‘Os bancos têm uma dívida social com o país’, afirma desembargador em seminário na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Hora de falar sobre crédito, juros e formas de voltar a crescer. Dentro do Seminário Propostas para o Saneamento Financeiro de Empresas, realizado nesta terça-feira (13/12), na sede da Fiesp, na capital paulista, foi organizado um painel sobre quais medidas na área de crédito podem destravar a economia. A discussão foi moderada pelo presidente do Sindicato da Indústria de Móveis de Junco e Vime e Vassouras e de Escovas e Pinceis do Estado de São Paulo (Simvep), Manoel Canosa Miguez. E teve a participação, entre outros nomes, do vice-presidente da Fiesp e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da federação, José Ricardo Roriz Coelho e do presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo (Sinditêxtil), Alfredo Emílio Bonduki.

Desembargador da 14ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Carlos Henrique Abrão apresentou experiências de apoio à recuperação financeira das empresas mundo afora. “Em momentos de crise, o governo alemão chegou a desonerar pequenas empresas, que depois pagaram o que deviam”, afirmou. “No Brasil, o governo é perdulário e tributário”.

Na França, segundo Abrão, existe um setor de fiscalização que acompanha as empresas e as convida para conversar em caso de endividamento. “Lá, eles chamam esse trabalho de negociação econômica do plano”, disse.

Outro ponto importante: conscientizar os banqueiros de que “eles têm uma dívida social com o país, não podem praticar taxas tão altas de juros”. “Todo banco tem um papel social, taxas de juros de 250% ao ano é algo que não existe”, afirmou. “Precisamos acabar com essa mentalidade de que banqueiro só ganha, banqueiro também tem que perder”.

De acordo com Abrão, conviver com uma Selic de 13,75% ao ano para pequenas e médias empresas é a mesma coisa “que decretar a taxa de óbito de todas elas”. “Temos que repaginar toda a história da dívida pública”, disse. “Hoje são 19.563 empresas em recuperação judicial no país, a nossa economia começou a enfrentar problemas em 2013”.

Vice-presidente de Serviços, Infraestrutura e Operações do Banco do Brasil, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, o custo de crédito no Brasil é alto. “Temos juros reais acima de 5% ao ano, o problema é a baixa oferta de poupança na economia”, explicou. “O setor público no Brasil é deficitário e esse um problema estrutural, que precisa ser resolvido”.

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Roriz Coelho foi um dos debatedores do painel: para destravar a economia. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Para Araújo, o acesso ao crédito é dificultado pelos juros elevados. “É preciso adotar ações para tornar o custo do crédito mais baixo”, disse. “O Banco Central não tem ferramentas para corrigir os problemas estruturais do Brasil”, afirmou.

Medidas de apoio

Segundo o chefe do Departamento de Classificação de Risco do BNDES, Luis Inácio Senos Dantas, essa é mesmo uma equação difícil, com níveis de endividamento inéditos das empresas. “Temos que agir de forma diferente para fazer essa travessia e é importante colocar os bancos nesse contexto”, disse.

Nessa linha, Dantas destacou que o BNDES tem em sua carteira uma série de ações de suporte aos empreendimentos, como o apoio ao capital de giro e à renegociação de dívidas para empresas de todos os portes. “O BNDES está à disposição”, afirmou.

Também preocupado com a atual conjuntura econômica, o economista chefe do Instituto para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin, disse que a recessão continua e isso atrapalha a capacidade de geração de caixa das empresas.  “A estrutura financeira atual mais drena recursos que os alavanca”, explicou.

Carnaval

De acordo com o sócio da Troster & Associados,  Roberto Luis Troster, é preciso ainda “mudar a visão da indústria”. “Temos que pensar em propostas para o saneamento financeiro e para o crescimento das empresas”, afirmou. “A gente tem que começar a pensar o Brasil mais a fundo”.

Como exemplo de organização ao melhor estilo brasileiro que deu certo, Troster citou a maior festa popular do país.  “A gente organiza escolas de samba, desfiles”, disse. “Até mesmo de forma amadora em alguns casos, mas sempre temos lucro”.