‘O problema é a formação de bons quadros políticos’, diz Carlos Henrique Cardim

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

O Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) promoveu um debate sobre a “boa política” nesta quarta-feira (23/04). O embaixador Carlos Henrique Cardim foi o convidado para falar sobre o tema “Maquiavel e o Brasil – A necessidade da boa política”.

O palestrante lembrou uma citação do diplomata James Bryce que está em um livro de Gilberto Freyre e que resume o problema do Brasil. “Em nenhum lugar do mundo existe urgência maior de uma liderança sábia e construtiva do que no Brasil. O grande problema brasileiro é político.”

Para Cardim, a questão brasileira está centrada na política. “Não temos um problema de ordem econômica, como o Chile, que pela dimensão do país não consegue ter um grande desenvolvimento industrial”, disse. “Também não temos um problema territorial, como na Rússia, ou sociológico, como a Índia, ou uma questão de identidade, como a Argentina”, argumentou o embaixador.

Cardim: problemas nacionais centrados na questão política. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Cardim: problemas nacionais centrados na questão política. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“O nosso problema é a boa política, a formação de bons quadros políticos, de estadistas”, afirmou, comparando a nossa realidade com a situação norte-americana. “Os Estados Unidos têm um nível de institucionalização maior do que o do Brasil. Mesmo que eles tenham um presidente fraco, há um sistema que opera. O Brasil tem um Estado organizado, mas a nossa dependência de líderes políticos é muito forte.”

Leis próprias

Para discutir a política brasileira, o palestrante optou por trazer a teoria de Maquiavel. Para ele, o grande nome da política moderna é justamente o fundador da ciência política e autor de “O Príncipe”. Cardim coloca como uma das principais contribuições de Maquiavel a conceituação da política como universo específico, diferente da economia, da religião e da cultura, com leis próprias.

Outra questão importante aos políticos é o compromisso com o resultado. “Em um dos trechos de ‘O Príncipe’, Maquiavel diz que o objetivo dele era ‘caminhar diretamente à verdade efetiva das coisas e não à imaginação das coisas’. Porque normalmente confundimos, na política, o nosso desejo com a realidade. Vemos muitos exemplos disso em Brasília”, disse.

“A política difere da filosofia e da religião, porque funciona com resultado, e tem que haver um efeito concreto. Maquiavel odiava o amadorismo político e buscava a precisão renascentista, o domínio da técnica na política”, disse Cardim, que aproveitou para desfazer uma das famas do autor italiano. “Maquiavel nunca disse que os fins justificam os meios. Não existe essa frase em nenhuma obra dele. O que ele disse é que o importante é o efeito.”

Sobre o conflito

Também foi destacada pelo palestrante a importância que Maquiavel dá ao conflito. “Na obra ‘Discorsi’, uma das discussões propostas é como Roma chegou às boas leis. E a resposta dele é que essas leis foram frutos da confrontação entre os tribunos da plebe e a aristocracia do Senado”, explica o embaixador.

“No jogo entre essas duas forças, surgia uma terceira posição, uma lei equilibrada, que era resultado do conflito, que não é algo negativo, mas estruturador. No entanto, para haver o conflito, é preciso haver liberdade.”

Voltando ao ponto brasileiro, Cardim falou sobre o potencial do país, desde que haja a tal boa política. “Como dizia o embaixador Araújo Castro, nenhum país escapa ao seu destino. Feliz ou infelizmente, o Brasil está condenado à grandeza, por vários motivos, sobretudo por sua incontida vontade de progresso e desenvolvimento”, citou.

“Tenho viajado pelo mundo e fico impressionado com a percepção que encontro nos Estados Unidos, na Rússia, na Alemanha e na Inglaterra de que o Brasil vai desempenhar um grande papel nos próximos 20 anos. E a política tem que estar voltada para essas grandes coisas no Brasil, para os efeitos concretos”, concluiu.

Altenfelder: temas políticos e sociais serão mais debatidos no Consea. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Altenfelder: temas políticos e sociais serão mais debatidos no Consea. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Após a palestra, o presidente do Consea, Ruy Altenfelder, destacou que o Conselho vai passar a se dedicar mais às suas origens. “Passaremos a analisar, em profundidade, os temas políticos e sociais, mas política lato sensu, ou seja, no sentido mais amplo.”

 

Embaixador Carlos Henrique Cardim: ‘Copa do Mundo é um grande negócio’

da esq. p/ dir.: Celso Monteiro de Carvalho; Carlos Henrique Cardim; Ruy Martins Altenfelder (FOTO: EVERTON AMARO)

Da esquerda para a direita: Celso Monteiro de Carvalho, Carlos Henrique Cardim e Ruy Martins Altenfelder. Foto: Everton Amaro

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

“O Brasil tem um papel importantíssimo na globalização do futebol. Até 1958, a Copa do Mundo era um evento muito limitado, não tinha essa importância mundial. Foi o Brasil, com sua grandeza absoluta e criatividade no futebol, que trouxe essa outra perspectiva ao esporte. Por isso, o fato de ter uma Copa do Mundo aqui é uma coisa natural”, declarou nesta segunda-feira (17/09), na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), assessor internacional do Ministério do Esporte, embaixador Carlos Henrique Cardim.

Ele participou da reunião mensal do Conselheiro Superior de Estudos Avançados (Consea) da entidade, onde debateu o tema “Repensando o Brasil – Política Externa e Esporte: Estratégia e Gestão”, sob coordenação do presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder Silva. O encontro contou ainda com a participação do embaixador Adhemar Bahadian; do ex-senador José Konder Bornhausen; da presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo, Ivette Senise; e do vice-presidente do Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp (Cosema), Celso Monteiro de Carvalho.

O embaixador afirmou que o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, está à frente de todas as obras e projetos relacionados à Copa do Mundo (2014) e aos Jogos Olímpicos (2016). E informou que a criação de um código de conduta e ética é uma das prioridades da pasta. A ação, segundo Cardim, limitará entre três e quatro anos o tempo de mandato dos dirigentes das confederações. Hoje, não há um limite de tempo para o exercício do cargo.

“A expectativa é ter um projeto de esporte nacional, e não somente ações voltadas a estes eventos esportivos”, explicou o embaixador, que defende uma regulamentação básica de esporte, “coisa que nós ainda não temos”, além de uma lei voltada à profissionalização dos atletas.

Oportunidades de negócios

Cardim também ressaltou que a Copa do Mundo pode proporcionar boas oportunidades de negócios para os empresários brasileiros. “A Copa do Mundo é um grande negócio. A Fifa tem hoje mais de mil contratos assinados. Estamos falando de um big business internacional, com uma audiência acumulada de quase dez bilhões de pessoas em todo o mundo”, sublinhou.

Sobre os riscos de violência nos estádios brasileiros durante a Copa do Mundo, o embaixador lembrou a parceria firmada entre os Ministérios do Esporte e da Justiça, que prevê a implantação de câmeras dentro dos estádios, além de uma punição mais rigorosa para torcedores envolvidos em conflitos com torcidas rivais.

Essas iniciativas, conforme ele, serão tratadas pelos dois Ministérios durante o seminário internacional sobre o combate à violência no futebol, que acontecerá em fevereiro de 2013, no Memorial da América Latina, na capital paulista.

Na visão de Cardim, o Brasil precisa tirar proveito de toda a visibilidade obtida nos últimos anos no cenário internacional para divulgar os projetos desenvolvidos pelo país: “Vivemos um momento excepcional, de grande visibilidade e responsabilidade internacional. [Esses grandes eventos esportivos] representam uma grande oportunidade para enfatizarmos a nossa presença no mundo, tanto do ponto de vista cultural como comercial, social e político”, concluiu o embaixador.

Veja a cobertura da reunião de agosto/2012 do Consea