Infraestrutura é o fundamento do crescimento econômico, aponta diretora da U.S. Chamber

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Janete Kavinoky. Foto: Everton Amaro/Fiesp

A qualidade e o desempenho do transporte de um país estão diretamente conectados ao crescimento econômico e ao investimento estrangeiro. Porém, é fundamental que seja feito de forma planejada e eficiente, de acordo com os quatro especialistas que participaram do painel “Infraestrutura e competitividade da economia”, realizado nesta segunda-feira (06/05) no 8º Encontro de Logística e Transporte da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A diretora executiva de transportes da U.S. Chamber of Commerce [Câmara de Comércio dos Estados Unidos], Janet Kavinoky, defendeu que a infraestrutura é o fundamento do crescimento econômico. Para mostrar essa importância, a organização criou um índice de desempenho que mede o que o sistema de transportes faz pela economia com base em dados estatísticos e de qualidade.

Com isso, a U. S. Chambers constatou que para cada ponto a mais no índice de desempenho de transporte, o Produto Interno Bruto (PIB) aumenta 0,3%. No entanto, o índice não mede apenas o volume de investimento, mas também a forma como o dinheiro é aplicado.

De acordo com Kavinoky, os Estados Unidos têm feito investimentos em infraestrutura, mas não em pontos fundamentais. “O foco deve estar na capacitação para o futuro e em melhoria do tráfego urbano, reforma e adequação de pontes e hidrovias e na concentração no acesso de frete intermodal.”

Para a executiva, é preciso mudar o modo como os países encaram o transporte. “No caso do Brasil, que concorre com os Estados Unidos na exportação em vários produtos, se houvesse investimento em recursos hidroviários, por exemplo, o país teria vantagem nessas commodities.”

BID

Mauricio Mesquita. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Também destacando a necessidade do investimento estratégico, o economista Maurício Mesquita, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), apresentou um estudo sobre os custos de transporte e as disparidades regionais das exportações na América Latina. No caso específico do Brasil, o estudo mostra que 0,2% do território brasileiro responde por 46% das exportações brasileiras e há uma correlação inversa no que diz respeito a valores: o custo do transporte é maior nas regiões que menos exportam.

Por meio de simulações, foi possível mensurar que cada 1% a menos no custo de transporte, aumentaria, por exemplo, 5,4% das exportações em agricultura e 3,5% em produtos manufaturados. Além disso, a redução do custo também aumentaria o número de produtos exportados. “Isso mostra que o maior obstáculo ao aumento da exportação e a diversificação de produtos exportados é a questão do transporte”, reforçou Mesquita.

IPEA

Carlos Campos Neto. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Na sequência do painel, o especialista de infraestrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Carlos Campos Neto, comparou a infraestrutura brasileira com relação aos outros países emergentes. Enquanto o Brasil cresce, mas mantém o investimento em 0,6% do PIB, países como Índia e Rússia investem uma média de 3,4% do PIB, mostrou Campos Neto.

“Crescemos, mas estamos longe de algo que seja razoável na nossa infraestrutura”, lamentou o representante do IPEA.

Ele aproveitou para destacar a importância dos investimentos privados e afirmar que o principal problema da infraestrutura não é a falta de recursos e de financiamento. “As razões para que os projetos não sigam adiante são outros: ajustes constantes nos marcos regulatórios, legislação complexa e recursos interpostos, projetos e contratos mal elaborados que elevam os custos, interveniência do TCU [Tribunal de Contas da União], necessidades de licenças ambientais e dificuldades nas desapropriações. O problema é de gerenciamento e gestão.”

Representante da PUC-SP

Antonio Correa Lacerda. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Segundo o economista da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Antônio Correa de Lacerda, o salto da competitividade brasileira depende da melhoria em infraestrutura. “Somos a sexta maior economia do mundo, mas, se considerarmos mercados específicos, estamos em posições até melhores. Estamos em quarto no mercado automobilístico, terceiro ou quarto em informática e estamos atingindo o primeiro lugar em cosméticos. Estamos evoluindo, mas ainda estamos longe de outros mercados na questão da infraestrutura.”

Lacerda também destacou a necessidade de buscar outras fontes além do financiamento público. “A redução da taxa dos juros ajuda, mas é preciso criar um mercado secundário de títulos, que possa viabilizar esse financiamento de forma mais rápida.”

Para o economista da PUC-SP, é preciso tornar a agenda da infraestrutura uma prioridade no Brasil. “A superação de todas essas questões é que pode garantir ao Brasil não apenas romper o gargalo que representa a infraestrutura, mas utilizar o crescimento do investimento na melhora da competitividade da economia, na geração de maior renda, empregos melhores e, sobretudo, superar os obstáculos para o desenvolvimento do Brasil.”

 

‘Brasil não pode viver de importações’, diz economista da PUC-SP em painel do VII Congresso da MPI

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Economias como a da Coreia do Sul, China e Índia apresentam uma participação industrial em seu Produto Interno Bruto (PIB) duas vezes maior que a participação da indústria no crescimento econômico brasileiro. E o maior desafio do setor produtivo brasileiro é aumentar a capacidade de geração local.

Antonio Carlos de Lacerda, economista da PUC-SP: "Brasil não pode viver de importações"

A avaliação é do economista Antonio Correa de Lacerda ao abrir nesta quarta-feira (10/10), no hotel Renaissance, o VII Congresso da Micro, Pequena e Média Indústria (MPI), uma realização da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp).

“Nós temos de garantir uma maior expansão da nossa capacidade de geração local. É isso que pode garantir ao Brasil uma maior autonomia porque esse quadro é insustentável no longo prazo e o Brasil não pode viver de importações”, afirmou Lacerda, professor-doutor do departamento de Economia e do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política, da PUC-SP.

“O ano de 2012 está realmente muito prejudicado por um baixo crescimento decorrente não só por conta do cenário internacional adverso, mas também por problemas internos. Tivemos uma série de problemas localizados que têm restringido o nosso crescimento em mais de 1,5% este ano, em função do primeiro trimestre, mas esse quadro vem se alterando aos poucos”, afirmou Antonio Correa de Lacerda, acrescentando que a produção brasileira está estagnada há praticamente quatro anos.

“O nível da produção industrial de hoje é muito semelhante aquele de 2008 antes da crise”, completou.

Consumo

Lacerda também avalia que o grande trunfo da economia brasileira atualmente é o consumo aquecido.  “Nosso desafio é fazer com que essa curva do consumo seja abastecida pela indústria. Houve um descolamento muito forte no Brasil entre o crescimento do consumo, que continua muito forte, e o crescimento da produção industrial, que estagnou porque as condições de competitividade estão mais difíceis.”

O economista estima uma participação de 15% da indústria brasileira no PIB, cifra que já foi o dobro anos atrás. Para Lacerda, o setor produtivo brasileiro ainda enfrenta problemas com carga tributária, custo elevado da logística e burocracia complexa.

Ele avalia que outro importante desafio para a economia brasileira é manter o câmbio competitivo. “É necessário todos os instrumentos possíveis para manter esse câmbio em R$2”, concluiu.

O congresso

O VII Congresso da Micro e Pequena Indústria acontece ao longo desta terça (10/10) no hotel Renaissance, em São Paulo.

O congresso anual – realizado sempre em outubro, mês da micro e pequena indústria – é dirigido a empresários de diversos segmentos, com o objetivo de apresentar estratégias e perspectivas para o setor, além de proporcionar um espaço para networking e troca de experiências entre profissionais.

A programação desta sétima edição é composta por quatro painéis com debates e palestras sobre temas como gestão de pessoas, inovação, crédito, empreendedorismo, marketing e vendas digitais.

Acompanhe a transmissão online.