Artigo: O desafio da sustentabilidade na indústria têxtil

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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Patrícia Sant'Anna

*Por Patricia Sant’Anna e Vivian Berto

Sustentabilidade não é uma questão que pode ser tratada de maneira simplista. Muito longe de apenas não usar peles de animais, desincentivar o consumo em fast fashion, termo utilizado por grandes magazines para produção rápida e contínua de novidades, ou utilizar fibras orgânicas, a rede produtiva têxtil e de vestuário é tão vasta e complexa que qualquer análise muito simples pode se tornar uma falsa questão.

Um produto, só de existir no mundo, já gera impacto, ambiental e social. É impossível anular esse impacto, mas, como atores da indústria da moda, nós podemos (e devemos) amenizá-lo.

Quando paramos para pensar todos os processos da indústria têxtil, fica mais claro ver em quais pode-se melhorar e suavizar o impacto. Por exemplo, na questão do começo da rede têxtil, quais são os impactos gerados? Pesticidas nas plantações? Plantas geneticamente modificadas? Na confecção de peças, as condições de trabalho nas fábricas? Uso e descarte de tecidos? No varejo, podemos pensar no consumo de energia ou no impacto das embalagens? No uso da peça pelo consumidor final, as ações químicas e uso de água e energia para lavagem das peças? E, no final, o descarte: para onde a roupa não usada mais vai?

Pensar no passo a passo e atuar com medidas em cada um deles é a maneira de tornar uma empresa mais sustentável, como veremos a seguir.

Nem tudo é o que parece

Insistimos que a sustentabilidade é um assunto complexo, afinal, não se resolve o problema com soluções simplistas. O uso de pele animal é cada vez mais condenado – mas será que o impacto ambiental de peles sintéticas não é maior? Existem muitas marcas que trabalham com cooperativas

 de bordadeiras, mas quantas delas realmente pagam o preço justo por este trabalho manual?

Por exemplo, atualmente, o algodão orgânico é supervalorizado pelo mercado, em especial na confecção de roupas infantis. Sem pesticidas, ele não atinge o meio ambiente ao seu redor. No entanto, o algodão orgânico pode estar aumentando casos de malária em regiões da África: sem pesticidas, o inseto consegue se reproduzir livremente nas plantações, atingindo as populações que moram por perto. Para que lado seguir então?

As soluções são complexas – e não perfeitas

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Vivian Berto

Já vimos que não é possível anular os impactos causados pela rede têxtil tanto social quanto ambientalmente. A solução é, então, neutralizá-los. Para isso, a primeira atitude a ser tomada pela empresa é a transparência. Ela mostra para o mercado e para seu consumidor qual é seu processo produtivo, os impactos que ela está anulando e quais ela não consegue anular.

Quanto menor a produção de uma marca, mais fácil controlar os processos. A designer brasileira Flávia Aranha já é conhecida no mercado pelo trabalho de peças com corantes naturais e pouca produção (slow fashion – tendência que defende a criação de peças atemporais, feitas à mão, com tecidos naturais e duráveis – como algodão, linho e seda- e cores suaves, além da produção em baixa escala), com preços mais caros e voltados para um público menor. Relacionado à moulage, há técnicas de modelar que têm zero de desperdício de tecido. Quando se trata de produção em massa, torna-se cada vez mais complicado e transparência (além de assumir as falhas) é a melhor solução.

Um exemplo desse processo é a marca australiana de streetwear Patagonia. Voltada para um público que se importa com questões ambientais, a marca se posiciona de forma transparente sobre seus impactos: é informado ao consumidor final todo o ciclo de produção de uma peça e quais os custos ambientais e sociais para que ela seja feita. Mostra também onde a marca tentou melhorar seus processos e onde ela ainda não consegue.

Outro exemplo é a marca brasileira de tênis Vert Shoes. Baseada em um produto tradicionalmente conhecido como de alto impacto social, ela tenta fazer um par de tênis de forma socialmente responsável. A borracha usada no solado é produzida na Amazônia com comércio justo, enquanto o algodão sai de projetos sociais de ONGs no Ceará, Pernambuco e Paraíba. A Vert Shoes também deixa claro quais são os limites que não consegue ultrapassar, mas que tenta aperfeiçoar: espuma e cadarços não são de algodão socialmente responsável, os metais dos ilhós não têm sua origem controlada e os corantes usados nos tênis são danosos ao meio ambiente.

Embora a Vert seja um exemplo do setor calçadista, essa transparência e cuidado também podem ser pensados para o setor têxtil-confeccionista brasileiro.

Outras soluções podem também ser usadas pela produção em massa. Uma delas é a reutilização de materiais. Na produção da calça jeans, por exemplo, consomem-se milhares de litros de água. Na lavanderia de jeans Racheltex, no interior de São Paulo, 80% da água usadas nas lavagens é reaproveitada para uma nova lavagem. O lodo produzido é descartado corretamente, via as autoridades responsáveis. A fábrica ainda recolhe e aproveita água da chuva. Soluções para grandes indústrias que fazem toda a diferença.

No lado social, é comum ver empresas consolidadas denunciadas por trabalho análogo à escravidão por conta de fornecedores que se utilizam dessa prática. A empresa que contratou também se torna responsável pelo crime. É preciso saber exatamente quais são seus fornecedores e se eles estão mantendo condições de trabalho dignas e condizentes com as leis trabalhistas nacionais. A ABVETEX tem um selo que certifica as empresas de confecção que são socialmente responsáveis: tente procurar por fornecedores certificados.

Sustentabilidade como questão urgente

Não dá para ignorar a questão da sustentabilidade. Se não podemos evitar o impacto dos produtos de moda, devemos, ao menos, reduzi-los, caso contrário não veremos futuro tão cedo. Uma empresa é uma organização social e, como tal, tem responsabilidade pelo ambiente em seu entorno – e deve estar consciente disso.

* Patricia Sant’Anna – doutora em História da Arte, mestre em Antropologia, bacharel em Ciências Sociais, pela Unicamp. Atua na área acadêmica e em pesquisa de moda há mais de 15 anos. Pesquisadora de tendências (criativas, de consumo e comportamento), fundadora e diretora da Tendere, além de coordenadora da pós-graduação em Negócios e Marketing de Moda da Faculdade Santa Marcelina (FASM).

* Vivian Berto – Pós-graduanda em Artes Visuais, Intermeios e Educação pela Unicamp e designer de moda pela Esamc. Atua na área de pesquisa de moda há 4 anos, estudiosa incansável de cultura digital, sobretudo, nas manifestações de arte, design e moda, também atua como digital coolhunting. É gerente de pesquisa e geração de conteúdo da Tendere, também leciona no curso livre de Coolhunting da Sant Marcelina.