Estatístico Paschoal Martins municia decisões de Talmo no vôlei feminino

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

“Sem ele eu não sou nada”, afirma, rindo, o técnico de vôlei Talmo de Oliveira.

O comandante da equipe feminina do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) refere-se ao estatístico Paschoal Martins.

Mais do que uma brincadeira, trata-se de um reconhecimento: a importância desse tipo de profissional é cada vez maior no esporte. Especialmente no vôlei, que tem centenas de ações repetidas ao longo de uma partida: saques, passes, levantamentos, bloqueios e defesas…

“Hoje, no alto rendimento, todas as decisões não podem ser aleatórias. Depende de estudo, de referências, de uma série de embasamentos para conseguir ser um pouco mais preciso”, explica Martins, que trabalha nessa função no Sesi-SP desde a formação da equipe feminina, em 2011.

“Em cima dessas informações um treinador toma as decisões e faz as avaliações de rendimento. Para que ele possa fazer isso, os dados de um jogo só não são suficientes. É necessário reunir um banco de dados e uma série de informações para que ele possa analisar.”

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Dados organizados por Paschoal Martins ajudam Talmo a analisar desempenho da equipe e comportamento de adversários. Foto: Caio Lopes/Fiesp


O trabalho envolve tecnologia da informação. São três notebooks ligados em rede durante a partida, uma câmera full HD para filmar os jogos do fundo de quadra e softwares italianos que processam dados e vídeo – Data Volley e Data Video.

Durante as partidas, enquanto Martins observa os jogos e vai classificando cada ação em tempo real, dois auxiliares de Talmo ficam com os demais computadores, recebendo dados já configurados e processados e abastecendo Talmo com informações cruciais. A comunicação é toda por rádio.

“Isso acontece entre um saque e outro. A decisão tem que ser tomada em segundos”, observa Talmo, que constantemente pede dados dos adversários durante o jogo. “Já tem que estar pensando na estratégia da rede seguinte.”

Cada lance é qualificado (percentuais e níveis de acerto ou erro, por exemplo) e classificado de acordo com a localização na quadra, virtualmente fatiada em quadrantes e subquadrantes. Assim, é possível saber se um saque em determinado ponto do fundo de quadra, por exemplo, pode influenciar o levantador adversário a recorrer a um determinado tipo de jogada. Os números podem ser decisivos para facilitar a marcação do ataque adversário pelo bloqueio e o posicionamento da defesa conforme as características do atacante rival, que, em situações recorrentes, costuma não variar: alguns usam a diagonal e outros, a paralela ou exploram o bloqueio.

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Paschoal Martins em ação durante jogo do Sesi-SP contra o Praia Clube na Vila Leopoldina. Foto: Lucas Dantas/Fiesp

De acordo com Martins, quem trabalha com estatística deve ter conhecimento da dinâmica do jogo e sobretudo entrosamento com a comissão técnica. “Eu preciso saber como eles enxergam o jogo e assim classificar as jogadas e os fundamentos da forma que eles pensam. A gente tem que falar a mesma língua. Além de registrar todas as ações durante o jogo eu também qualifico. Eu posso configurar do jeito que eles enxergam o jogo”, destaca.

Trabalho maior é fora da quadra

Quando termina um jogo é que começa o maior trabalho de um estatístico: a preparação para a partida seguinte. Ele tem quem sistematizar os dados para fornecer informações que orientem os treinamentos.

“Sou responsável por reunir dados e municiar o treinador e a comissão técnica para que possam ter condições de tomar uma decisão e montar uma estratégia, tanto para a nossa equipe como para marcar a equipe adversária. Diante da análise, o técnico diz o que precisa ser arrumado, quais são os pontos fortes e fracos”, assinala Martins.

Cada jogo é precedido por estudos apresentados em projetores. “Normalmente temos sessões de vídeo. Algumas só com a comissão técnica, para que as informações sejam analisadas. E depois, podem ser feitas sessões com as jogadoras. Tudo é preparado de acordo com a necessidade. Muitas vezes são montadas estratégias para que as jogadoras estudem as adversárias, como um trabalho de memorização, para que possa ser aplicado em quadra.”

De acordo com Talmo, os treinamentos são feitos em função do adversário. “A defesa e o bloqueio já acontecem em função daquele tipo de ataque”, exemplifica.

Martins, no entanto , alerta que os números são insuficientes. “Os treinadores têm muita experiência. A estatística não mostra a parte pessoal, a parte comportamental. Ela simplesmente mostra performance e rendimento. Voleibol é feito de momentos. Nem sempre um número reproduz um momento de jogo.”

Hoje, todas as equipes profissionais de vôlei têm estatísticos e compartilham dados – o profissional da equipe mandante tem o compromisso de enviar os conteúdos em até 24 horas após o término de uma partida. “Para facilitar o trabalho foi criada essa convenção. Isso funciona muito bem e facilita o nosso trabalho. É levado a sério, todos respeitam muito. Sem esses dados, essas equipes ficam à deriva.”

Profissão

Martins conheceu Talmo quando era juvenil. O atual técnico do Sesi-SP ainda atuava como levantador no Palmeiras. Depois de uma carreira de 12 anos no voleibol, com passagens por clubes brasileiros como Palmeiras e Lupo Araraquara e experiência na Espanha e em Portugal, Martins decidiu juntar seu interesse pelo esporte e por tecnologia – ele é técnico em processamento de dados e atualmente termina uma graduação em nível superior em educação física.

Foi convidado para trabalhar com Talmo e desde então vem se dedicando à atividade. “É um trabalho que as pessoas não veem durante um jogo e é extremamente importante para o jogo e os resultados. Passou a ter um pouco mais de importância. Virou uma profissão”, completa Martins, afirmando que no Sesi-SP conta com a estrutura necessária para realizar um bom trabalho. “Isso é fundamental para os resultados. Isso também é mérito do esforço do Sesi-SP.”