No Teatro do Sesi-SP, palavras viram ‘luz’ em apresentação para pessoas com deficiência

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Sábado, cinco de abril, quatro da tarde. Quando as luzes se apagam e o ator Edgar Bustamante entra no palco para encarnar o Homem da Poltrona, protagonista do espetáculo “A Madrinha Embriagada”, 90 pessoas da plateia ficam bem atentas às palavras que saem de seus fones de ouvido.

Plateia se encantam com a audiodescrição do espetáculo no Teatro do Sesi. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Tal qual tradução simultânea, esse grupo – parte dos mais de 450 espectadores que lotam o Teatro do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) – escuta a narração de Livia Motta.

Da voz da especialista brotam informações, em tempo real, sobre tudo o que acontece no palco: os gestos dos atores, suas roupas, de que modo eles se movimentam, as mudanças de cenário e muito mais.

Livia Motta fazendo a narração do espetáculo. Foto: Helcio Nagamine/FIESP

Esse serviço é chamado de audiodescrição, recurso de acessibilidade que aumenta o entendimento de pessoas com deficiência visual em espetáculos e produtos audiovisuais.

“É um recurso muito importante para que eles tenham uma dimensão completa do espetáculo. Um musical é uma obra grandiosa, que tem cenário, figurino, tudo com uma riqueza muito grande de detalhes. E se não for a audiodescrição, eles vão perder tudo isso”, comenta Livia, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Livia trabalha nessa atividade desde 2005. E a cada espetáculo se sente realizada de poder prestar esse serviço. “Para nós é a melhor parte ver as pessoas com deficiência visual rindo [das piadas das peças] e se emocionando junto com as outras pessoas.”

A iniciativa de agregar a audiodescrição em peças no Teatro do Sesi-SP é resultado de uma parceria entre a instituição e a Associação Amigos Pra Valer, fundada e coordenada por José Vicente de Paula, de 57 anos.

“A gente adora cultura. Vamos mostrando com isso que somos pessoas normais. A gente vibra com tudo”, assinala Vicente.

“Sem audiodescrição eu vou aproveitar 60%, que é o texto. Só que a gente perde todo o movimento de palco, os figurinos, o movimento de entra e sai, a troca de roupa. A audiodescrição é uma ilustração, completa os 100%”, explica.

Renato Leal, outro espectador com deficiência visual, detalha os momentos em que essa facilidade tornou melhor sua compreensão do espetáculo: “Quando eles entraram no avião; quando a Jane ficou na cama, que foi embutida; quando o Aldolpho pensou que estava fazendo amor com a noiva, mas estava fazendo amor com a madrinha da noiva. E outros mais.”

Mesmo tendo acompanhado outros musicais, a analista de gestão de pessoas Roseli Garcia, 41 anos, ficou encantada com  apresentação de “A Madrinha Embriagada” encenada no primeiro sábado de abril (05/04).

“As palavras bem entonadas são como luz. Ganham sentido naquele momento. É uma forma de poder assistir ao espetáculo e poder me incluir diante de todo o público”, resume Roseli.

O ator Edgar Bustamante guarda elogios para a experiência de apresentar-se para esse público. “Muito gostoso, muito tocante, perceber a reação deles, no final, todo mundo chorando.”

Segundo ele, o espetáculo com direção de Miguel Falabella mostra sua capacidade de arrebatar qualquer público. “Não tem diferença nenhuma. A gente tem que estar sempre pronto para agregar todo tipo de público, sem preconceito, sem qualquer tipo de discriminação. A gente fazendo com verdade, vontade e alegria certamente vai tocar todo mundo que estiver por perto.”

Depoimentos

Mario Luis Brancia, de 52 anos, agente de gestão – “É mais uma experiência de verdade da cultura inclusiva, em que todas as pessoas vão estar juntas e depois poder comentar. Por mais que a peça seja musical, a gente precisa dos detalhes, os gestos que ocorrem durante o espetáculo, como as pessoas estão vestidas, o movimento da dança. É um espetáculo de muita música e se a gente só ouvir, vai apreciar? Vai, mas fica pela metade. Fica incompleto. O recurso da audio descrição veio para verdadeiramente completar.”

Marilene Rodrigues de Paula, professora aposentada – “Estão incluindo a gente de igual para igual. A gente assistiu da mesma maneira, aproveitou da mesma maneira que eles aproveitaram. Foi sensacional. O Sesi-SP está de parabéns.”

Francisco Salvino Carvalho dos Santos, 16 anos, estudante – “Com a audiodescrição, a gente tem bastante noção do que está acontecendo.”

Roseli Garcia, 41 anos, analista de gestão de pessoas – “O espetáculo me deu muita alegria. O espetáculo é muito inteligente e muito alegre. É um espetáculo que não te cansa. O Sesi-SP tem muita iniciativa valiosa, tem muito valor. Leva as pessoas a assistir aquilo que não podem assistir.”

José Vicente, 57 anos, fundador e coordenador da associação Amigos Pra Valer – “O Sesi-SP, para mim, é um parceiro. É muito bom aqui por ser muito acessível, ao lado do metrô.”