Artigo: Educação financeira – uma janela para a sustentabilidade

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Por Andy de Santis*

Em 2006, ao ler o caderno temático “O consumo consciente do dinheiro e do crédito” (instituto Akatu), percebi que os motivos que nos levam ao endividamento financeiro são exatamente os mesmos que geram os desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais que tentamos enfrentar coletivamente como indivíduos e organizações que buscam a sustentabilidade. Detalharei melhor este raciocínio a seguir.

A estabilidade da moeda dos últimos vinte anos em conjunção com a queda do desemprego e a ascensão social de classes historicamente excluídas do mercado consumidor criaram o ambiente perfeito para que a população brasileira mergulhasse em um grande pote de melado chamado crédito.

Seduzidos por promessas de crédito fácil e “parcelas que cabem no bolso”, milhões de brasileiros vinham sendo conduzidos ao endividamento e à incapacidade de honrar os compromissos financeiros que assumem diariamente, fruto do consumo por impulso e da falta de reflexão sobre limites e prioridades. Ao satisfazerem desejos imediatos sem calcular os impactos dessas decisões no futuro, acabam soterrados por dívidas impagáveis que comprometem a realização de seus planos de longo prazo.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor em 2014 publicada pela CNC, mais de 60% das famílias brasileiras estão endividadas. Deste total, 19,4% atrasam os pagamentos, enquanto 6,3% estão inadimplentes, ou seja, não tem condições de cumprir com seus compromissos financeiros. Embora o percentual de endividados esteja em queda desde que a pesquisa começou a ser publicada em 2010, a parcela da renda familiar comprometida com dívidas é mais alta a cada ano.

Se o excesso de dívidas é o principal sintoma causado por escolhas individuais feitas sem reflexão e consciência, podemos igualmente afirmar que as mudanças climáticas, a escassez de recursos naturais, as crises financeiras e a desigualdade social são sintomas de escolhas coletivas impulsivas e inconscientes de seus impactos no presente e no futuro. Segundo a WWF, hoje o consumo da humanidade supera em 50% a capacidade de a Terra renovar seus recursos. É como se estivéssemos usando o “cheque especial” do planeta, único provedor e financiador dos recursos que nutrem e sustentam nosso modo de vida, e já se nota sua reação com a severa cobrança de juros em forma de catástrofes.

Este desafio exige profundas transformações na forma como indivíduos, organizações e nações operam e se organizam, por meio de um processo de ampliação de consciência sobre o que de fato é preciso ter para sustentar o ser. No centro da questão estão as nossas escolhas e a ressignificação de nossas necessidades.

Acredito que só teremos sucesso em reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, migrar para uma economia mais limpa, com menos desperdício e uso mais racional dos recursos, se soubermos conscientizar a todos sobre a urgência de repensar as prioridades, fazer escolhas mais conscientes e planejar as ações levando em conta as próximas gerações. Então a pergunta crucial neste caso é: Como acessar os corações e mentes das pessoas que tomam as decisões em suas famílias, empresas e governos?

Dizem que o órgão mais sensível do ser humano é o bolso. Boa parte das mudanças implementadas pelas indústrias para tornar suas operações mais sustentáveis foi e ainda é a necessidade de cortar gastos, eliminar gorduras e promover uma gestão mais eficiente. Se isso é verdade para as empresas, por que não pode ser para os cidadãos, que movimentam a economia a partir de suas decisões de consumo? Esclarecendo e aproveitando a conexão entre finanças saudáveis e consumo consciente, nós temos a oportunidade de utilizar a educação financeira como uma janela para introduzir uma conversa que pode ter efeitos muito positivos na sensibilização das pessoas sobre o preço de suas escolhas para o bolso, a economia, a sociedade e o planeta.

Esta foi a mola propulsora do livro que escrevi em parceria com Priscila Santos, chamado Liberdade financeira ao alcance de todos e publicado pela Editora Senac São Paulo. O propósito da obra é ampliar a consciência das pessoas para que façam escolhas mais alinhadas a seus valores e sonhos, sempre considerando os impactos de suas decisões para si mesmas, suas famílias e a sociedade, hoje e no futuro. O livro não traz respostas prontas, mas oferece perguntas e ferramentas para que o leitor possa refletir sobre esses impactos, riscos e oportunidades para ampliar sua liberdade financeira em harmonia com o ambiente em que vive.

*Andy de Santis é mestre em educação, consultora e autora dos livros Liberdade financeira ao alcance de todos (Ed. Senac SP), Educador financeiro: um novo sentido ao papel do bancário na sociedade (Ed. Appris) e Lições de Valor: Educação Financeira Escolar (Ed. Moderna).