Sim, nós podemos (01/07/2014)

Não sabemos se o Brasil vai ganhar a Copa do Mundo. Torcemos por isso, mas há outras excelentes seleções de vários países e o futebol sempre pode apresentar surpresas. É importante, porém, observar que até agora -três batidinhas na madeira- a Copa é, de fato, um sucesso, com grande repercussão internacional pela qualidade do futebol e também pela organização da competição e amabilidade do povo anfitrião.

Os estádios, alguns muito caros e talvez fadados a se tornarem elefantes brancos, ficaram prontos e muito bonitos, passando uma imagem de modernidade do país. Não houve o temido caos nos aeroportos e os acessos aos locais de jogos funcionam razoavelmente, mesmo com inúmeros atrasos ou cancelamentos de obras de mobilidade urbana nas várias cidades-sede do evento.

O Brasil deveria aproveitar esse efeito Copa para abandonar de vez o complexo de inferioridade que nos persegue há décadas. Assim como consegue realizar com méritos uma emocionante Copa do Mundo, o maior evento do planeta, pode também ser uma economia competitiva e disputar de igual para igual um posto relevante no cenário mundial.

Abandonar o complexo de inferioridade implica admitir que o país, com todos os seus defeitos, pode adotar práticas semelhantes às de outros países, sem tentar reinventar a roda. Significa, por exemplo, deixar essa história de ser sempre o pior em matéria de juros extorsivos, sob o duvidoso argumento de que aqui as coisas são diferentes e precisamos impor taxas inacreditavelmente elevadas, que emperram a economia, desestimulam os investimentos produtivos e, na prática, nem sempre colaboram para frear a inflação.

Na semana passada, mais um país emergente, a Turquia, que tem sido parceira do Brasil em matéria de juros elevados, reduziu a sua taxa básica anual de 9,50% para 8,75%, seguindo a tendência internacional nessa matéria. Na Europa e nos Estados Unidos, os juros caíram seguidamente nos últimos anos e hoje estão próximos de zero. Aqui andamos na direção contrária com a taxa básica. O custo do crédito ao consumidor aumenta há 12 meses, sem interrupção de tendência.

Sim, nós podemos ser um país como outros, financeiramente civilizado, que controla os gastos públicos correntes, privilegia investimentos do governo e oferece crédito ao setor produtivo e às pessoas físicas sem cobrar taxas escorchantes de juros.

Abandonar o complexo de inferioridade significa acreditar que podemos ter um parque industrial tão eficiente e produtivo como o de outros países industrializados. Além de ambicionar ter um custo do dinheiro semelhante ao dos demais emergentes, temos de trabalhar para cortar custos de energia, insumo importantíssimo para a produção industrial competitiva, reduzir tributação, simplificar a arrecadação dos impostos e eliminar burocracias desnecessárias.

O objetivo de uma política econômica é, basicamente, promover crescimento para criar renda e empregos. Fizemos grandes avanços nessa matéria nos últimos anos e, a despeito do esfriamento econômico, ainda há um crescimento das vagas de trabalho, embora em índices cada vez menores. Em maio, por exemplo, foram criados 58,8 mil empregos no país, o pior desempenho desde 1992 para este mês. Na indústria, o saldo foi negativo: 28 mil vagas fechadas.

Só a indústria paulista dispensou 12,5 mil empregados no mês passado.

Sim, nós podemos ter um sistema educacional de primeiro mundo, um atendimento público muito melhor na área da saúde e um combate mais eficaz à criminalidade e à corrupção que atinge os vários setores da sociedade. Não vale o argumento de que faltam recursos para isso. Falta um trabalho conjunto dos três níveis de governo, que não se deixe contaminar por viés político ou partidário e que paute a sua atuação tendo sempre em vista o que é melhor para a população.

Certamente não será possível atacar todos os problemas do país de uma só vez e a curtíssimo prazo, mas é preciso começar em algum momento. Quem sabe o ganho de autoestima proporcionado pela Copa do Mundo possa nos ajudar. O complexo de inferioridade é um veneno paralisante para qualquer país, cuja construção exige sempre uma certa dose de orgulho nacional.

Benjamin Steinbruch é empresário, diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração e 1º vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Escreve às terças, a cada duas semanas.