Entrevista: A criadora da rede de troca de tempo Bliive fala sobre cultura colaborativa

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Por Karen Pegorari Silveira

Entrevistamos Lorrana Scarpioni, a brasileira mais jovem da lista dos dez brasileiros mais inovadores com menos de 35 anos da revista Technology Review, do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Com apenas 23 anos, Lorrana é uma das duas mulheres da lista e já criou uma rede colaborativa de troca de tempo, a plataforma Bliive, que hoje possui mais de 15 mil usuários e está em 55 países.

Para ela, a cultura colaborativa, além de melhorar a qualidade de vida e engajar os funcionários, faz com que as pessoas se desenvolvam e renovem suas visões, levando novas soluções para a empresa. Além disso, ela defende que as empresas colaborativas são vistas como inovadoras e que incentivam e valorizam os seus funcionários.

Veja a íntegra da conversa:

A cultura de colaboração e compartilhamento vem ganhando força dentro das empresas. Você acredita que essa é a tendência de gestão para o futuro?

Lorrana Scarpioni Sim, eu acredito que além de aumentar competitividade e a qualidade de vida dos funcionários, uma cultura colaborativa vem mostrando resultados cada vez mais positivos para as empresas. A medida que a geração Y está tomando cada vez mais lugar no mercado de trabalho, que é uma geração que pensa mais colaborativamente, de maneira mais horizontal, a cultura colaborativa tem se demonstrado uma grande ferramenta para melhorar o clima organizacional, promover a inovação e ainda ajudar as pessoas a se sentirem numa comunidade dentro da empresa. Segundo realizado em 2013, The Growing Gap Between Good And Great, promovido pela Miller Heiman Research Institute, um dos três grandes diferenciais das organizações extraordinárias, é a existência de uma cultura colaborativa forte. Eu acredito que a colaboração tem um impacto direto no lucro da empresa, tendo em vista que ela é importante para aumentar a produtividade, reduzir os custos e ainda colaborar pro fortalecimento da equipe, das relações com os parceiros e com os clientes. Uma empresa que colabora demonstra que ela quer mais o interesse de todos, do que do interesse próprio, passa mais segurança e isso faz com que elas cresçam.

Na sua opinião, como a cultura colaborativa pode impactar na produtividade e na competitividade das empresas? Quais outros ganhos ela pode ter?

Lorrana Scarpioni A cultura colaborativa, além de melhorar a qualidade de vida e engajar mais os funcionários, tem um grande diferencial por ser um espaço aberto e horizontal para que as pessoas se desenvolvam, renovando suas próprias visões e trazendo novas soluções para diversas situações que existem na empresa. Além disso, percebemos que empresas colaborativas são vistas como empresas inovadoras e que incentivam e valorizam os seus funcionários. Eu acredito que um dos grandes valores da colaboração, seja a valorização das pessoas no sentido de que todos podem contribuir, aprender e ensinar na organização.  A soma do que todos têm, todos os conhecimentos, habilidades e motivações, é que vai fazer a empresa ir mais longe.

Um trabalho colaborativo tem a ver com sustentabilidade e inovação. Na sua opinião, como esse novo modelo de gestão pode contribuir com o planeta?

Lorrana Scarpioni Eu acredito que sim, uma empresa colaborativa também é sustentável nas suas relações. A competição não é sustentável se você pensar pelo lado das relações humanas, tendo em vista que quando as pessoas competem, elas acham que existe uma escassez de recursos, escassez de cargos e oportunidades. Elas precisam competir porque o lugar delas tem que ser garantido. Uma cultura colaborativa é mais sustentável porque todas as pessoas percebem que têm espaço para seus talentos e elas trabalham para sustentar a empresa em prol de um bem comum e não em prol de uma competição de sobrevivência. É lógico que competitividade tem o seu valor para motivar e para atingir resultados, mas uma cultura colaborativa é muito mais abundante e inovadora. A colaboração também faz com que diferentes pares comecem a conversar e percebam o valor um do outro e com isso a inovação aberta fica muito mais fácil dentro da empresa porque eles vêm a colaboração como uma ferramenta para trazer novas visões e criar algo novo juntos.

No final de abril, a edição em português da revista de inovação MIT (Massachusetts Institute of Technology), Technology Review, divulgou a lista com os dez brasileiros mais inovadores com menos de 35 anos e você está nessa lista. Como empreendedora, qual dica você para a empresa que pretende fomentar a cultura de colaboração, compartilhamento visando a inovação do negócio?

Lorrana Scarpioni O Bliive colaboração, somos uma empresa que cresceu nesse core e para nós foi uma grande honra ser reconhecido pelo MIT, mais do que isso o prêmio nos motivou a perceber quão importante é a troca de tempo para o ambiente corporativo. Com essa visão, há mais ou menos uns 8 meses atrás, começamos a criar o Bliive Grupos, produto que será lançando oficialmente no mês de abril. O Bliive Grupos é uma solução para promover colaboração e desenvolvimento humano dentro para organizações. Por meio de uma plataforma online todos os funcionários têm um espaço privado e exclusivo onde eles podem trocar tempo com os colegas de trabalho, ou seja, um funcionário pode oferecer uma hora de aulas de espanhol,por exemplo, e por isso ele recebe um crédito de uma hora, que na plataforma chamamos Timemoney. Então o funcionário pode trocar esse crédito por qualquer atividade disponível na rede, como aulas de oratória ou ajuda com finanças pessoais. O Bliive Grupos é baseado em três tipos de troca: troca Funcionário x Funcionário, Funcionário x Empresa e Funcionário x ONG. As empresas também podem adotar uma ONG e promover a troca de tempo entre funcionários e causas sociais. Antes mesmo de lançarmos a solução, diversas empresas entrarem em contato buscando diferentes propostas de valor, como por exemplo retenção de funcionário, engajamento, inovação aberta e também mentorias. Com o Bliive Grupos acreditamos poder entregar desenvolvimento, integração, colaboração e informação para as empresas.  Desenvolvimento porque muitas vezes as empresas possuem pessoas talentosas escondendo e desperdiçando habilidades que poderiam ser usadas para a capacitação de outros funcionários, tudo isso sem usar o dinheiro. Outra proposta de valor é a integração, aproximando funcionários de diferentes setores e áreas estamos criando novas relações e oportunidades. Pensando em colaboração acreditamos que o Bliive Grupos é uma solução a médio e longo prazo, porque influenciamos a cultura organizacional para um pensamento mais colaborativo e menos competitivo. Por fim, entregamos informação por meio de relatórios mensais sobre quais são os maiores talentos e necessidades dos membros da organização. Com isso a empresa pode descobrir o perfil dos funcionários e aquilo que eles querem desenvolver. Como o Bliive já possui mais de 80 mil usuários, a exposição da marca das empresas também um benefício atrelado ao Bliive Grupos. Hoje já estamos implementando a solução em empresas de diferentes portes, temos empresas que possuem 3 mil funcionários até de 35 mil funcionários e com até organizações com um grupo para 300 funcionários. Acredita que essa seja uma forma muito efetiva de levar a colaboração para as empresas e melhorar a qualidade de vida e ambiente organizacional.

Uma gestão colaborativa exige investimento a longo prazo. Neste caso, como você acha que a empresa deve enfrentar as pressões competitivas e financeiras de curto prazo?

Lorrana Scarpioni Eu acredito que a gestão colaborativa tem uma fase de transição na qual as pessoas ainda precisam de uma competição para se motivar de algumas formas e entender e até ver os resultados da gestão colaborativa primeiro, antes de mergulhar de cabeça nela e isso existe um investimento a longo prazo. Todo investimento em colaboração é algo que deve ser acompanhado e tratado no mundo das ideias porque eu o mindset de colaboração começa dentro dos funcionários, dentro das pessoas, pra depois ser externalizado em ações ou em projetos colaborativos. Acredito que as pressões competitivas vêm, mas cabe as empresas apostarem cada vez mais na colaboração, está cada vez mais comprovado que esse é o caminho para as empresas bem sucedidas. Por mais que, momentaneamente, a competição de mais metas e resultados sejam mais factíveis, no longo prazo os resultados vêm de uma cultura colaborativa, de pessoas que conversam e que compartilham e crescem juntas.

Você acredita que os profissionais brasileiros estão preparados para esse novo modelo de gestão, mais participativo?

Lorrana Scarpioni Sim, eu acho que isso tem crescido cada vez mais dentro das empresas. É lógico que vemos grandes resultados em empresas de fora do Brasil que já são referência em cultura colaborativa, mas cada vez mais o brasileiro tem percebido o valor dessa mudança. Olhando para a cultura, a forma como o brasileiro se porta também contribui para serem mais colaborativos. Por exemplo, os brasileiros são povo que mais faz voluntariado no mundo, o brasileiro tem essa cultura de querer ajudar, de ser útil, de perceber que se ele tem um tempo livre, ele pode compartilhar. Muitas vezes, é lógico, a escassez de recursos e a crise econômica contribui muito mais para um clima competitivo, mas ao mesmo tempo percebemos que é da nossa cultura, que queremos compartilhar. Dessa forma, acredito que encontrando um equilíbrio podemos ver a colaboração como uma solução mais certa e sustentável. Na minha visão o Brasil está preparado para compartilhar e esse momento de incertezas é uma ótima oportunidade para apresentar um sistema de trocas não monetárias, como o Bliive Grupos, para as pessoas das organizações.