Artigo: O modelo colaborativo dos parques ecoindustriais

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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.


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Por Ana Maria Gati*

Durante os estudos da minha tese de doutorado sobre práticas sustentáveis na indústria, me deparei com problemas clássicos que já vivi nas empresas, onde a justificativa de projetos sustentáveis nem sempre consegue ser viabilizada dentro de uma única unidade industrial. Em geral, os projetos de grande porte como reutilização de água, manuseio e transformação de resíduos em matérias primas, os projetos que buscam uma cadeia produtiva sustentável onde “saídas são transformadas em entradas”.

Muitas vezes esses projetos estão alinhados às boas práticas sociais e ambientais, entretanto não conseguem atingir justificativas financeiras alinhadas às práticas tradicionais das empresas.

Contudo, sempre existem oportunidades para melhoria.

O desenvolvimento de parques ecoindustriais é uma mostra interessante de como muitos desafios de projetos sustentáveis podem ser superados. Eles conseguem atingir um grau elevado de atendimento às necessidades do meio ambiente de forma equilibrada. Um primeiro e mais conhecido modelo de parque ecoindustrial está localizado na Dinamarca, em Kalundborg. Esse parque foi desenvolvido pouco a pouco com forte cooperação entre as indústrias nele instaladas. Além da colaboração entre as indústrias, existe também colaboração com a comunidade ao seu redor, fornecendo aquecimento para residências e direcionando produtos residuais para agricultura e pecuária, dentre outras iniciativas. Portanto, essas simbioses entre as indústrias e as comunidades levam a uma redução de custo e melhores práticas ambientais e sociais.

O parque de Herdersburg, na Bélgica, que tomou como meta atingir a neutralidade de emissão de CO2, possui cerca de 92 pequenas e médias empresas, um incinerador e uma planta de energia (que também gera energia para a comunidade). Em 2007, ele fez um inventário de emissão de CO2 com objetivo de identificar os principais emissores e definiu os planos de melhorias para os principais contribuintes da emissão de carbono: substituição de turbinas eólicas por unidades mais potentes, aumento da utilização de painéis fotovoltaicos, uma nova planta de biomassa, pequenos projetos de eficiência energia e melhoria das construções para um padrão mais ecológico. Os projetos foram analisados e realizados em conjunto pelas empresas, que atingiram retorno sobre investimento de 3 a 7 anos: ambição essa quase impossível se fosse realizado pelas empresas individualmente. 

Entretanto, esse não pode ser um modelo somente de países desenvolvidos. As necessidades nas regiões em desenvolvimento são ainda maiores e mais desafiadoras. Um exemplo é a iniciativa na China, com seu forte desempenho industrial nas últimas décadas não tinha nenhuma regulamentação ambiental até aos anos 90. Porém, a partir de 1997 adotando conceitos de parques ecoindustriais, apoiados por instituições governamentais, criou um programa de sustentabilidade, esse se tornou um programa de participação voluntária. Em 2011 cerca de 15 parques foram certificados no país. Ainda um número pequeno de certificações perante o grande número de parques industriais que a China possui, entretanto agora existe um estímulo para melhorar as condições atuais.

E no Brasil?  Como podemos mobilizar empresas e comunidades a colaborarem de forma estruturada no desenvolvimento de parques ecoindustrias? Certamente apoio de entidades de classe para que iniciativa seja bem sucedida e se torne modelo piloto para outros empreendimentos será muito importante nesse processo. Além disso, a criação desse modelo nos daria um novo horizonte para o desenvolvimento de novos parques industriais ou de transformação dos parques já existentes.

*Ana Maria Gati é consultora em gestão de operações industriais, doutoranda em Administração na FEA-USP em sustentabilidade e Inovação, Mestre em Gestão de Operações Industriais e Inovação, foi também Diretora das Operações  Industrias da Avon Cosméticos e Mars Incorporated.