasil e suas consequências.

“Não se resolve a questão de um gargalo estrutural de longo prazo, de 35 anos, em cinco anos. Então todo o investimento é bem-vindo, é necessário”, disse Kasznar. “Todavia, não é porque a Fifa nos impõe ou nos propõe criar investimentos específicos de mobilidade no entorno do estádio que vamos fazer algo”, disse. “Devemos fazer pela necessidade específica e intrínseca das nossas cidades e dos nossos cidadãos.”

Outra crítica do professor foi a questão da distribuição dos ingressos. “As grandes obras dos estádios vão encantar os brasileiros que podem pagar. Porque a gente vê que no processo de distribuição existem desigualdades”, explicou. “Quem pode pagar, entra. Quem não pode, não entra, mas, por meio do seu imposto, está pagando o estádio de forma indireta.”

Kasznar: “Não se resolve um questão de um gargalo estrutural em cinco anos. Todo o investimento é bem-vindo, é necessário”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Kasznar: “Não se resolve a questão de um gargalo estrutural em cinco anos”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Kasznar não é contra a realização da Copa e da Olimpíada no Brasil, mas defende um melhor controle do dinheiro investido. “Haverá construções, ganhos e benefícios, mas também haverá prejuízos. Portanto faz sentido que a gente diga ‘temos muito o que fazer, muito a revisar e a nossa técnica de captação e distribuição de recursos precisa ser melhor pensada’”.

Segundo o professor, os gastos não são exclusividade do Brasil. “É muito importante abrir o Brasil para o mundo, é importante incentivar o esporte, mas temos que perceber que o custo disso é muito grande”, afirmou.

Cuidado com a maldição

Outro palestrante do seminário, Wladimir Andreff, professor titular de Ciências Econômicas na Universidade Paris 1 – Panthéon Sorbonne, apresentou a sua teoria sobre a “maldição dos países e cidades-sede”.

“O que um candidato deve fazer se quer ganhar o leilão para ser a sede da Copa ou das Olimpíadas? Prometer muito mais do que os outros competidores e projetar o mais fantástico evento”, disse. “E isso é feito subestimando os custos e superestimando os benefícios”, disse. ”Mas, no final do dia, os vencedores têm que realmente implementar o projeto e aí vem o verdadeiro custo e o verdadeiro beneficio, que são  diferentes do anunciado.”

Andreff: subestimar os custos e superestimar os benefícios. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Andreff: subestimar os custos e superestimar os benefícios. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Para ele, o vencedor do “leilão” vai estar “financeiramente amaldiçoado” porque “ganhando o direito de sediar os jogos o país ganha a certeza de que irá perder dinheiro”.

Andreff deu vários exemplos de países e cidades que tiveram uma grande diferença entre o custo esperado e o custo real, como a África do Sul, que viu o orçamento para a Copa do Mundo aumentar 17 vezes, e a China, que no caso de Pequim teve um aumento de 40 vezes entre o que era esperado para os Jogos Olímpicos e o que realmente o evento custou.

O professor disse que só há uma exceção na história dos grandes eventos, o que confirma a regra: Los Angeles. “Por causa das notícias dos prejuízos dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, apenas Los Angeles se candidatou como sede para 1984”, contou. “Como não havia cidades competindo pelo mesmo evento, então não havia o leilão como processo. Los Angeles não precisou fazer propostas exageradas, a custos irreais, então ficou fora da maldição dos vencedores”.