Satélite encurta tempo de implantação de banda larga

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Reunidos nesta quarta-feira (18/5) na Fiesp, para participar de workshop sobre telecomunicações promovido pelo Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da entidade, especialistas do setor apontaram o potencial de novas tecnologias de satélite para a expansão da banda larga no Brasil. Juarez Quadros do Nascimento, ex-ministro das Comunicações e sócio-presidente da Orion Consultoria, moderou o painel que discutiu o tema. Ele lembrou que já é possível, graças aos satélites, cobrir áreas a que as operadoras não chegam, a preço competitivo. O destaque é a banda Ka, cujo custo tem caído, mas que enfrenta desafios.

Rafael Guimarães, presidente da provedora de serviços de rede e comunicação via satélite Hughes do Brasil, disse que a comparação do ambiente regulatório do Brasil com o dos EUA e da Europa não é favorável. O processo para licenciar uma antena de banda Ka, explicou, é burocrático e se torna inviável para o volume esperado de instalações, problema que vem sendo discutido com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Problema maior, para ele, é o pagamento da Taxa de Fiscalização de Instalação (TFI, de R$ 200, paga uma vez) e da Taxa de Funcionamento (TFF, anual, de R$ 100). Como comparação, disse que a tecnologia LTF fixa paga 1/7 disso. Para ADSL, terminal do usuário não paga. A taxa não faz sentido para a atual tecnologia, disse. Como comparação, afirmou que nos EUA, o direito de instalar 1 milhão dessas antenas custa à Hughes US$ 5.000, como taxa única.

E, segundo Guimarães, também é alto no Brasil o peso de impostos.

A banda Ka, no patamar tecnológico de hoje, não consegue competir com o ADSL, afirmou. Do ponto de vista da inclusão digital, explicou, há população com renda e sem infraestrutura, e população sem renda em locais com infraestrutura. O foco da Hughes é o primeiro grupo. Cobre quase todas as capitais do Brasil, mas não vai tentar competir com operadoras de tecnologias mais baratas. Fica com zonas rurais e bordas urbanas.

Nascimento disse que com o envolvimento das operadoras, é esperado que se chegue ao número de 1 milhão de antenas. Citou cidades como Cruzeiro do Sul, no Acre, em que todo o provimento é feito por satélites, que têm problemas como a chuva, que afeta a transmissão. Operadoras de celular usam os satélites, e usuários sabem que perderão o sinal em caso de chuva. O mesmo vai acontecer com a Internet, mas é melhor ter mesmo com interrupções que não ter a conexão.

Eloi Stivalletti, diretor de vendas da European Telecommunications Satellite Organization (Eutelsat), disse em outro painel do workshop que a indústria de satélites se desenvolveu muito nos últimos anos. Tecnologia atual permite aumentar muito a capacidade de comunicação. Exemplificou com o satélite inaugurado recentemente, de alta capacidade e alta disponibilidade (com a Banda C). Banda Ku também tem diversas aplicações. Disse que os sistemas são dinâmicos e não sofrem mais tanto com a chuva.

Brasil “plano”

Paulo Eduardo Henriques Kapp, diretor técnico-operacional da Telebrás, citou o crescimento esperado no tráfego de redes no Brasil e disse que atualmente o país está em oitavo ou nono no consumo de banda no mundo. A velocidade é baixa, o que é oportunidade para quem vende banda, explicou. A Telebrás, afirmou, atua na infraestrutura para tornar o Brasil “plano”, tirando dos fornecedores a necessidade de levar a estrutura a qualquer lugar do território. Quer atender outras empresas que precisem de infraestrutura para chegar ao usuário final. Ser uma operadora de operadoras. Pretende continuar enxuta e não competir com a iniciativa privada.

Luiz Carlos Faray de Aquino, diretor de negócios TI B2B da Oi, citou “imensos investimentos” da empresa na rede de fibra. Cobertura chega a 77% da população brasileira, com solução terrestre robusta, afirmou. Ainda há 152 municípios de sua região de outorga sem a rede de transporte (não o last mile). Alternativa é banda C, menos suscetível que banda Ku e banda Ka. Para a Oi, a banda Ka traz solução de complementariedade. Considera imensa oportunidade para chegar à casa dos usuários em áreas urbanas remotas, nas quais não é viável a fibra ótica, e a rede metálica não chega com qualidade à casa do usuário. O Projeto Escolas, que atende 6.000 unidades, tem custo alto e velocidade restrita, e é algo que pode se beneficiar da nova tecnologia.

A banda larga fixa, disse Aquino, continua se reinventando, o que é desafio para o satélite, mas ele já tem custo competitivo. Soluções de baixa órbita já têm robustez suficiente, com latência reduzida e capacidade adequada. O grande tema, disse, é o novo perfil do usuário, que consome muito vídeo. Por isso, afirmou, o SCPC tem que se reinventar.

Janilson Bezerra Júnior, diretor de inovação e desenvolvimento de negócios da TIM, disse que infraestrutura tem que ser encarada como plano de Estado, pela extensão do território. Precisa de capilaridade, para não só atender ao usuário como também permitir competitividade no futuro – quando a conectividade vai ter que permitir agricultura de precisão, a inventividade do brasileiro, que a internet seja a ferramenta de transformação da sociedade. A Internet das Coisas (iot), explicou, precisa de muita conectividade e de baixa latência. A perspectiva do cliente passa pelo LTE (quarta geração de comunicação móvel). Vai ser acesso móvel. O 5G, disse, está aí, com a perspectiva de automação, de eficiência. “Vai ser a alavanca para nossa indústria.” Se a infraestrutura não estiver preparada para a iot, o Brasil vai ficar fora dessa indústria do futuro, afirmou. “Precisamos ter consciência dessa evolução tecnológica.”

Bezerra Júnior considera que chegar com fibra a todos os rincões do Brasil é complexo. Um problema dos satélites, disse, é que seus ciclos tecnológicos são muito mais longos que os das redes móveis. Só agora começam a chegar ao Brasil a banda Ka e a banda Ku, compatíveis com a quarta geração..

Erich Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecom (Abrint), citou dados da Teleco sobre os “dois brasis”, com a grande concentração de banda larga nos grandes centros. Área coberta, disse, caberia dentro do Estado de Sergipe. É fundamental, disse, pensar como o desenvolvimento social e econômico está ligado à penetração da banda larga. É desafio que precisa ser encarado de uma vez por todas, sem mudanças de planos. Em sua visão, parte vai ser suprida por banda larga, o resto por satélites – que vão ser fundamentais. Abrint mostrou que banda larga chegou a 54% do território. Pediu à Telebrás dados para complementar seu levantamento – acredita que com eles possa chegar a 56%.

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Painel de workshop na Fiesp que discutiu expansão da banda larga no Brasil com uso de satélites. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp