Brasil e Suécia debatem na Fiesp mecanismos de cooperação para o desenvolvimento sustentável

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O Estado de SP tem obrigatoriedade de reduzir 20% de suas emissões, em todos os setores, até 2020, tendo por ano-base 2005, segundo a Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC), a fim de atender ao Acordo do Clima. A lembrança desse compromisso foi trazida por Mario Hirose, diretor adjunto do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp (DMA), na abertura de evento, realizado no dia 28 de setembro, entre Brasil e Suécia para debater como acelerar o desenvolvimento sustentável, com foco na geração de bioenergia a partir de biogás, que pode ser obtido de resíduos orgânicos e lodo.

Em 2009, Brasil e Suécia assinaram parceria estratégica de apoio à criação de plataformas colaborativas para a troca de conhecimento e desenvolvimento de projetos conjuntos.

Nosso país tem muito a oferecer quando o tema é desenvolvimento de biocombustíveis avançados a partir do etanol. Por sua vez, a Suécia é case de crescimento sustentável por meio da combinação de diferentes métodos e do desenvolvimento de tecnologia inovadora de ponta. Economia circular. Resíduos tornam-se fonte adicional de receita financeira.

A economia circular traz benefícios a muitos setores da sociedade, como, por exemplo, ao setor de transportes, com o biogás e sua contribuição para a redução da emissão de gases de efeito estufa. Portanto, o objetivo deste encontro é detectar novas áreas nas quais os dois países possam estabelecer cooperação na indústria, no governo e na academia (tripla-hélice).

José Augusto Corrêa, diretor titular adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex), pontuou que os dois países têm muito a fazer em conjunto quando o tema é sustentabilidade, especialmente pela tecnologia, de um lado, e pelo fato de o Brasil ter grande incidência de sol em seu território.

Já Cecília Lif, conselheira da Suécia no País, frisou que esta é a sexta vez – VI Semana de Inovação Suécia-Brasil – que se realizam esses ciclos de debates, somando mais de 30 eventos em sete Estados brasileiros em uma parceria que se fortalece cada vez mais. Para ela, o desafio é como criar cidades sustentáveis, dando a devida atenção à agricultura e energia renováveis. “No setor de transporte, até 2030 deverá haver 70% de redução nas emissões”, pontuou. Lig explicou a importância da geração de biogás na Suécia, obtido a partir de plantas de saneamento, com foco na economia circular e na tripla hélice.

Dusan Raicevic, gerente da Vera Park Sustainable Hub, explicou que é possível obter biogás a partir de resíduos orgânicos e lodo, com o manejo correto. “Nosso projeto é apoiado por um conjunto de empresas de gestão de lixo e ONG representada por cientistas ambientais. Pensamos o lixo como recurso e lucro. E temos aproveitado os aterros e a incineração, considerando que o lixo é um conjunto de tudo, um material que está no lugar errado e deve ser reutilizado de modo ideal. Assim, recuperar o que der, minimizar e não gerar resíduo. No futuro, é preciso fazer as coisas de forma diferente”, explicou.

As empresas fazem a separação dos elementos e com o apoio do sistema de logística é possível impulsionar um negócio novo, que resulta em gás veicular, gás líquido, reciclagem de papéis, plásticos e madeira, que era muito usada para o aquecimento e isto foi resolvido, segundo Raicevic. O plástico era uma grande preocupação, pois ele impedia a fermentação de outros materiais a fim de obter o biogás. A solução compartilhada com universidades foi o desenvolvimento de material compostável em duas semanas que substituiu o plástico e vem de 85% de fonte renovável.

São retirados metais pesados, e cinzas de incineração passam a integrar rodovias. As madeiras recicladas são mais apropriadas do que as madeiras virgens para utilização em ambientes internos. Portanto, o que era problema virou recurso, informou o painelista Raicevic. Ele explicou que foi criado parque solar aberto ao público onde antes era aterro, e a energia produzida é deduzida do seu consumo. “O Vera Park é o único da Europa que conseguiu desenvolver a economia circular”, finalizou.

Encontro realizado na Fiesp entre especialistas da Suécia e do Brasil para discutir desenvolvimento sustentável. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

“É preciso tratar do ambiente regulatório no desenvolvimento do biogás”, alertou Marcelo Cupolo, gerente da Associação Brasileira de Biogás e Biometano, mas a legislação estabelecida desde 2012 auxiliou o setor. Segundo explicou, “o potencial brasileiro de biogás – 1,2 bi m3/ano – equivale a uma Itaipu, o que é muito relevante, e nem todos os países têm isto. Aqui, o Sol ajuda muito”. Transformado em biometano, poderia suprir 44% da necessidade de diesel que hoje é importado. Outro benefício apontado pelo expositor é o desenvolvimento da localidade, pois se exige mão de obra qualificada.

Quanto às emissões, Cupolo exemplificou que se o biometano fosse usado no lugar do diesel, alcançaríamos 17% da meta brasileira fixada na COP21 e, em termos de passivo ambiental, a pegada de carbono é negativa. “O biogás da vinhaça representa grande potencial para o País e é possível armazená-lo para atender maior ou menor demanda e contar com geração na base distribuída”, ilustrou.

Quanto à cogeração, o expositor explicou o aumento da eficiência do sistema, praticamente dobrando o desempenho com economia de combustível para produção da mesma carga elétrica e térmica: “teríamos 58% a menos de combustível em cogeração e 50% a menos de emissões”, disse. Os desafios elencados por ele quanto à cogeração: demanda térmica e elétrica simultânea; disponibilidade de rede de gás natural, operação e manutenção especializada e equipamentos disponíveis no mercado brasileiro. Mas é preciso corrigir a oscilação de preço do gás natural, que precisaria ser mais estável a longo prazo, pois hoje é indexado ao petróleo e ao dólar, e garantir o payback dos investidores.

Na avaliação de Cupolo, há grande potencial de produção de biogás e biometano no interior de São Paulo e demanda de consumo na capital, mas isto depende mais de regulação. A vantagem é que se trata de combustível limpo que pode substituir gradualmente os fósseis, reduzindo a emissão de GEE.

A acadêmica Semida Silveira (KTH; Royal Institute of Technology) abriu sua participação solicitando que se pense em um contexto maior para corrigir um erro sistêmico, entendendo resíduo como recurso, mas sem correr o risco de gerar cada vez mais resíduo porque ele é recurso. Deve-se aumentar a eficiência no uso de materiais e de energia, no contexto da economia circular.

“Hoje, há deposição de 1% a 2% dos resíduos de residências em função do marco regulatório de gestão de resíduos na Europa. Cada sueco produz meia tonelada por ano e queremos reduzir isto em 20%. A incineração ainda domina, mas a deposição em aterros sanitários foi proibida em 2005”, contextualizou. Silveira exemplificou que Estocolmo é uma cidade aquecida via incineração de resíduos, mas, por outro lado, o uso de energia é o mesmo desde os anos 1970 porque se aumentou a eficiência.

Como exemplo, ela citou que grande parte do biogás vem de estação de tratamento de água subterrânea que fica em uma ilha. Para não desperdiçar as coletas residenciais, que perdem a capacidade de gerar biogás se começam a fermentar, empresas desenvolveram saquinhos que abrigam os resíduos. Há coleta feita por caminhões e drive in gratuito para deposição de material reciclado.

“O biogás ganhou importância nos últimos 15 anos. Há uma parte significativa dos ônibus que se utilizam do biogás, uma das possibilidades da biomassa. Há uma política integrada, e até 2030 a frota de veículos deve estar livre de combustíveis fósseis”, explicou.

Já o professor Torleif Bramryd (Lund University) frisou que é preciso ter uma visão multidisciplinar sobre o tema. Pode-se aumentar a produção e corrigir problemas como o uso de celulose no processo de extração de biogás a partir de resíduos sólidos e a purificação do odor a partir de uma planta que não permita seu escape para a atmosfera. Diferentes processos precisam de tempos diferentes e abordagens igualmente diversificadas. O sequestro de carbono orgânico em aterros é positivo. “Há terminais de ônibus próximos a plantas de biogás”, completou, “controlando o ambiente anaeróbico podemos extrair nutrientes e reciclá-los, devolvê-los ao sistema”.

Para o professor Michael Johansson (Lund University), um dos grandes desafios é tornar o transporte público mais atraente do que o carro e um mercado igualmente promissor, pois em termos de combustíveis é possível escolher entre 50% ou 100% de biogás, sendo este um pouco mais caro, ou o uso do gás veicular, somatória do gás natural mais o biogás. “Hoje se utiliza mais o biogás do que o gás natural e também há maior oferta de postos de abastecimento, tornando-o um mercado positivo, inclusive em função das políticas locais cada vez mais sustentáveis. Há 50 modelos diferentes de carros que rodam com biogás e quase 20% da frota de ônibus roda com biogás ou gás natural”, pontuou, contextualizando com a necessidade de uma frota livre de energia fóssil e de emissão neutra até 2050.

“Queremos outra estrutura de cidade, o que inclui planejamento urbano, eficiência energética com combustíveis renováveis, ônibus sobre trilhos e uma cidade sem carros”, disse Johansson. Isto envolve visão, mudança de comportamento e entender produtos, como um carro, como serviço, por exemplo.

Antonio Celso de Abreu Junior, subsecretário de Energias Renováveis, afirmou que a maior emissão de gases de efeito estufa (GEE) ainda vem do transporte, e é preponderante o uso de diesel, mas por força de lei o biodiesel entra na composição do combustível na casa dos 8%. O preço determina qual combustível usar em um carro flex, por isto nem sempre o etanol tem a preferência, disse, reforçando que São Paulo produz cerca de 50% do etanol do país. Mas há uma discussão mais ampla sobre a pressão dos preços de energia, com reflexo do uso de térmicas, como está previsto a partir do ano que vem em função da escassez hídrica. “É preciso viabilizar a geração distribuída como a solar e criar políticas diante do fato de São Paulo ser exportador de gás natural”, explicou o subsecretário, citando o decreto n. 958659/2012, referente ao Programa Paulista de Biogás, e à deliberação Arsesp n. 744/2017 a respeito da distribuição de biometano na rede de gás canalizado em São Paulo.

Um exemplo bem-sucedido de cooperação Suécia-Brasil em transportes é o acordo técnico assinado em 2014 entre o Parque Tecnológico Binacional de Itaipu, em Foz do Iguaçu (Paraná), e a Scania, em que essa última doou ao parque um ônibus Scania Euro 6, 100% alimentado com biometano. Esse projeto visa estimular o uso de biometano como combustível veicular.

Silvio Munhoz, diretor da Scania, falou sobre o tema no encontro, com o “Going gas” – ônibus a biogás como uma alternativa para as cidades. Um ônibus movido a biometano já foi encarroçado e vai circular em São Paulo como exemplo de transporte sustentável.

Logística reversa e economia circular são debatidas na Fiesp

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O consumidor é um dos elos essenciais na logística reversa, com responsabilidade compartilhada, para que o produto, aparentemente sem utilidade após o fim do seu ciclo de vida, seja descartado de modo adequado sem danos ao meio ambiente, ou para que retorne a novo ciclo produtivo. A disposição correta de resíduos é um problema crucial para todas as cidades e especialmente os grandes centros urbanos.

Por isso, a Fiesp realizou, em 5 de abril, debate sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instrumento legal que estabelece o conjunto de ações destinadas a viabilizar a coleta e também a restituição dos produtos ao setor empresarial após o seu uso.

João Carlos Basile, diretor do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp (DMA), e à frente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIPHEC), disse que esse setor está bem envolvido com a logística reversa e tem programa efetivo há anos.

O que é, afinal, economia circular? Segundo Fabricio Soler (Felsberg Advogados), a economia circular consiste em ciclo de desenvolvimento positivo contínuo que preserva e aprimora o capital natural, otimiza a produção de recursos e minimiza riscos sistêmicos administrando estoques finitos e fluxos renováveis.

Soler chamou a atenção para a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos: conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos. A responsabilidade compartilhada encontra-se na Lei n. 12.305, a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

“Quando se fala em recolhimento do produto e destinação final é logística reversa (LR) e não há limites. Pela lei não são todos os produtos sujeitos à LR, mas quando se fala em economia circular, não há limite de produtos”, refletiu Soler.

São obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa, mediante retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de:

I – agrotóxicos, seus resíduos e embalagens – já possui regulamento;

II – pilhas e baterias – já possui regulamento;

III – pneus – já possui regulamento;

IV – óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens – já possui Acordo Setorial;

V – lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista – possui Acordo Setorial assinado em 2014;

VI – produtos eletroeletrônicos e seus componentes – Acordo setorial em negociação;

VII – Medicamentos – em negociação.

Os sistemas são implementados e operacionalizados por:

Acordos Setoriais;

Regulamentos expedidos pelo Poder Público; e

Termos de Compromisso.

Há previsão legal quanto à melhoria da embalagem, que deve ser fabricada com material que propicie sua reutilização ou  reciclagem. É responsável pelo atendimento dessa obrigação todo aquele que:

manufatura embalagens ou fornece materiais para a fabricação de embalagens;

coloca em circulação embalagens, materiais para a fabricação de embalagens ou produtos embalados, em qualquer fase da cadeia de comércio.

Soler explicou que toda lâmpada tem inclusos 41 centavos destinados à logística reversa. Quando importada, é necessário aderir ao sistema e obter um carimbo do Inmetro que confirma a concordância do fabricante ao sistema brasileiro.

Especificamente sobre a logística reversa das embalagens, contidas na fração seca dos resíduos sólidos urbanos ou equiparáveis, Soler detalhou a obrigatoriedade em relação ao papel e papelão, plástico, alumínio, aço, vidro e embalagem cartonada longa vida.

A fase 1 de implantação do Sistema de logística reversa irá se encerrar em novembro de 2017 e envolverá 438 cooperativas e 645 PEVs. O objetivo central é melhorar a estrutura das cooperativas e basicamente implantar pontos de entrega voluntários. A fase 2 deverá ser definida a partir de ensinamentos, desafios, obstáculos e resultados da fase 1.

Entre as metas, viabilizar o retorno de 3.815 toneladas/dia. Isso envolverá a criação de um sistema estruturante e promover a redução de, no mínimo, 22% das embalagens dispostas em aterro até 2018.

O secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Gilberto Natalini, que participou do evento, frisou que é preciso mudar a maneira como se produz e se consome. Pelo inventário de emissão de gases de efeito estufa (GEE) do município, a descarga de frotas – caminhões, ônibus e veículos – lidera. Em segundo lugar, o lixo.

“Em São Paulo, não temos lixões, temos dois aterros. Um deles está desativado, o Bandeirantes. O outro, o São João, em Sapopemba, tem vida útil de dez anos. Há outro alugado, em Caieiras. E temos um prazo para resolver isto, a destinação do que se produz e se consome”, enfatizou, lembrando a produção de 17 mil toneladas/dia de resíduos. “Esses dois aterros têm usinas elétricas, de queima de gás metano, o que diminui o impacto de GEE e ainda abastece 600 mil pessoas”, concluiu, afirmando que São Paulo faz uma separação de lixo ainda “pequena”.

Debate na Fiesp sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Logística reversa na prática

Na continuidade do encontro, Daniela Lerário (TriCiclos) tratou de gestão de recursos, pontos limpos e PEVS. A TriCiclos é uma Empresa B Certificada que busca compreender e solucionar as questões ligadas ao comportamento de consumo e gestão dos resíduos por meio da aplicação dos conceitos de economia circular. “Queremos demonstrar o impacto ambiental de cidadãos, empresa e poder público na comunidade e ajudar a construir um caminho para o consumo mais responsável. Se designers pensarem melhor, não haverá lixo”, afirmou.

A empresa, que tem base no Chile, está atuando no Brasil há dois anos e meio. Mas, o que é empresa B? Uma empresa que tem compromisso real com o triple bottom line (tripé econômico, social e ambiental), em seu estatuto, e que é certificada. No total, já são 2.200 empresas certificadas. No Brasil, são quatro.

Lerário lembrou que são produzidas 17 mil toneladas/dia de resíduos em São Paulo, o que significa 1,1 quilo/dia por pessoa. Nesse contexto, é preciso tentar circular produtos, processos, informações e oportunidades com os resíduos. A TriCiclos foi a única empresa sul-americana parceira na elaboração do relatório The News Plastic Economy, estratégia de transição para a nova economia para os plásticos, lançada em janeiro no World Economic Forum – WEF, em Davos. “Em 2050 haverá uma tonelada de peixes para uma de plástico, hoje essa proporção está em 4 para 1”, alertou a expositora.

Na gestão de PEVs, o olhar é de rastreabilidade em função do trabalho com cooperativas de catadores como prestadores de serviço, tendo como foco sua formalização e o empoderamento da mulher, maioria nas cooperativas. O saldo é de parceria com 60 cooperativas e uma rede que envolve mais de 120, somando mais de mil cooperados. Com 167 pontos em operação em 14 Estados brasileiros, tem impacto em mais de 1,7 milhão de pessoas.

“Com o conhecimento obtido nos PEVS, é possível conversar com importadores, fabricantes e indústria sobre design. Por exemplo, uma cor pode inviabilizar a reciclagem”, disse, explicando que o objetivo da economia circular aplicada é reinserir esses materiais em cadeias já existentes. Com a instalação de PEVs de 5 e 20 bocas, há não somente uma pré-triagem, mas uma pessoa no local para orientações. No ponto, há prensa e balança, ou seja, o material sai de lá já separado (plástico transparente e colorido) e enfardado, segundo detalhou Daniela Lerário, da TriCiclos.

A geração total de resíduos sólidos urbanos, no Brasil, chegou a 79,9 milhões de toneladas, em 2015, e foram coletados 72,5 milhões de toneladas. A geração total de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos, em 2014, foi de aproximadamente 1,4 milhão de tonelada, de acordo com números apresentados por Ronaldo Stabile, da Recicladora Urbana, neste debate. Menos de 3% são reciclados, nesse balanço, geração per capita de 7 quilos habitante/ano de resíduo eletroeletrônico, com impacto ambiental, social e de saúde pública. “E isso vem se acumulando ano a ano”, disse.

E há riscos com o descarte indevido. “Quando o celular ou o notebook estão íntegros, não há risco, mas quando o descarte é irregular, torna-se altamente nocivo pelo fato de a pessoa não saber manipular esses materiais”, alertou. De cada tonelada que entra na empresa, 30% são aproveitados, 25% para transformação em equipamento de reúso e o restante, 100% de matéria-prima, explicou o palestrante.

Para encerrar, Stabile alertou para o desmonte de aparelhos de TV com tubo – em função do desligamento do sinal analógico. É preciso descarte correto, pois o tubo, altamente poluente, contém no tubo pó fosfórico, que é cancerígeno.

Outro exemplo apresentado vem da Tetrapak. Sua representante, no evento, Juliana Seidel, lembra que no DNA da empresa sueca está a disponibilidade de alimentos de forma segura. A embalagem cartonada atende ao ciclo de vida até o consumo final para depois ser reincorporada no processo produtivo como matéria-prima. A embalagem, composta por até 75% de recursos naturais renováveis – papel, polietileno de cana-de-açúcar, mais alumínio – está em consonância com a economia circular e reduz a pegada de carbono.

Economia circular e desafios para o setor empresarial

Para Luísa Santiago, da Fundação Ellen MacArthur, há uma combinação de riscos e oportunidades para o desenvolvimento socioeconômico com impacto nos sistemas vivos, e é preciso evitar perdas expressivas. “Gerar nova forma de economia. A gente joga dinheiro fora. No setor de bens de consumo não-duráveis, representando valor de 3,2 trilhões de euros, 84% dos materiais que entram no sistema linear são jogados ou incinerados anualmente na Europa. Ou seja, 2,7 trilhões de euros perdidos como resíduos em aterros, em função de falhas no sistema linear”, exemplificou.

Em termos de mobilidade, 92% do tempo os veículos estão parados e, quando andam, rodam com uma pessoa e meia dentro, quando poderiam ter cinco. Há ainda os custos de acidentes, mortes, impactos na saúde, no mercado de trabalho, prejuízos emocionais, segundo apontou.

Em função da crescente urbanização, faz-se necessária a aceitação de novos modelos de negócios inovadores com o suporte dos avanços tecnológicos. A economia circular elimina a noção de resíduo desde o seu início. Santiago frisou que 30% dos resíduos, nos aterros europeus, são de demolição, da construção civil e suas perdas. No Brasil, esse índice chega a 50%.

Outro exemplo, “os escritórios estão desocupados 40% a 50% do tempo no horário de trabalho. Há mais casas vazias do que desabrigados na Europa, tem algo errado nessa conta. E ainda 100 milhões de toneladas de alimentos são perdidos, na Europa, anualmente; 50% dos alimentos que rodam as cadeias globais produtivas se perdem por ineficiência nos processos; 97% desses resíduos globais são, na verdade, nutrientes que poderiam recompor o capital natural, mas vão para os aterros, representando US$ 300 bilhões de dólares e geram externalidade negativa com a emissão de metano e a degradação do solo.

Em sua avaliação, há muitas perdas estruturais. Até 2030, segundo o Banco Mundial, 3 bilhões de pessoas passarão a ter padrões de consumo de classe média e haverá, portanto, muita pressão sobre os recursos naturais.

Para encerrar, Luísa Santiago apresentou cases: da Philips vendendo luz como serviço; Renault com a remanufatura nos automotivos; Nat. Genius com a manufatura reversa de bens de linha branca.

A última participação foi de Flávio Ribeiro, da Cetesb, que tratou do respeito dos termos de compromisso da logística reversa: hoje há 14 em andamento, 7 já renovados e vários em negociação. Ele lembrou que existem três cadeias produtivas enormes em São Paulo – cana, laranja e boi – e predisposição à circularidade, pois é raro esses resíduos seguirem para aterros. “A cana-de-açúcar responde por 25% da energia consumida pelo Estado – em forma de gás natural, gasolina, diesel etc. –  e ocupa 12% da extensão territorial com o seu plantio”, afirmou.

Portanto, a “logística reversa é aspecto fundamental de transição para a economia circular. É preciso considerar o papel dos fluxos materiais no sistema de economia circular; os estímulos da responsabilidade estendida ao produto; criação de ambiente regulatório; e criação de oportunidade de negócios”, pontos destacados pelo expositor.

Ribeiro criticou a destinação: quando muito, há gerenciamento, apesar dos planos municipais de resíduos, que somam mais de 400 no Estado. “Mas e a redução? E a reciclagem?”, questionou. E chamou à responsabilidade das prefeituras porque elas respondem pelo resíduo.

Há preocupação também quanto ao acesso à segurança de fornecimento de materiais. No eletroeletrônico, 90% das reservas mundiais de alguns dos componentes imprescindíveis estão na China. “O risco ao negócio se ela virar e falar ‘não vendo mais’… Para mim, esse é um dos motivadores da economia circular na Europa, o acesso à matéria-prima”, avaliou.

No Brasil, os resíduos têm o pior destino possível, o aterro, segundo Ribeiro. Em 2015, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), “20% do que se gera não se coleta, e do que se coleta só 58% seguem para aterros e nem sempre dos melhores. Um desperdício.  Mais de 1/3 das prefeituras não tem nenhum tipo de coleta seletiva. Os resíduos sólidos urbanos não podem ser esquecidos na economia circular”, enfatizou, e criticou o fato de haver incidência tributária sobre resíduos.

Quem paga a conta da logística reversa?, questionou o expositor. Para ele, é preciso aumentar a eficiência no uso de recursos e no ecodesign. Em São Paulo, cerca de R$ 20 bilhões por ano são destinados a programas de contratação de compras públicas sustentáveis, que abrangem merenda escolar, duplicação de rodovias, o papel que o governo usa em seu gabinete. “Há decreto nesse sentido desde a Rio+20, até 2020 há obrigação de que 20% das compras totais sejam adquiridas com critérios sustentáveis. Hoje esse índice encontra-se em 8%”, afirmou.

Para finalizar, Ribeiro alertou que será aberta a consulta pública para revisão de Política Estadual de Resíduos Sólidos, uma oportunidade para discutir mudanças legislativas que contemplem a economia circular.