Entrevista: Toninho Mendes, organizador do livro ‘Humor Paulistano’

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp 

Toninho Mendes, o organizador do livro Humor Paulistano. Foto: Beto Moussali/Fiesp

Com ele não poderia ser diferente. Para falar do livro “Humor Paulistano – A Experiência da Circo Editorial 1984 – 1995”, lançado pela Sesi-SP Editora no último sábado (26/04), a entrevista teve que ser feita pessoalmente, olho no olho, em vez de usar recursos como e-mail ou telefone.

Toninho Mendes ainda mostra a inquietação do jovem que fundou a legendária Circo Editorial na primeira metade da década de 1980.

Com a Circo Editorial, ele reuniu um time de chargistas e ilustradores de primeira grandeza, como Alcy, Angeli, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Glauco, Laerte e Luis Gê. Juntos,moldaram a cara do humor paulistano e, mais do que isso, influenciaram a sociedade brasileira num momento de transição, de um país que se mobilizava pelo fim da ditadura.

Do alto de seus 60 anos de idade, o “pequeno grande homem” de cabelos grisalhos costuma se expressar de forma visual, sempre com muito humor. Em meia hora de conversa, ele mostra que sabe rir de si mesmo e que ainda é capaz de se emocionar e soltar uma piada, um gracejo. Na hora da foto, propõe uma pose irreverente. Afinal, a vida, segundo ele, tem que ter graça e humor, transgredir e ser diferente.

Leia a seguir os principais momentos desse bate-papo com Toninho Mendes:


Um circo para ruptura

“A editora Circo é um produto de um momento específico e importante da história do Brasil. A ditadura não se sustentava mais. O movimento das Diretas foi para as ruas e, literalmente, foi rompendo lacres, amarras, teorias, convicções. E a Circo só poderia nascer nesse momento”.

O autor e a obra. Foto: Beto Moussali/Fiesp

“As revistas da Circo – como a Chiclete com Banana (do Angeli), Geraldão (do Glauco), Piratas do Tietê (do Laerte) – foram as primeiras que testaram a abertura pra valer. Colocou o Bob Cuspe para Prefeito, uma mulher louca que dá pra um time de futebol, um casal que é libertário mas vive brigando”.

“A Circo representou esse momento de ruptura. O engraçado é que sempre fomos imprensa independente. E esse material, do jeito que a Circo fez, acabou sendo mais importante que o material da grande imprensa. Pois quando a imprensa foi falar, as coisas já estavam andando e a gente já tinha detonado tudo”.

“Laerte, Angeli, Glauco, Luis Gê, mais o Paulo Caruso e o Alcy eram um time muito forte. Nesse momento, a carreira deles estava se consolidando. Esse foi o truque da Circo: colocar as histórias deles em bancas de jornais de todo Brasil. Porque no jornal eles faziam ou tirinha ou charge política. E quando criei a Circo Editorial, eles podiam fazer quadrinhos e não tinha nenhum tipo restrição. A nossa linha era humor e vale-tudo. Com uma vantagem, nós éramos antes do ‘politicamente correto’”.

Questionando o próprio humor

Acho que não existe esse tal de ‘humor politicamente correto’. Para mim, existe humor. E outra coisa que acho discutível: o que é correto? A soma das dessas duas coisas não tem significado nenhum. Humor é uma palavra híbrida”.

“A gente tinha uma coisa mais séria do que frescura. Porque todo mundo foi criado nos tempos da ditadura. Então, o desenho era censurado, não saía, não era publicado. E esses artistas da Circo foram testando essa barreira”.

“Na Circo, o conteúdo é muito forte. Hoje, o pessoal do humor está voltado para o próprio umbigo. As piadas são engraçadas só pra eles e para a namorada deles e o pessoal do prédio. Isso aqui atinge todo mundo. Não é voltado para o próprio umbigo. Você fala de você, mas você reflete o mundo”.

Prazer de transgredir

“A gente não fazia para provocar, mas porque era engraçado. Você imagina há 30 anos um moleque ver na banca um cara espiando na fechadura e dizer ‘Amar é ver a mãe tomar banho’. Se hoje, as pessoas dizem: ‘Nossa!’, você imagina isso há 30 anos. Na realidade, nós, eu e todos esses desenhistas e chargistas, tivemos uma formação como homem muito libertária, pra frente, com as mente abertas, pulando os muros”.

“Naquela época [início dos anos 1980] todo mundo estava voltado para a política. Mesmos esses artistas tinham tudo isso na cabeça, mas não tinham onde publicar. Essa foi a chave da Circo. Imagina você pegar uma revista como a ‘Chiclete com Banana’ e falar: ‘Angeli, vamos fazer o que quiser’”.

Edição da Revsita Circo. Foto: Reprodução

“Nenhuma publicação da Circo teve posição política nenhuma vez. Nós somos anarquistas ou transgressores pela própria índole. Não era uma revista para falar bem dos comunistas, esquerdistas ou de Che Guevara.”

Falar mal de si mesmo

“A gente incomodou muito. O Angeli tinha personagem que falava muito mal do rock. E aí o pessoal falava: ‘Pô, tá falando mal do rock’. Aí o outro falava: ‘Pô, tá falando mal dos comunistas’. E eu dizia: ‘Onde vocês estão com a cabeça? Isso aqui é uma revista de humor, pô’.”

“Nós estávamos falando de nós mesmos. Numa linha em que um autor que se autoironiza em vários momentos da revista, por que ele vai respeitar outras coisas?”


Genialidade dos artistas e dos personagens

No cartoon "Swing", Glauco e Angeli se autoironizam. Foto: Reprodução

“Imagina um cronista do porte do Angeli: hoje, ele é um cronista e tem 30 personagens com a mesma importância de personagens do Jô Soares e do Chico Anísio. A Rê Bordosa todo mundo sabe quem é, mesmo quem nunca ouviu falar. E também o Bob Cuspe. E o Casal Neuras, do Glauco, então… Aliás, a expressão ‘Ricardão’, por exemplo, foi criada na Circo. Era uma piada do Glauco. Depois é que os publicitários pegaram.

“Para entender melhor o tamanho dessa loucura olha esse cartum que saiu na Chiclete com Banana. É uma obra prima! O quanto essa piada é grossa, escrota e maravilhosa! Aqui é o Angeli com a mulher dele e o Glauco com a mulher dele, fazendo suingue. E aí começa aquele papo ‘Vai pintar o trauma…’. E isso é o que realmente acontece. Agora vê no final da piada qual é o Trauma. Isso é uma esculhambação com o autor, com a mulher do autor e com o próprio papo de querer ser livre ou não. Esse cartum é um clássico. Esse tipo de coisa tem aos quilos na revista”. 

Amizade com Angeli

“Eu e o Angeli somos amigos de infância. Quando nos conhecemos eu tinha 12 anos e ele tinha 10. Se bem que nós dois temos teorias diferentes de como nos conhecemos. Para mim, o meu irmão Levi me apresentou o Dinho (que é o Angeli). Mas, para o Angeli, nos conhecemos na feira de gibi do Manelão. E tinha esses gibis . Mas penso que as duas versões são compatíveis”

“Quando a gente foi fazer a Circo eu estava perto de 30 anos e o Angeli com 28. Sempre tivemos uma relação muito boa. O Angeli começou a carreira de cartunista e eu sempre fui criado na imprensa independente. O Angeli começou com 14 anos, participou do Festival de Humor de Piracicaba, e foi contratado pela  Folha [de S. Paulo] aos 17 anos de idade”.

Eterno transgressor

“Fiz os jornais independentes ‘Versus’ e ‘Movimento’. Há uma palavra que é diferente de anarquista, que é transgressor. Nasci para transgredir. O preço que paguei foi caro, bem caro. Mas passei a minha vida inteira transgredindo. E esses artistas todos eu conheci nessa rota.

“E por aqui você pode entender a pessoa que sou. Esta é a 3ª edição do livro ‘Confissões para o Tietê’, que estamos encartando junto com o livro ‘Humor Paulistano’. Eu escrevi esse livro de poemas dos meus 16 aos 23 anos de idade. A editora é tão louca que colocou isso na banca. A primeira edição saiu em 1980, a segunda edição em 1992 e a terceira agora.”

Humor tipicamente paulistano – as origens

Laerte, Angeli e Glauco protagonizam Los Três Amigos. Foto: Reprodução

“Eu e o Angeli somos suburbanos. Sou um caipira que vim para São Paulo com seis anos de idade. Meu pai era motorista de ônibus e o pai do Angeli era funileiro. O Paulo e o Chico Caruso são os  filhos gêmeos de um vendedor de carro, que era um homem miúdo casado com uma italiana com fama de brava. O Laerte é filho de um dos maiores cientistas do Brasil, o professor Coutinho da USP, que é uma sumidade em Geologia. O Laerte tem uma formação sólida, fala inglês, toca piano, tanto que deu no que deu … (risos). Ele tem uma cultura assombrosa e uma curiosidade absurda. O Luis Gê vem de uma família tranquila, o pai dele era uma pessoa organizada, um cara superinteligente. Ele fez arquitetura. Ah, e o Glauco veio de fora e foi embora antes da hora. Era de uma família do interior. Seu pai era bancário e faleceu muito cedo, aliás com a mesma idade do filho, mas de forma não tão trágica”.

“Todos eles eram apaixonados por quadrinhos e eu os conheci no ‘Movimento’ e no ‘Versus’. Estabeleci uma relação muito positiva com essas pessoas nessa época. E aí nasceu tudo isso. A gente passa a ser amigo, a ser irmão e isso vai replicar na Circo, que funcionou de 1984 a 1995”.

O Toninho sem a Circo

“A Circo acabou em 1995. Fiquei cinco anos longe disso, mas continuei trabalhando no Bank Boston, na Editora Moderna e em um monte de lugar. Voltei a editar com a Editora Devir e fiz mais de 28 livros por lá. Com a LPM também fiz 26 livros. Hoje, dirijo o selo editorial Peixe Grande, que tem a proposta de editar a histórias da pornografia, dos quadrinhos, da censura e da imprensa. Até agora já editamos os ‘Quadrinhos Sacanas’, ‘Maria Erótica’, ‘Vira Lata”, ‘A história da revista Grilo’ e o livro “E depois a maluca sou eu”, da Marisa”.

Começo, meio, mas não o fim

O gibi original Almanaque do Fantasma, de 1963, é o início da história de Toninho Mendes. Foto: Reprodução

“Esse aqui foi o primeiro gibi original que comprei na banca, pois antes só comprava gibi velho. Esse ‘Almanaque do Fantasma’, de 1963, abre a minha história. E esse livro “Humor Paulistano”, que organizei pela Sesi-SP Editora,  fecha essa parte da minha história.”

“O meu plano era chegar nesse livro. Aliás, a meta da Editora Peixe Grande era contar essa historia da Circo Editorial e estamos fazendo nesse livro ‘Humor Paulistano’, que está sendo lançado pela Sesi-SP Editora.”

“Este livro representa a documentação do Toninho Mendes como profissional. Percebo nele o que editei, o que fiz, o jeito com que lidei com as pessoas, a paciência que tive. Eu acho que editei melhor os livros do que a minha vida.”

“O livro é um fim de um ciclo. Mas não que eu vá parar de trabalhar. Tem muita coisa que não está no livro. Tem dois desdobramentos dele que eu estou atrás: uma exposição e um documentário em vídeo.”

Humor transformador

“Aqui tem uma teoria do humor paulistano e a coisa mais importante é isso. No capítulo 6, que encerra e dá título ao livro, escrito em parceria com o professor Roberto Elísio dos Santos, defendemos a tese de que o humor paulistano mudou a cara de toda a cultura brasileira. Todo o humor antes da Circo era muito banquinho  e violão, mulher, praia… A coisa do light, da turminha, não só o Rio de Janeiro, mas do Brasil pandeiro, das montanhas de Minas e do regionalismo dos Gaúchos.  E a Circo veio e deu uma porrada,, no sentido que é um humor muito forte. E os caras são muito bons. É difícil montar um time desses”.

Toninho Mendes. Foto: Beto Moussali/Fiesp

Circo mágico

“A Circo é como os Beatles. Estão prontos num porão de Liverpool ou num bairro de uma cidade como São Paulo. É essa a magia. Todos nós continuamos amigos.

Outra magia é que ele é um livro chapa-preta. Porque falo mal de mim mesmo aqui. Eu me dei esse direito. Já me ligaram e disseram: ‘Pô, você deixou publicar?’. E eu respondo: ‘Eu quis que publicasse’. Esse livro é chapa-preta porque os defeitos também estão aqui. Meus, principalmente, pois sou o autor e organizador.”

Sesi-SP Editora lança ‘Humor paulistano’, livro com trabalho de cartunistas consagrados

Agência Indusnet Fiesp

A trajetória dos 30 anos da Circo Editorial, editora de histórias em quadrinhos que consagrou nomes como Angeli, Laerte, Chico e Paulo Caruso, Glauco e Luis Gê é o tema do livro ”Humor paulistano”, de Toninho Mendes – novidade da editora do Serviço Social da Indústria de São Paulo, a Sesi-SP Editora. O livro será lançado neste sábado (26/04), às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Lançada no anos 1980, a Circo Editorial ganhou reconhecimento com publicações em que despontaram personagens marcantes dos quadrinhos: o militante de esquerda, o machista inveterado, o roqueiro drogado, o punk contestador, o casal neurótico, a secretária ninfomaníaca, os homens solitários.

Com 432 páginas, a obra – parte da Coleção Memória e Sociedade – traz amostragens de histórias em quadrinhos, tiras e cartuns marcados pela sátira social.

Serviço

Evento: lançamento de “Humor paulistano”, de Toninho Mendes
Data e horário: 26/05, 18h30
Local: Conjunto Nacional – Piso do Teatro (Avenida Paulista, 2073).

Gibiteca do Sesi promove bate-papo com cartunistas e oficina de nanquim

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

De 21 a 24 de novembro, os principais cartunistas brasileiros participam de uma programação especial, aberta ao público, em comemoração aos dez anos da Gibiteca do Sesi.

Na quarta-feira (21/11)  público poderá ouvir as experiências do idealizador da Gibiteca, Álvaro de Moya. Uma das autoridades no assunto, Álvaro é autor dos livros Shazam! , História das Histórias em Quadrinhos, O Mundo de Disney, Anos 50/50 Anos, Vapt-Vupt , Literatura Brasileira em Quadrinhos, entre outros.

Na quinta-feira (22/11) é a vez de um bate-papo com os principais cartunistas e chargistas contemporâneos brasileiros: LaerteAngeli.

Angeli é autor de personagens anárquicos e urbanos do cotidiano, como a Rê Bordosa, Os Skrotinhos, Bob Cuspe.  E Laerte é conhecido pelas tirinhas, como Os Piratas do Tietê e Los Três Amigos, publicadas nos principais jornais do país.

Já o criador do personagem Níquel Náusea, o cartunista Fernando Gonsales, participará de um bate-papo na sexta-feira (23/11).

Todos os encontros acontecem às 19h30, no Centro Cultural Vila Leopoldina, na Rua Carlos Weber, 835, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. A entrada é gratuita, mas as vagas são limitadas.

E para os interessados em aprender na prática um pouco mais sobre a cultura dos cartoons, charges e HQs, será promovida uma oficina de nanquim com José Wilson Magalhães, que foi arte-finalista das revistas americanas Wolverine e Avengers para a Marvel. A oficina acontece no sábado  (24/11), de 14h às 17h30.

Para mais informações, clique aqui.