Globalização deve continuar, a despeito da eleição de Trump e do Brexit, diz professor

Roseli Lopes,  Agência Indusnet Fiesp

Depois de o processo de integração econômica, cultural, social e política se amplificar no mundo multinacionalizado, a partir dos anos 90, a globalização tem gerado preocupação, em especial entre os países emergentes.  Por trás desse temor estão dois fenômenos ocorridos em 2016: a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos com seu discurso protecionista em relação à política comercial, que vai na contramão do comércio multilateral, e a decisão do Reino Unido de, após quase 50 anos, deixar a União Europeia, maior bloco comercial do mundo, movimento que ficou conhecido por Brexit.

Juntos, os dois eventos, avaliam alguns estudiosos, teriam o poder de alterar a ordem mundial do comércio, de interação para a desglobalização. Usando como base esses acontecimentos, o professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC) Carlos Alberto Primo Braga falou sobre o possível novo cenário durante reunião do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Fiesp, com a palestra O Pico da Globalização e as Implicações do Brexit e das Políticas Comerciais da Administração Trump para o Brasil.

A despeito de Trump e do Brexit, diz o professor, a globalização deve continuar. A questão, segundo ele, é: sob que cenário? Isso porque a ideia de protecionismo que Trump levou para a Casa Branca é vista por muitos economistas como uma ameaça ao livre comércio. Justamente em um momento em que o crescimento do comércio global vem sendo menor e precisa de fôlego. Entre 2008, ano da crise internacional, e 2015, por exemplo, o crescimento médio do comércio mundial foi de 3,4% em termos reais, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Praticamente a metade da expansão média anual de períodos anteriores.

Ainda que essa perda de vigor tenha se antecipado à eleição de Trump em decorrência principalmente de crises internacionais, não é possível descartar, na avaliação de Braga, seus efeitos negativos sobre a recuperação dos negócios via livre comércio. E isso tem um impacto sobre o Brasil. A eliminação de tarifas e cotas por meio dos acordos bilaterais é uma das prioridades da agenda comercial externa brasileira, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) para elevar o volume das exportações do país. Estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgado neste mês de novembro apontou uma queda de 10% na participação do Brasil no comércio global desde 2008. Apenas entre 2010 e 2015 os embarques brasileiros diminuíram 6,1%, indicou o BID.

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Professor associado da Fundação Dom Cabral, Carlos Braga (terceiro da equerda para a direita) falou na Fiesp sobre a preocupação com o menor crescimento do comércio mundial. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Brexit

Preocupação semelhante existe em relação ao Brexit. “Se em março de 2019, data-limite para que o Reino Unido deixe definitivamente o bloco da União Europeia, não tivermos um acordo comercial no formato do Brexit, significa que as relações comerciais entre o Reino Unido e a UE passarão a ser dominadas pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), com impacto significativo em setores em que o Brasil é forte exportador, como o de agribusiness, autos em geral e o de autopeças, por exemplo”, diz Braga. Para lembrar: em 2017, a OMC condenou os programas e incentivos brasileiros ao setor automotivo sob a alegação de que violam as regras do comércio internacional.

“Certamente a globalização vai continuar, movimentada especialmente pelas mudanças tecnológicas, mas precisamos nos lembrar do que aconteceu nos períodos das guerras mundiais ou dos momentos de retração da globalização, e assim focar no comércio internacional, cuja desaceleração considero o ponto principal. Sabemos que comércio e Produto Interno Bruto (PIB)  são altamente correlacionados. Nos anos 80 e 90 o comércio internacional estava expandindo a uma taxa muito superior ao crescimento do PIB global, crescia três vezes mais rápido do que o PIB, mas hoje cresce no mesmo nível”, completa Braga. Há quem veja nisso um sinal de que a globalização estaria chegando a seu limite, tratado como o ‘pico da globalização”.

Um dos fatores para o temor de um pico tem a ver com o recuo da globalização financeira, que crescia pouco mais de 8% ao ano e agora avança quase 2%, diz o professor. “Houve um declínio da ordem de 65% do fluxo de capitais, entre 2007 e 2016”, conta Braga. Tamanha queda levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a divulgar relatório em que estima uma recuperação pequena em 2017 na economia mundial. Quanto ao Brasil, a ONU disse que o país ainda enfrentaria dificuldades neste ano para sua recuperação, com um crescimento mais lento em relação a períodos anteriores. Previsão ratificada pelo professor. “O Brasil saiu da recessão, mas seu crescimento ainda é medíocre”, diz.

Diretor da área internacional da Fiesp analisa saída do Reino Unido da União Europeia

Agência Indusnet Fiesp

O diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex), Thomaz Zanotto, considera que ainda é muito cedo para avaliar os impactos globais do Brexit (a escolha, feita pelo Reino Unido, de sair da União Europeia), mas afirma que isso tende a tornar mais longa a negociação entre o Mercosul e a União Europeia. Uma das razões é que a Inglaterra é favorável ao avanço do acordo.  Além disso, os esforços da União Europeia estarão concentrados nos aspectos econômicos, jurídicos e políticos do desligamento do Reino Unido do bloco. “No entanto, ainda acredito no sucesso do acordo”, afirma Zanotto. “Há um consenso no Mercosul quanto a importância da conclusão das negociações.”

Zanotto destaca que se o Brexit provocar redução significativa da atividade econômica na Europa o Brasil poderá ser afetado, já que o bloco europeu é um dos principais parceiros comerciais do país. Assim como outros países fora do bloco europeu, o Brasil pode ser marginalmente afetado caso as estimativas de menor crescimento do PIB mundial se confirmem. O Reino Unido, lembra, é um agente importante para a economia mundial, sobretudo para o projeto de integração europeu, e qualquer movimento drástico – como o Brexit – produz efeitos em escala.

O principal efeito do Brexit, diz Zanotto, é o aumento das incertezas, num cenário internacional que já é de baixo crescimento e sobrecapacidade produtiva. Isso, avalia, não contribui para a recuperação brasileira, sobretudo no comércio exterior.