Workshop debate novo marco das agências reguladoras na Fiesp

Isabela Barros e Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Foi realizado, nesta sexta-feira (17/08), na sede da Fiesp, em São Paulo, o Workshop de Infraestrutura: Novo Marco das Agências Reguladoras. O evento foi organizado pelo Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da federação, sendo moderado pelo diretor adjunto da divisão de Logística e Transportes do setor, Luis Felipe Valerim Pinheiro, e pelo diretor titular adjunto do Deinfra, Lucien Belmonte.

“Destacamos a importância da tomada de decisões técnicas e independentes”, disse Pinheiro. “Temos que aprimorar o que é importante e uniformizar o que nós ainda não conseguimos”, afirmou. “Debater o que não funcionou, ver em que pé estamos e para onde iremos, a lei tem que ser elaborada com esse foco”.

Deputado e presidente da Comissão Especial que analisou a Lei Geral das Agências Reguladoras, Eduardo Cury apresentou um histórico do projeto da Lei Geral das Agências Reguladoras. “É preciso dar um pouco de segurança jurídica ao estado e aos servidores públicos que se sentem desconfortáveis por uma legislação falha”, disse.

Entre os avanços na discussão, Cury apontou a autonomia financeira, orçamentária e administrativa das agências. “Entre outros pontos, como o processo seletivo público para a escolha dos dirigentes, reduzindo a influência político-partidária”.

Subchefe de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil, Marcelo Pacheco dos Guaranys destacou a efetivação da autonomia com padronização de aspectos relativos à gestão, organização, governança, processo decisório e controle social.

“No dia a dia, dirigentes das agências precisam pedir autorização aos ministros para mandar funcionários para viagens ao exterior, por exemplo”, explicou. “É importante ter autonomia orçamentária, financeira e administrativa”, disse. “Aumentar a transparência, criar ouvidoria autônoma e prestar contas”.

Outros pontos destacados por Guaranys foram a articulação institucional entre agências e com órgãos de defesa da concorrência, de defesa do consumidor, do meio ambiente e órgãos de regulação. E o fim da quarentena prévia de um ano para indicação de dirigentes oriundos do setor privado. “Existe ainda a obrigação das agências compatibilizarem seus planos com o disposto no Plano Plurianual do governo”, afirmou. “E o estabelecimento de limites ao controle externo do TCU”.

Menos custo de capital

Joísa Dutra, diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura da FGV/Ceri, falou sobre transparência, cumprimento da lei, ferramentas à disposição do regulador e cumprimento das funções.

“Como a regulação afeta incentivos e investimentos? ”, questionou. “Como pode reduzir o custo do capital? ”.

Sócio do Xavier Vasconcelos Valerim Advogados, Beto Vasconcelos trouxe para o debate questão como transparência, governança, avaliação de impacto e controle. “O esforço de uniformização de um marco regulatório por si só é positivo, assim como a organização de uma agenda”, disse. “Estabelecer a obrigação de relatórios anuais e planos de comunicação são básicos”, afirmou. “Precisamos avançar em transparência, traduzir as informações para os servidores e os consumidores”.

Para ele, existe ainda a preocupação com a independência financeira das agências. “Discutimos superfaturamento e esquecemos da receita”, disse.

O controle do trabalho desses órgãos também foi citado. “Para cada servidor, até sete controladores do trabalho”, disse. “Esse 7x 1 está levando a uma paralisia do processo de tomada de decisão”, explicou. “O servidor gasta boa parte do seu tempo elaborando relatórios de resposta ao controle”, explicou. “Perdemos o controle do controle”.

Workshop na Fiesp sobre o novo marco das agências regulatórias. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Workshop na Fiesp sobre o novo marco das agências regulatórias. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Questão de autonomia  

Cleveland Prates Teixeira, sócio diretor na Microanalysis Consultoria Econômica, apontou que a regra deve ser “a não intervenção do estado”. “O mercado que funcione por conta própria, mesmo não sendo perfeito”, disse. “A autonomia das agências deve existir”.

Para Teixeira, o regulador deve “buscar atender os anseios da sociedade, pensar em qualidade e menor preço, com atenção ao desenvolvimento tecnológico”. “Uma boa agência reguladora deve ter independência decisória, autonomia financeira e gerencial, estrutura adequada e qualificação técnica e submissão a mecanismos de prestação de contas”.

Felipe de Paula, sócio do Levy & Salomão Advogados, afirmo achar o projeto de lei “muito positivo”. “Passou da hora de ser aprovado”, disse.

“A lei não resolve muita coisa, é no dia a dia que a gente vai acompanhar tudo”.

Segundo ele, há elementos a serem adicionados à discussão, como a avaliação a posteriori e o controle de estoque, entre outros.

Juliana Bonarcosi de Palma, professora da FGV Direito SP/GVLaw, lembrou a necessidade de “blindar” o PL 6.621/16 do ponto de vista político. “É importante que ocorra uma mudança de comportamento”, disse.

Segundo ela, há demora nas nomeações nas agências e não são recolhidas multas pela judicialização. “O PL precisa ser aprovado”, afirmou.

Visão das agências

O seminário continuou com o painel Visão das Agências Reguladoras sobre o PL, moderado por Lucien Belmonte, diretor titular adjunto do Deinfra, que destacou que o painel trataria das questões do dia a dia de suas áreas. “Agência reguladora é fundamental para o modelo de investimento que queremos”, afirmou, enfatizando que é preciso que haja eficiência.

Waldyr Barroso, assessor de Gabinete do diretor geral da ANP, disse que o PL é “um bom começo”, permitindo ver as agências reguladoras como de Estado, não de governo. “Elas não podem ser usadas para criar políticas públicas.” Em sua opinião, o preâmbulo do capítulo 3, que trata da autonomia, é fundamental para as agências.

Pela complexidade dos temas analisados, Barroso defendeu 45 dias como rito mínimo para as decisões das agências reguladoras.

A criação de uma lista de substituição pelo PL também foi elogiada por Barros. “Cria uma obrigatoriedade, que elimina a vacância na diretoria das agências.” Defendeu “todos os esforços possíveis para que o projeto seja aprovado”.

Juarez Quadros, presidente da Anatel, destacou que há cinco anos se estuda o projeto, que tem sua origem em outra proposta, de 2013. “É importante pela natureza especial que dá às agências”, embora não vede a prática de contingenciamento orçamentário. “Não se pode falar em autonomia administrativa sem autonomia orçamentária”, afirmou. Quanto aos prazos, defende que cada agência os defina de acordo com suas necessidades.

Yoshihiro Lima Nemoto, superintendente da ANTT, disse que o projeto é extremamente necessário, mas a simples publicação de uma lei não muda a realidade. Recuou a 2004 como origem da proposta de uma lei geral de agências reguladoras.

A redação do item sobre critérios para a escolha de diretores deveria voltar à original, antes de ser alterada na Câmara, defendeu.

Como desafios citou dois, “muito complexos”. O primeiro é o protagonismo regulatório, fazendo a regulação com base em evidências, com a clara definição do problema a ser enfrentado, com análise do impacto regulatório e monitoramento. Deu como exemplo o tabelamento do frete, que a ANTT foi legalmente obrigada a adotar, provocando prejuízo de R$ 470 milhões por mês. O que cabe agora, diz, á acompanhar o problema e gerar informações para sua reversão.

Em relação aos órgãos de controle, defendeu clareza na troca de informações, para reduzir a assimetria entre as interpretações do trabalho das agências.

O segundo ponto, governança regulatória, requer melhora da agenda regulatória, priorizando os temas definidos pela diretoria, e é preciso haver capacidade técnica para tratar deles. Nemoto também destacou a importância da desburocratização.

Lucien destacou da apresentação de Nemoto o protagonismo regulatório, a modicidade tarifária (que deveria ser substituída por realismo tarifário) e o entendimento de que muitas vezes se trata de regimento interno e não de legislação.

Mário Povia, diretor geral da Antaq, considera grande avanço a vinculação orçamentária direta com o Ministério do Planejamento, embora falte a vedação ao contingenciamento orçamentário. Destacou que são modestos os orçamentos das agências. Para Povia é problemático o controle externo, para o qual não é estabelecido limite no projeto de lei. Há o risco de não serem implantadas as determinações das agências. Vê como problema a judicialização, com juízes alterando determinações das agências.

Christianne Dias Ferreira, presidente da ANA, disse que sua agencia também vê avanços no projeto. Destacou novos papeis da ANA em relação ao saneamento. Recursos para o setor só serão liberados para os municípios que seguirem as normas criadas pela ANA, ressaltou.

Crise Hídrica – Publicadas regras de captação nos rios Jaguari, Camanducaia e Atibaia

Solange Borges para Agência Indusnet Fiesp

Na última quinta-feira (22/01), foi publicada a Resolução Conjunta da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) de nº 50 que estabelece regras e condições de restrição de uso para captações superficiais de água nas bacias dos rios Jaguari, Camanducaia e Atibaia (PCJ) pelos usuários do setor industrial, agricultura, operadoras de abastecimento de água e outros.

As novas regras têm validade por prazo indeterminado, enquanto o volume útil dos reservatórios do Sistema Cantareira estiver abaixo de 5% lembrando que, no momento, estamos usando a reserva estratégica ou chamado “volume morto”.

Desta forma, as restrições de captação de água poderão incidir sobre os usuários das Bacias dos rios Jaguari, Camanducaia e Atibaia de acordo com as vazões disponíveis nos rios, que definirão os seguintes “Estados das Vazões”: 

ESTADO DE
ALERTA
não haverá restrição de uso para captação de água superficial, porém é um indicador de atenção para todos os usuários quanto a possibilidade de uma restrição imediata da captação de água.
ESTADO DE RESTRIÇÃO todas as captações de água superficial devem ser reduzidas conforme abaixo:

  • redução de 20% no uso do volume diário outorgado para captação de água para o consumo humano ou dessedentação animal;
  • redução de 30% no uso do volume diário outorgado para captações de água para uso industrial e irrigação;
  • paralisação dos demais usos. 

 

Para conhecer o Estado das Vazões, os usuários devem acessar a página eletrônica da Sala de Situação PCJ – Piracicaba, Capivari e Jundiaí, todas as segundas e quintas-feiras, quando haverá a publicação de novas informações.

 

RECOMENDAÇÕES IMPORTANTES: 

1 – A entrada em “Estado de Restrição” ocorrerá a partir das 0h do dia subsequente à disponibilização da informação na Sala de Situação do PCJ e a saída dele ocorrerá imediatamente após a publicação da informação no referido site.

2 – Para comprovar o atendimento dessa resolução, quando indicado o Estado de Restrição, os usuários devem monitorar e manter disponíveis os registros dos volumes diários captados, bem como do horário de captação.

3-  Esteja sempre atento às informações de Estado de Vazão indicados na Sala de Situação PCJ, por meio do website: www.sspcj.org.br.

Para mais informações e dicas para enfrentamento da crise nas empresas, acesse publicações a seguir:

Cartilha “Gerenciando a escassez de Água na Indústria” 
produzida pelo Departamento de Meio Ambiente da Fiesp e Ciesp
Lista de municípios afetados e outros detalhes das regras da resolução
fonte: site da ANA
Infográfico explicativo sobre as Regras de Uso do PCJ
fonte: ANA

 

 

ANA vai implementar restrições de uso de água na bacia do rio Piracicaba

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

A Agência Nacional de Águas (ANA) deve anunciar em breve uma resolução que vai restringir o uso das águas na Bacia do Piracicaba. A informação é de Patrick Thadeu Thomas, superintendente adjunto da Superintendência da Regulação da ANA.

Patrick Thomas, superintendente adjunto da ANA, mostra no mapa a zona brasileira mais afetada pela estiagem. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Em reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na tarde desta quarta-feira (10/12), Thomas disse que o órgão regulador está nos preparativos finais de uma medida que prevê uma redução, para uso industrial, de 30% do volume diário outorgado. Para abastecimento público ou uso animal a redução é de 20% do volume diário outorgado.

Para a irrigação, a redução também é de 30%. Com a medida, os demais usos ficam suspensos, exceto para a aquicultura.

“O pior cenário a ser evitado é faltar água”, explicou o superintendente adjunto da ANA.

Segundo ele, os níveis de água no rio Piracicaba variam muito e, por isso, a regra será aplicada de acordo com as vazões de referência em quatro regiões com postos fluviométricos de controle: Alto Atibaia, Baixo Atibaia, Camanducaia e Jaguari. “Se baixar o nível [de vazão], a regra entra em vigor. Choveu, para a regra. Parou de chover, a regra entra em vigor”, exemplificou Thomas.

A primeira recomendação do superintendente adjunto da ANA é de adaptar as captações à flutuação do rio, implementando um sistema de captação flutuante. “Tem ‘ene’ formas de engenharia de adaptar a captação”, disse.

A captação acima de 10 litros por segundo tem que ter registro de medição. De acordo com a nova minuta, no caso dos usuários com menos de 10 litros por segundo que não tenham medição, valem as seguintes condições: suspensão da captação das 7h às 13h para as captações de água para uso industrial e suspensão da captação das 12h às 18h para as captações de água para irrigação ou dessedentação animal.

As empresas devem controlar por planilhas e a fiscalização pode acontecer a qualquer momento.

Estiagem

Patrick Thomas: medida visa evitar falta de água na bacia do Piracicaba. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Apresentando gráficos e mapas, Thomas mostrou que a região Sudeste –especialmente um círculo com parte dos estados de São Paulo e de Minas Gerais – passa pela pior estiagem dos 84 anos em que é feita a medição. Até então, o ano mais seco havia sido o de 1953, informou o superintendente adjunto.

“A gente percebe que neste ano as vazões estiveram abaixo do pior [ano] da história”, disse ele, afirmando que não houve recuperação no mês de outubro, momento em que costuma haver uma mudança no comportamento das chuvas.

Segundo Thomas, para que o Sistema Cantareira tenha as mesmas condições observadas no dia 01/05/14, será preciso que as chuvas nesses próximos meses registrem ao menos 80% da vazão média histórica.

“Temos sempre se preparar para o pior cenário, que é a de não recuperação”, alertou.

Oferta de água também marca desigualdades sociais no cenário das grandes cidades

Empresários, especialistas e autoridades de meio ambiente discutiram na Fiesp, na quinta-feira (22), os desafios do setor público e privado para atender às exigências da Portaria nº 2914/11 e que estabelece novos padrões de potabilidade da água, em seminário que marcou o Dia Mundial da Água.

Para Eldis Camargo, assessora do Procurador-Geral da Agência Nacional de Águas (ANA), “a Constituição assegura direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. E as Nações Unidas entendem o direito à água potável e ao saneamento como um direito fundamental”.

A docente Helena Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que 33 municípios da federação não têm abastecimento de água. “As cidades brasileiras são marcadas por enormes desigualdades nos padrões de qualidade de vida, inclusão social e cidadania”, afirmou, sinalizando que é preciso atenção com as áreas sem saneamento e chuvas escassas.

O secretário-adjunto Rogério Menezes, da pasta de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado, salientou que a macrometrópole agrega 180 municípios, 75% da população e 77% do PIB estadual. “É um desafio em termos de abastecimento urbano, industrial e para a irrigação”, analisou.

Segundo Menezes, há uma forte demanda provocada, inclusive, por um cenário de crescimento econômico acima das expectativas. “Nas últimas décadas, 56% da população encontravam-se na área rural (1940) e, no início de 1990, a proporção alcançou 96% em área urbana”, comparou para dimensionar a perspectiva do processo de abastecimento.

Nos painéis finais do seminário, foi sinalizada a criação de comitê permanente para gestão integrada da qualidade de água para consumo humano, que envolverá Secretarias do Meio Ambiente, Saúde e Saneamento e Recursos Hídricos. Esta ação é avaliada como fundamental para resolver questões desta magnitude e, ao mesmo tempo, preservar áreas de mananciais, vitais o abastecimento de São Paulo.