Brasil e Suécia debatem na Fiesp mecanismos de cooperação para o desenvolvimento sustentável

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O Estado de SP tem obrigatoriedade de reduzir 20% de suas emissões, em todos os setores, até 2020, tendo por ano-base 2005, segundo a Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC), a fim de atender ao Acordo do Clima. A lembrança desse compromisso foi trazida por Mario Hirose, diretor adjunto do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp (DMA), na abertura de evento, realizado no dia 28 de setembro, entre Brasil e Suécia para debater como acelerar o desenvolvimento sustentável, com foco na geração de bioenergia a partir de biogás, que pode ser obtido de resíduos orgânicos e lodo.

Em 2009, Brasil e Suécia assinaram parceria estratégica de apoio à criação de plataformas colaborativas para a troca de conhecimento e desenvolvimento de projetos conjuntos.

Nosso país tem muito a oferecer quando o tema é desenvolvimento de biocombustíveis avançados a partir do etanol. Por sua vez, a Suécia é case de crescimento sustentável por meio da combinação de diferentes métodos e do desenvolvimento de tecnologia inovadora de ponta. Economia circular. Resíduos tornam-se fonte adicional de receita financeira.

A economia circular traz benefícios a muitos setores da sociedade, como, por exemplo, ao setor de transportes, com o biogás e sua contribuição para a redução da emissão de gases de efeito estufa. Portanto, o objetivo deste encontro é detectar novas áreas nas quais os dois países possam estabelecer cooperação na indústria, no governo e na academia (tripla-hélice).

José Augusto Corrêa, diretor titular adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex), pontuou que os dois países têm muito a fazer em conjunto quando o tema é sustentabilidade, especialmente pela tecnologia, de um lado, e pelo fato de o Brasil ter grande incidência de sol em seu território.

Já Cecília Lif, conselheira da Suécia no País, frisou que esta é a sexta vez – VI Semana de Inovação Suécia-Brasil – que se realizam esses ciclos de debates, somando mais de 30 eventos em sete Estados brasileiros em uma parceria que se fortalece cada vez mais. Para ela, o desafio é como criar cidades sustentáveis, dando a devida atenção à agricultura e energia renováveis. “No setor de transporte, até 2030 deverá haver 70% de redução nas emissões”, pontuou. Lig explicou a importância da geração de biogás na Suécia, obtido a partir de plantas de saneamento, com foco na economia circular e na tripla hélice.

Dusan Raicevic, gerente da Vera Park Sustainable Hub, explicou que é possível obter biogás a partir de resíduos orgânicos e lodo, com o manejo correto. “Nosso projeto é apoiado por um conjunto de empresas de gestão de lixo e ONG representada por cientistas ambientais. Pensamos o lixo como recurso e lucro. E temos aproveitado os aterros e a incineração, considerando que o lixo é um conjunto de tudo, um material que está no lugar errado e deve ser reutilizado de modo ideal. Assim, recuperar o que der, minimizar e não gerar resíduo. No futuro, é preciso fazer as coisas de forma diferente”, explicou.

As empresas fazem a separação dos elementos e com o apoio do sistema de logística é possível impulsionar um negócio novo, que resulta em gás veicular, gás líquido, reciclagem de papéis, plásticos e madeira, que era muito usada para o aquecimento e isto foi resolvido, segundo Raicevic. O plástico era uma grande preocupação, pois ele impedia a fermentação de outros materiais a fim de obter o biogás. A solução compartilhada com universidades foi o desenvolvimento de material compostável em duas semanas que substituiu o plástico e vem de 85% de fonte renovável.

São retirados metais pesados, e cinzas de incineração passam a integrar rodovias. As madeiras recicladas são mais apropriadas do que as madeiras virgens para utilização em ambientes internos. Portanto, o que era problema virou recurso, informou o painelista Raicevic. Ele explicou que foi criado parque solar aberto ao público onde antes era aterro, e a energia produzida é deduzida do seu consumo. “O Vera Park é o único da Europa que conseguiu desenvolver a economia circular”, finalizou.

Encontro realizado na Fiesp entre especialistas da Suécia e do Brasil para discutir desenvolvimento sustentável. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

“É preciso tratar do ambiente regulatório no desenvolvimento do biogás”, alertou Marcelo Cupolo, gerente da Associação Brasileira de Biogás e Biometano, mas a legislação estabelecida desde 2012 auxiliou o setor. Segundo explicou, “o potencial brasileiro de biogás – 1,2 bi m3/ano – equivale a uma Itaipu, o que é muito relevante, e nem todos os países têm isto. Aqui, o Sol ajuda muito”. Transformado em biometano, poderia suprir 44% da necessidade de diesel que hoje é importado. Outro benefício apontado pelo expositor é o desenvolvimento da localidade, pois se exige mão de obra qualificada.

Quanto às emissões, Cupolo exemplificou que se o biometano fosse usado no lugar do diesel, alcançaríamos 17% da meta brasileira fixada na COP21 e, em termos de passivo ambiental, a pegada de carbono é negativa. “O biogás da vinhaça representa grande potencial para o País e é possível armazená-lo para atender maior ou menor demanda e contar com geração na base distribuída”, ilustrou.

Quanto à cogeração, o expositor explicou o aumento da eficiência do sistema, praticamente dobrando o desempenho com economia de combustível para produção da mesma carga elétrica e térmica: “teríamos 58% a menos de combustível em cogeração e 50% a menos de emissões”, disse. Os desafios elencados por ele quanto à cogeração: demanda térmica e elétrica simultânea; disponibilidade de rede de gás natural, operação e manutenção especializada e equipamentos disponíveis no mercado brasileiro. Mas é preciso corrigir a oscilação de preço do gás natural, que precisaria ser mais estável a longo prazo, pois hoje é indexado ao petróleo e ao dólar, e garantir o payback dos investidores.

Na avaliação de Cupolo, há grande potencial de produção de biogás e biometano no interior de São Paulo e demanda de consumo na capital, mas isto depende mais de regulação. A vantagem é que se trata de combustível limpo que pode substituir gradualmente os fósseis, reduzindo a emissão de GEE.

A acadêmica Semida Silveira (KTH; Royal Institute of Technology) abriu sua participação solicitando que se pense em um contexto maior para corrigir um erro sistêmico, entendendo resíduo como recurso, mas sem correr o risco de gerar cada vez mais resíduo porque ele é recurso. Deve-se aumentar a eficiência no uso de materiais e de energia, no contexto da economia circular.

“Hoje, há deposição de 1% a 2% dos resíduos de residências em função do marco regulatório de gestão de resíduos na Europa. Cada sueco produz meia tonelada por ano e queremos reduzir isto em 20%. A incineração ainda domina, mas a deposição em aterros sanitários foi proibida em 2005”, contextualizou. Silveira exemplificou que Estocolmo é uma cidade aquecida via incineração de resíduos, mas, por outro lado, o uso de energia é o mesmo desde os anos 1970 porque se aumentou a eficiência.

Como exemplo, ela citou que grande parte do biogás vem de estação de tratamento de água subterrânea que fica em uma ilha. Para não desperdiçar as coletas residenciais, que perdem a capacidade de gerar biogás se começam a fermentar, empresas desenvolveram saquinhos que abrigam os resíduos. Há coleta feita por caminhões e drive in gratuito para deposição de material reciclado.

“O biogás ganhou importância nos últimos 15 anos. Há uma parte significativa dos ônibus que se utilizam do biogás, uma das possibilidades da biomassa. Há uma política integrada, e até 2030 a frota de veículos deve estar livre de combustíveis fósseis”, explicou.

Já o professor Torleif Bramryd (Lund University) frisou que é preciso ter uma visão multidisciplinar sobre o tema. Pode-se aumentar a produção e corrigir problemas como o uso de celulose no processo de extração de biogás a partir de resíduos sólidos e a purificação do odor a partir de uma planta que não permita seu escape para a atmosfera. Diferentes processos precisam de tempos diferentes e abordagens igualmente diversificadas. O sequestro de carbono orgânico em aterros é positivo. “Há terminais de ônibus próximos a plantas de biogás”, completou, “controlando o ambiente anaeróbico podemos extrair nutrientes e reciclá-los, devolvê-los ao sistema”.

Para o professor Michael Johansson (Lund University), um dos grandes desafios é tornar o transporte público mais atraente do que o carro e um mercado igualmente promissor, pois em termos de combustíveis é possível escolher entre 50% ou 100% de biogás, sendo este um pouco mais caro, ou o uso do gás veicular, somatória do gás natural mais o biogás. “Hoje se utiliza mais o biogás do que o gás natural e também há maior oferta de postos de abastecimento, tornando-o um mercado positivo, inclusive em função das políticas locais cada vez mais sustentáveis. Há 50 modelos diferentes de carros que rodam com biogás e quase 20% da frota de ônibus roda com biogás ou gás natural”, pontuou, contextualizando com a necessidade de uma frota livre de energia fóssil e de emissão neutra até 2050.

“Queremos outra estrutura de cidade, o que inclui planejamento urbano, eficiência energética com combustíveis renováveis, ônibus sobre trilhos e uma cidade sem carros”, disse Johansson. Isto envolve visão, mudança de comportamento e entender produtos, como um carro, como serviço, por exemplo.

Antonio Celso de Abreu Junior, subsecretário de Energias Renováveis, afirmou que a maior emissão de gases de efeito estufa (GEE) ainda vem do transporte, e é preponderante o uso de diesel, mas por força de lei o biodiesel entra na composição do combustível na casa dos 8%. O preço determina qual combustível usar em um carro flex, por isto nem sempre o etanol tem a preferência, disse, reforçando que São Paulo produz cerca de 50% do etanol do país. Mas há uma discussão mais ampla sobre a pressão dos preços de energia, com reflexo do uso de térmicas, como está previsto a partir do ano que vem em função da escassez hídrica. “É preciso viabilizar a geração distribuída como a solar e criar políticas diante do fato de São Paulo ser exportador de gás natural”, explicou o subsecretário, citando o decreto n. 958659/2012, referente ao Programa Paulista de Biogás, e à deliberação Arsesp n. 744/2017 a respeito da distribuição de biometano na rede de gás canalizado em São Paulo.

Um exemplo bem-sucedido de cooperação Suécia-Brasil em transportes é o acordo técnico assinado em 2014 entre o Parque Tecnológico Binacional de Itaipu, em Foz do Iguaçu (Paraná), e a Scania, em que essa última doou ao parque um ônibus Scania Euro 6, 100% alimentado com biometano. Esse projeto visa estimular o uso de biometano como combustível veicular.

Silvio Munhoz, diretor da Scania, falou sobre o tema no encontro, com o “Going gas” – ônibus a biogás como uma alternativa para as cidades. Um ônibus movido a biometano já foi encarroçado e vai circular em São Paulo como exemplo de transporte sustentável.

Como acelerar o desenvolvimento sustentável?

Confira as apresentações realizadas no dia 28/09, no evento: Como acelerar o desenvolvimento sustentável?

O cenário bioeconômico suecoSr. Dusan Raicevic, Gerente, Vera Park

Estratégia nacional do Brasil para perceber a diminuição dos gases de efeito estufa, Sr. Marcelo Cupolo, Gerente Territorial, Associação Brasileira de Biogás e Biometano

Extrações de biogás de resíduos sólidos – uma fonte sustentável e renovável de energia para combater a emissão de gases de efeito estufa, Prof. Torleif Bramryd, Lund University

Transporte municipal sustentável usando combustíveis renováveis. Efeitos no clima, infraestrutura e serviços de ecossistema, Prof. Michael Johansson, Lund University

“Going gas” – ônibus a biogás como uma alternativa para as cidades, Sr. Silvio Munhoz, Diretor, Scania

INICIATIVAS SUSTENTÁVEIS: ITAIPU – NOVAS ENERGIAS

Crédito foto: Alexandre Marchetti

Por Karen Pegorari Silveira

Adotar tecnologias e processos industriais limpos e ambientalmente corretos é uma das submetas do Objetivo 9 para o Desenvolvimento Sustentável, para isso, a Itaipu Binacional adotou o aproveitamento de fontes renováveis de energia, em especial o biogás produzido a partir de dejetos da agropecuária, agroindústria e esgotos urbanos.

A atuação da Itaipu nesse campo, iniciada em 2008, resultou na criação do CIBiogás (Centro Internacional de Energias Renováveis–Biogás), uma instituição científica, tecnológica e de inovação, formada por 17 instituições que desenvolvem e/ou apoiam projetos relacionados às energias renováveis.

O Centro é responsável por projetos de implantação, monitoramento e melhorias em sistemas de produção de biogás em 11 unidades de produção no oeste do Estado do Paraná. Os sistemas foram instalados em amidonarias (indústria que produz alimentos com amido), pequenas e médias propriedades rurais, cooperativas, granjas e empresas que transformam dejetos de animais ou resíduos industriais em eletricidade, energia térmica e biocombustível, podendo ainda ser obtido biofertilizante de todo esse processo. As unidades comprovam a viabilidade técnica e econômica do biogás.

O laboratório do CIBiogás, que realiza os ensaios de análise do potencial do biogás, compartilha o conhecimento desenvolvido no setor com cursos na modalidade Ensino a Distância em Português, Inglês e Espanhol.

Segundo levantamento da empresa, os cursos já atenderam, até o momento, 1.148 alunos de 26 países, especialmente da América Latina e da África, como Argélia, África do Sul, Burkina Faso, Cabo Verde, Ghana, Ilhas Maurício, Moçambique e Senegal, com destaque no continente africano, onde a maioria dos países ainda não conta com serviços de energias térmica e elétrica com uma cobertura satisfatória e o carvão e a lenha constituem as principais fontes energéticas. Daí a importância do biogás como alternativa para a geração de energia.

O biocombustível, produzido na Granja Haacke, é comprimido em cilindros e transportado até um posto de abastecimento na Itaipu Binacional. A frota de veículos da Itaipu encerrou 2016 com 59 veículos movidos a biometano, um aumento de 37% em relação ao ano anterior.

Existe ainda o projeto UDCIBiogás, que consiste no desenvolvimento de uma planta de biogás com o tratamento de biomassa residual proveniente da poda de grama, resíduos de restaurantes e copas e parte do efluente sanitário gerado no Complexo Itaipu Binacional. O biogás gerado a partir do tratamento desses resíduos será refinado e o biometano oriundo desse refino, utilizado como biocombustível para abastecer parte da frota de veículos da Itaipu Binacional.

Além de gerar combustível verde, o projeto apresenta benefícios como redução no custo com transporte dos resíduos orgânicos gerados nos restaurantes; redução no volume na estação de tratamento de esgoto e o fornecimento de biofertilizante para a manutenção das áreas verdes de Itaipu. A implantação da estrutura está na fase final, com o comissionamento dos equipamentos.

Como resultados são destacados o desenvolvimento do primeiro sistema de geração de energia térmica para o cozimento de alimentos, em substituição à lenha, no Parque Nacional das Quirimbas; a produção de biofertilizante obtido a partir da transformação dos dejetos de animais em biogás, para uso na horta da comunidade; a diversificação da produção de alimentos na região, devido ao uso do biofertilizante, com inclusão de hortaliças na alimentação.

Atualmente, a Itaipu, juntamente com o CI-Biogás, vem discutindo uma nova parceria com a Companhia Paranaense de Energia (Copel) voltada às energias renováveis na área rural. A Copel, por meio do programa Mais Clic Rural, quer investir em melhorias na rede de distribuição.

Segundo o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, Paulo Schmidt, a ideia é combinar esse programa da Copel com o aproveitamento do biogás e de outras fontes renováveis disponíveis na região. “Dessa forma, o produtor, além de receber uma melhor oferta de energia, também terá a oportunidade de melhorar os seus ganhos pela venda de energia e de eliminar problemas ambientais”, afirma Schmidt.

Ainda de acordo com o superintendente outro ponto importante do projeto é o desenvolvimento de uma rede de internet de alta capacidade, que tanto servirá à gestão do novo modelo de rede de distribuição, com núcleos de geração descentralizada, quanto aos produtores e cooperativas em diversas aplicações.

Sobre a Itaipu Binacional

Hoje, a Itaipu tem cerca de vinte unidades geradoras e esta geração de energia pode alcançar o número de 100 bilhões de kW hora. Atualmente a Usina emprega 1.340 funcionários no Brasil e 1.760 no Paraguai. É considerada a segunda maior usina hidroelétrica do mundo, ficando atrás somente da Usina de Três Gargantas na China.

Na Fiesp, secretário de Energia e Mineração de SP fala em futuro com fontes renováveis

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

João Carlos de Souza Meirelles, secretário de Energia e Mineração do Estado de São Paulo, participou da reunião desta terça-feira (28 de março) do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp (Cosema). Fez a palestra A Política Estadual de Energia e o Meio Ambiente, destacando que não há como discutir sustentabilidade sem discutir desenvolvimento econômico.

São Paulo, disse o secretário, tem a matriz energética mais limpa do mundo. Energias renováveis respondem por 58% da produção no Estado. E é imprescindível produzir mais energia renovável. Isso faz parte das diretrizes estratégicas do Estado. A grande produção de etanol no Estado dá base para a sustentabilidade na energia.

Outra diretriz é fomentar o gás natural como garantia de oferta firme e de transição para as renováveis. Destacou que falta, por enquanto, tecnologia de armazenamento da energia produzida por células fotovoltaicas.

A geração de energia perto dos centros consumidores é outra diretriz, por segurança energética. São Paulo importa 63,8% da energia que consome. Uma medida para ter mais energia de backup é a construção planejada de usinas termelétricas a gás, para evitar apagões e outros problemas. “Cada vez mais precisamos de qualidade da energia.”

Outra diretriz é a busca de eficiência energética, bem como a redução das emissões de carbono. E todas as diretrizes devem ser capazes de gerar trabalho e renda, afirmou Meirelles.

Reunião do Cosema em 28 de março com a participação de João Meirelles, secretário de Energia e Mineração de São Paulo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Reunião do Cosema em 28 de março com a participação de João Meirelles, secretário de Energia e Mineração de São Paulo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Petróleo e gás

O potencial do Estado no petróleo é o maior do Brasil, mas São Paulo não tem discutido o setor, por falta de tradição, disse Meirelles. E isso apesar de São Paulo ter a maior produção de máquinas e equipamentos para exploração de petróleo. A discussão foi delegada à Petrobras. “Até do ponto de vista ambiental precisamos discutir esse tema”, afirmou.

Como a quase totalidade dos campos paulistas do pré-sal tem a produção associada de gás natural e de petróleo, com o gás sendo reinjetado por falta de demanda, o que pode ser feito por tempo limitado, faz sentido usá-lo, argumentou. E com o esgotamento do potencial hidrelétrico, o gás natural como combustível de termelétricas de alta eficiência e pouquíssimo poluentes é a alternativa, disse Meirelles.

O secretário explicou o plano de expansão da rede de distribuição de gás natural em São Paulo e a instalação de novas termelétricas a gás na capital. Siemens/Gazem e AES Tietê vão gerar em duas novas áreas no canal Pinheiros, perto da represa Billings, 1.500 MW, com investimento de R$ 6 bilhões e consumo de 6 milhões de metros cúbicos de gás por dia. A queima, explicou, é muito mais limpa que a de múltiplos geradores a diesel hoje necessários por segurança energética.

Meirelles disse que o complexo do Hospital das Clínicas passará por um processo de melhora de eficiência energética e de implantação de geração distribuída. Terá células fotovoltaicas. Tudo será feito em parceria com o setor privado, modelo a ser usado também no Instituto Butantan.

Há potencial de 35,4 GW de produção de energias renováveis no Estado, disse Meirelles, que mostrou tecnologias para geração fotovoltaica – por exemplo, no parque Villa Lobos.

O secretário também explicou o Programa Paulista de Biogás, para incentivar a produção de biometano nas usinas de cana de açúcar. E com a introdução dos motores flex diesel e gás seria possível economizar 1,3 bilhão de litros de diesel por safra de cana e reduzir a emissão de CO2. Para isso Meirelles pediu apoio da Fiesp para incentivar fabricantes de caminhões a aumentar a produção usando motores flex.

O Estado tem 97% de sua população em área urbana, com demandas como energia elétrica e coleta e destinação de lixo. Parte dele deverá ser usado em unidades de recuperação energética (URE).

Outro tema é o tratamento de cavas de mineração. Parte delas poderia, exemplificou Meirelles, ser usado para produção de energia solar.

A recuperação do complexo Pinheiros-Billings, com requalificação das águas, culminará com a total despoluição do rio, afirmou o secretário. E permitirá o total aproveitamento da usina Henry Borden.

Walter Lazzarini, presidente do Cosema, conduziu a reunião.

Energias alternativas precisam de incentivos e menos tributos, dizem participantes do 14º Encontro de Energia

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

No painel “Inserção e regulamentação da minigeração”, agenda da tarde desta segunda-feira (05/08) do 14º Encontro de Energia, foram apresentadas alternativas sustentáveis, mas todo o debate levou a duas conclusões: ainda faltam mecanismos de incentivo e sobram críticas à cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Elbia Melo. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Elbia Melo, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), ressaltou que o primeiro leilão de energia eólica ocorreu em 2009 e entrou em operação apenas em 2012, proporcionando resultados somente agora.

Esta foi uma primeira fase incentivada pelo Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), explicou ela. “Agora, estamos em uma segunda fase, competitiva, em um modelo que está sendo copiado por outros países”, disse.

Em 2012, foram realizados seis leilões específicos para esse tipo de energia. Elbia observou que a “safra de ventos” é inversamente proporcional à sazonalidade da produção hidrelétrica, ambas complementando-se.

Outro ponto positivo apontado, segundo ela, diz respeito à possibilidade de reduzir a presença das condenadas termoelétricas na matriz energética nacional com a força dos ventos.

Se por um lado a energia eólica reduz custos e evita encargos de serviços de sistema – economia de aproximadamente R$ 1,6 bi em 2012 – e a Resolução 482 regula o setor, falta discutir incentivos, apesar de o Plano Brasil Maior ter dado um impulso ao setor.

“Em 2021, a previsão é de 9% de participação da eólica na matriz, o que significa 16 GW”, segundo sinalizou a representante da ABEEólica.

Já o sistema fotovoltaico conta hoje com somente 14 projetos de sistemas solares registrados na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Energia fotovoltaica

Osvaldo Soliano, do CBEM: ICMS atrapalha sistema de energia alternativa que ainda engatinha. Foto: Everton Amaro/Fiesp

“Os projetos emblemáticos ficam por conta dos estádios solares e do Projeto Juazeiro, o Brasil Solaire, integrado ao programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, que possibilitará, inclusive, a geração de renda”, revelou Osvaldo Soliano, diretor do Centro Brasileiro de Energia e Mudança do Clima (CBEM).

Ele criticou a introdução de cobrança do ICMS em um sistema de energia alternativa que ainda engatinha no país, antes de se tornar rentável, atrapalhando seus primeiros passos e o pay back (tempo da taxa de retorno do investimento). O setor imobiliário dos Estados Unidos já teria despertado para essa possibilidade: há uma Itaipu instalada nos telhados privilegiando a energia fotovoltaica.

Sua viabilidade é compartilhada pelo diretor de planejamento da AES Eletropaulo, Otávio Grilo. “Das tecnologias existentes no campo da geração sustentável, apenas a fotovoltaica possui algum potencial real.”

Ele apontou que o único caso em São Paulo é do Greenpeace, no Butantã, projeto existente desde 2008 e anterior à Resolução Normativa n. 482/2012 da Aneel.

Para Otávio Grilo, ainda é preciso vencer questões culturais e contar com incentivos para resolver os gargalos que atrapalham a competitividade.

Biogás

Cicero Bley, da Itaipu: minigeração proporciona vantagens quanto ao autoabastecimento e geração de renda Foto: Julia Moraes/Fiesp

Todas as regiões do país têm vocação para o biogás, uma energia “invisível” para o governo e o produtor, destacou o superintendente da Itaipu Binacional, Cícero Bley.

Ele reforçou que a minigeração proporciona vantagens quanto ao autoabastecimento e geração de renda, abrindo novas perspectivas de desenvolvimento local e industrial, com forte contribuição do agronegócio.

Bley foi mais um a criticar a incidência do ICMS, classificando-a como “um banho de água fria no processo”.

 

Especialistas destacam aumento da oferta/demanda das fontes incentivadas no mercado livre de energia

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

Especialistas discutem fontes incentivadas durante 13o Encontro Internacional de Energia da Fiesp

Nos últimos anos, o Brasil registrou o crescimento da oferta e demanda das fontes de energia incentivadas – eólica, biomassa, biogás e solar – no mercado livre de energia. Os investimentos para expansão deste setor e suas regras contratuais foram os temas discutidos no painel “Competitividade das ‘Fontes incentivadas’”, durante o 13º Encontro Internacional de Energia da Fiesp, realizado nesta terça-feira (07/08),  no Hotel Unique, em São Paulo.

O evento, coordenado pelo diretor-titular-adjunto da Divisão de Energia do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da entidade, Lucien Belmonte, contou com a participação do presidente do conselho gestor dos Mananciais (Comer), Cristopher Vlavianos; do Trader de Comercialização  Ecom Energia, Celso Concato Junior; do diretor-executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado; e do assessor especial de Meio Ambiente da vice-presidência Corporativa de Distribuição Rede Energia, Decio Michellis Junior.

Confira o resumo das palestras:

Cristopher Vlavianos (Comerc): Na avaliação do presidente da Comerc, o desenvolvimento do mercado de fontes renováveis é frutos dos investimentos realizados pelo Programa de Incentivo as Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), que estimulou o aumento da oferta e da demanda de fontes renováveis no mercado livre de energia elétrica. “O Brasil dispõem de recursos naturais, tecnologia e crescimento da demanda. Itens fundamentais para que o país cresça de uma forma sustentável. A tendência é que estes novos consumidores migrem para o mercado livre e contratem energia limpa”, pontuou.

Celso Concato (Ecom): De acordo com o Trader de Comercialização da Ecom, nos próximos anos o mercado livre de energia elétrica registrará um crescimento significativo da demanda dos consumidores especiais – potência em torno de 500 KW e 3.000 KW. “O foco do mercado está nos consumidores menores, que só podem comprar energia de uma fonte incentivada”, afirmou.

Decio Michellis (Rede Energia): O vice-presidente da Rede Energia defendeu a interligação das redes de energia para ampliar a eficiência e segurança energética brasileira. Segundo Michellis, o mercado brasileiro é muito oneroso e repleto de cargas tributárias que inibem novos investimentos e, consequentemente, levam ao enfraquecimento do setor produtivo: “Não basta ter uma energia a preço justo. O que nós precisamos é de mercado”. E acrescentou: “Os custos ambientais são resultado do déficit de investimentos públicos. Dos custos ambientais para construção de uma nova hidrelétrica, entre 15% a 20% destes ônus são resultado da falta de políticas públicas, que foram transformados em compensação ambiental”.
Durante sua explanação, Michellis defendeu o desenvolvimento de uma nova geração de reatores nucleares – intrinsecamente seguros – como alternativa para diversificar as fontes de energia: “A continuidade das políticas públicas e o financiamento dos programas e ações são um grande desafio para que o Brasil possa manter uma matriz energética limpa e competitiva”, ressaltou.

Marcelo Furtado (Greenpeace): O diretor-executivo do Greenpeace defendeu a realização de um amplo debate com representantes da sociedade civil para avaliar os tipos de tributos, encargos e impostos que devem ser dedutivos da conta de luz dos brasileiros. “É muito importante que a gente eduque a sociedade sobre quais são os desafios e o preço que nós teremos que pagar”, afirmou. No entendimento de Furtado, o governo precisa investir na criação de políticas de estado que assegurem o desenvolvimento das fontes de energias renováveis: “A instabilidade do mercado livre faz com que investidores e comprador fechem contrato de curto prazo. Temos que adotar uma política de longo prazo. Não podemos adotar políticas de governo, que se encerram de quatro em quatro anos, mas políticas de estado, onde a população tenha o entendimento do que precisa ser feito”.