Baixar juros não basta para elevar investimento da indústria, diz economista da Fiesp

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

André Rebelo, assessor para assuntos estratégicos da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine

André Rebelo, assessor para assuntos estratégicos da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine

Reduzir a taxa básica de juros Selic não é suficiente, por si só, para alavancar o investimento no setor produtivo do país. A avaliação é do economista André Rebelo, assessor para assuntos estratégicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Rebelo participou nesta terça-feira (18/09) do 9º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), evento coordenado em parceria com a Fiesp, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

“A indústria não está investindo porque ninguém aumenta a exposição em um negócio que dá retorno negativo”, afirmou Rebelo, citando a taxa de câmbio e o custo Brasil como principais entraves para o crescimento da atividade industrial no país. “Não adianta baixar a taxa de juros achando que vai aumentar [a atividade] porque não vai. O dinheiro da indústria é em função também da rentabilidade. E a realidade esperada não está indo bem em nenhum setor”, concluiu.

Segundo o economista, o Brasil experimentou, desde 2004, a valorização contínua do câmbio por oito anos consecutivos. “Esse ano deu um certo refresco”, referindo-se à elevação do valor do dólar, no segundo trimestre de 2012, para patamares ao redor de R$ 2.

Na avaliação de Rebelo, as reduções da taxa básica de juros Selic anunciadas pelo Comitê de Politica Monetária (Copom) do Banco Central – a taxa caiu para 7,5%, menor patamar da história – devem proporcionar uma desvalorização cambial. “Mas o câmbio muito acima de R$ 2 vai ser difícil de produzir”, avalia Rebelo.

Segundo cálculos da Fiesp, a indústria brasileira corresponde a pouco mais de 15% do PIB e é responsável pelo recolhimento de mais de 37% dos impostos cobrados no país. “A carga tributária em cima da indústria é muito grande. Na discussão de energia, por exemplo, os agentes do setor elétrico disseram que o problema do Brasil é a carga tributária que é muito elevada”, afirmou ele.

Energia

André Rebelo classifica a redução da tarifa de energia elétrica – em 16,2%, para residências e comércio, e entre 19,7% e 28%, para a indústria – como “passo importante” dado pelo governo, mas ressalvou que alguns detalhes ainda “estão em aberto.”

“A Fiesp defendia redução da energia para todo mundo, não só para indústria porque essa redução de energia vai devolver para o bolso dos consumidores algo na ordem de R$ 10 bilhões/ano”, afirmou Rebelo, acrescentando que a entidade está preparando estimativas. “A hora que colocar esse valor na mão da baixa renda, isso tem um efeito muito forte no consumo e vai dinamizar os setores”, concluiu.

Indústria paulista fecha 6 mil empregos em setembro

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O setor produtivo paulista fechou seis mil postos de trabalho em setembro, uma queda de 0,23% sobre agosto, levando em conta os efeitos sazonais. A queda na indústria de transformação foi de 0,62% na leitura mensal, com ajuste sazonal. A Fiesp e o Ciesp divulgaram os números em coletiva, nesta quinta-feira (13). Desconsiderando os efeitos sazonais, setembro é o pior mês da série histórica.

No acumulado do ano foram geradas 100 mil vagas, o que representa um crescimento de 3,87% de janeiro a setembro. A retração no quadro de empregos da indústria paulista já era esperada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) por conta da diminuição da demanda e principalmente pela substituição de produtos industrializados por importados.

“Já esperávamos isso antes desse episódio mais agudo da crise na Europa. Sem ajuste, esse é o primeiro setembro negativo da série que começou em 2006”, explicou André Rebelo, assessor de assuntos estratégicos da presidência da Fiesp. “A expectativa é que o ano encerre em torno de 0,5% ou próximo de zero.”

Do total de vagas fechadas, 2.028 correspondem ao setor sucroalcooleiro, o qual apresentou queda de 0,08% em setembro e uma variação negativa de 1,92% no acumulado do ano, com o fechamento de 49.532 postos. Os demais setores registraram, no entanto, resultado positivo de 5,79%, gerando 149.532 novos postos de trabalho no acumulado do ano.

As baixas no setor sucroalcooleiro exerceram uma forte pressão sobre o índice de emprego na indústria paulista em setembro uma vez que as quedas na moagem e produção de açúcar e álcool tem refletido um volume menor produzido na temporada 2011/12.

“Esse ano tivemos alguns problemas climáticos, a produção de cana apresentou quebra na ordem de 10 a 15%, e estamos terminando a safra antecipadamente, por isso temos um efeito mais negativo no emprego do que nos outros anos”, avaliou Rebelo.

Nível de Emprego – setembro 2011

Fiesp Federação das Indústrias do Estado de SP

 

Crise

Sobre o agravamento da crise financeira mundial, Rebelo estimou que os efeitos dessa piora serão sentidos no longo prazo, na medida em que os contratos de exportação sejam cancelados, os bancos fiquem mais restritivos nas operações de crédito por proteção, como ocorreu na crise de 2008.

“Acreditamos que esse movimento pode ocorrer com menor intensidade e de forma mais diluída no tempo. Não virá tudo de uma vez como foi em 2008”, explicou. “Por enquanto não há sinais de descontinuidade das operações de exportação e nem manifestações de dificuldades de credito externo. Assim, ainda não podemos falar de efeitos diretos e concretos da crise na atividade industrial e no emprego.”

Setores e regiões

Das atividades analisadas no levantamento, 11 tiveram comportamento negativo, uma ficou estável e outras 10 registraram variação positiva. Produtos Alimentícios concentrou a maior queda com 1,1% em setembro, seguido por Equipamentos de Informática, Produtos Eletrônicos e Ópticos com 0,9%.

Os segmentos de Produtos de Madeira e Bebidas fecharam o mês com alta de 1,2% e 1,1%, respectivamente.

O Índice de Emprego apurou, ainda, que das 36 regiões analisadas cinco apresentaram quadro estável, 17 registraram variação negativa e 14 computaram alta. Matão foi destaque entre os comportamentos de alta com 1,80%, puxado por Produtos Alimentícios (3,56%) e Produtos de Metal, exceto Máquinas e Equipamentos (1,68%). Em seguida, Jacareí registrou o segundo melhor indicador com alta de 1,50%, impulsionado pelos ganhos em Produtos de Metal, exceto Máquinas e Equipamentos (5,27%) e Produtos Têxteis (3,48%).

Dentre as regiões com comportamento negativo estão Presidente Prudente (-5,70%), Santa Barbara d´Oeste (-1,26%) e Cotia (-0,76%). A primeira foi influenciada pelos setores de Produtos Alimentícios (-13,41%) e Coque, Petróleo e Biocombustíveis (- 4,25%).

O índice de Santa Bárbara d`Oeste sofreu interferência dos setores de Confecção, Vestuário e Acessórios (-4,06%) e Máquinas e Equipamentos (-0,86%). Em Cotia, os segmentos que mais apresentaram queda foram Máquinas e Equipamentos (-2,65%) e Produtos de Borracha e Plástico (-1,30%).