Portador de deficiência auditiva participa pela primeira vez de prova mista no SP Skills

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Anderson do Nascimento Santos tem 20 anos, é aluno da escola Senai “Manoel Garcia Filho”, em Diadema, e já participou de outra disputa estadual do ensino profissional, a então Olimpíada do Conhecimento, hoje São Paulo Skills. Esse ano, ele está estreando no torneio, ainda que na mesma modalidade: Anderson é o primeiro competidor com deficiência auditiva a participar das mesmas provas que alunos ouvintes.

O SP Skills é uma iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Sã Paulo (Senai-SP) e segue até o domingo (29/09) no Anhembi, na capital paulista.

“Isso é inédito”, afirma o professor Vladimir Pinheiro de Oliveira, um dos coordenadores da modalidade Desenho Mecânico em CAD (Desenho e Projeto Assistido pelo Computador em tradução livre), na qual Anderson compete. “É fascinante”, diz Oliveira.

Aluno do Senai-SP há pouco mais de três anos, Anderson é o terceiro de quatro filhos e mora com os pais em Santo André . Ele gosta de desenhar e de fazer trabalhos no Photoshop. Pretende fazer faculdade de engenharia, embora reconheça que o acesso de pessoas com deficiência auditiva a determinados cursos ainda é muito fechado.

“É pura ignorância porque o surdo é como um ouvinte, só que ele fala outra língua. Tem cursos, como o de arte, que ainda não são liberados para pessoas com deficiência auditiva”, diz.

Anderson, à esquerda, e Ricardo: gosto por "coisas difíceis" e vontade de se superar. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Anderson, à esquerda, e Ricardo: gosto por "coisas difíceis" e vontade de se superar. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Na competição, ele propõe soluções para problemas que enfrentaria na rotina de produção de uma indústria. Durante seis horas de provas, Anderson faz cálculos e aplica tecnologias para superar esses desafios.

“Essas tarefas são baseadas em conhecimentos tecnológicos da área mecânica e envolvem um pouco de resistências materiais, desenho técnico, usinagem, montagem, processo de fabricação de máquinas e componentes”, explica o coordenador.

Após competir em 2011 em uma etapa estadual só com uma turma de portadores de deficiência auditiva, Anderson afirma que o nível de dificuldade deste ano é maior, “mas eu gosto de fazer coisas difíceis”.

Visão espacial

Segundo Fernando Telli, também coordenador da modalidade CAD, a visão espacial de Anderson na execução de cada tarefa se destaca entre os demais competidores.

“Por ser um software muito visual, o lúdico do competidor é bem mais aguçado. É muito interessante ver isso”, diz Telli. Na competição, os alunos do Senai têm de resolver problemáticas utilizando o software Autodesk Inventor Professional.

Por conta da linguagem diferente, Anderson é acompanhado por um intérprete durante a rotina das provas. Ricardo Amaral, que é intérprete da linguagem de libras do Senai de Diadema há três anos, afirma que o principal desafio é criar sinais para termos técnicos.

“É um pouco mais complexo porque não existem sinais para termos como engrenamento, por exemplo. Então, na escola, nós convencionamos alguns sinais para o nosso método de ensino”, afirma o intérprete.

Desde 2001

Não é a primeira vez que pessoas com deficiência física participam de campeonatos de ensino profissionalizante. Segundo professor Rogério Melaré, a primeira vez que alunos com deficiência participaram foi em 2001.

Melaré é coordenador da modalidade TI – Solução de Software para pessoas com deficiência visual, um grupo de com quatro alunos que elaboram soluções para agências de turismo.

“Eles criam banco de dados de clientes, de hotéis, de fornecedores de produtos”, diz. “Depois, eles manipulam esses cadastros e fazem um filtro por gênero e faixa etária”, explica o coordenador sobre uma das tarefas do grupo.

Ele coordena a equipe com a ajuda de Wesley Gamaliel, campeão da modalidade para cegos no torneio de 2012.

“É a oportunidade que a gente tem para mostrar que, com suporte, a gente consegue vencer as nossas limitações e mostrar para todo mundo que quem tem deficiência também é capaz”, afirma Gamaliel.

Luiz Antônio Gomes, também está no torneio para vencer não só as provas, mas superar suas limitações. O segurança de 51 anos perdeu a visão aos 48 por um descolamento de retina.

Casado e pai de quatro filhos, Luiz está buscando maneiras de ir além das suas dificuldades.

“Eu tenho que mostrar que sou capaz, devo isso aos meus amigos e familiares. Perdi apenas a visão, mas não a capacidade de fazer muitas coisas”. Aluno da escola Senai Suíço-Brasileira Paulo Ernesto Tolle, Luiz deixa o bairro de Carandiru, na zona norte de São Paulo onde mora com a família, todos os dias para estudar na escola em Santo Amaro, sul da capital.

Luiz: pai de quatro filhos e capacidade de "fazer muitas coisas". Foto: Everton Amaro/Fiesp

Luiz perdeu a visão: pai de quatro filhos e capacidade de "fazer muitas coisas". Foto: Everton Amaro/Fiesp

Resolver problemas

Incluir pessoas como Anderson, Wesley e Luiz em competições como o São Paulo Skills deveria ser apenas um aspecto da responsabilidade da sociedade para com os cidadãos, avalia o professor Vladimir de Oliveira.

“Nós sentimos que isso é uma responsabilidade nossa como profissionais, mas deve ser assim com tudo”, afirma Oliveira. “Eu tenho que contribuir para que a sociedade seja melhor”, diz. “Quando me tornei educador, minha missão ficou maior ainda. Eu tenho que ser um facilitador de aquisição do conhecimento”.