ARTIGO: IGUALDADE DE GÊNERO – O QUE AS ORGANIZAÇÕES TÊM A VER COM ISSO?

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*Por Ana Diniz

O dia internacional das mulheres, celebrado em 8 de março, lança luz sobre questões que importam a todos nós. Mais do que uma comemoração, a data nos convida a refletir sobre a persistente discriminação sofrida por mulheres e meninas em todo o mundo. Violência doméstica e sexual, assédio moral, agressões de toda ordem, pobreza, desemprego, baixa representação em espaços de poder e decisão, entre outros problemas, afetam especialmente as mulheres. Evidenciam, assim, que a igualdade de gênero tão almejada ainda não foi alcançada, por mais que importantes avanços possam ser observados.

O espaço do trabalho não é uma exceção nesse processo. Por um lado, assiste-se à crescente ocupação de organizações de trabalho pelas mulheres, inclusive em cargos decisórios e estratégicos. Por outro, persistem disparidades salariais – mesmo no desempenho das mesmas funções –, “teto de vidro”, precarização do trabalho, e assédios moral e sexual nos cotidianos organizacionais. Isso se torna ainda mais evidente se considerarmos as realidades de mulheres negras e pobres, as quais constituem o grupo mais vulnerável no cenário nacional.

Nesse contexto de avanços e continuidades, algumas questões emergem: as organizações têm algo a ver com isso? Podem elas ser, também, um espaço de transformações?

Diferentes iniciativas têm buscado contribuir para que as organizações dêem um “sim” bem sonoro a essas questões. Entre elas, destacam-se iniciativas educacionais levadas a cabo por instituições de ensino e, mesmo, por empresas. Exemplo disso é a disciplina “Questões de Gênero nas Organizações”, oferecida na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP). Patrocinada pela Avon e liderada pela Professora Maria José Tonelli, a disciplina busca introduzir a temática na graduação, por meio da discussão de pesquisas acadêmicas e da realização de palestras com profissionais e especialistas na área. Trata-se de uma iniciativa pioneira em escolas de gestão brasileira, que convida futuras/os gestoras/es públicos e privados a desenvolverem soluções inovadoras para as questões de gênero nas organizações. Os trabalhos são, posteriormente, apresentados a uma banca examinadora, sendo os melhores projetos premiados com uma viagem para o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Avon nos Estados Unidos.

No mesmo sentido, empresas têm realizado cursos e capacitações a fim de sensibilizar gestoras/es e funcionárias/os. Têm desenvolvido, ainda, pesquisas com dados desagregados por gênero e raça/etnia, a fim de melhor conhecer o tema. Exemplos disso são os recentes estudos sobre “O papel do homem na desconstrução do machismo”, realizado pelo Instituto Avon, e sobre “O envelhecimento da força de trabalho”, realizado pelo Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da FGV, em parceria com a PWC. Somam-se a essas ações, a criação de ouvidorias e comissões de ética, especialmente para lidar com o assédio moral e sexual; a alteração de nomenclaturas e de materiais de comunicação, rompendo com estereótipos de gênero; a revisão de procedimentos de recrutamento e seleção e relacionados à saúde, com ampliação de licenças maternidade e paternidade, concessão de auxílio creche para mulheres e homens e reconhecimento de uniões homoafetivas; entre outras ações desenvolvidas por empresas dos mais diferentes setores.

Essas iniciativas buscam não só chamar atenção para as diferentes formas de desigualdade de gênero que marcam as organizações de trabalho, mas também ressaltar como esse espaço pode produzir novas discriminações – ou, até mesmo, contribuir para superá-las. As organizações passam a ser vistas, assim, não só como espaços onde desigualdades, trazidas de fora, são reproduzidas. Essas são também lugares de produção de formas particulares de discriminação, características dos espaços de trabalho. Nesse sentido, futuras/os e atuais gestoras/es e funcionárias/os são convocadas/os a refletir sobre como as práticas organizacionais participam desse cenário.

Um dos elementos questionados nesse processo refere-se às estruturas organizacionais e práticas gerenciais. Desta forma, os instrumentos e procedimentos que norteiam as dinâmicas organizacionais deixam de ser vistos como uma simples “técnica”, algo neutro que não afeta as relações entre as pessoas. Passam, assim, a serem encarados como princípios ativos de construção das realidades organizacionais, que podem contribuir para a produção de desigualdades. Nesse contexto, devem ser analisados com cautela e revistos, de modo a favorecer a inserção mais justa e igualitária das mulheres no trabalho.

Algumas iniciativas governamentais têm, também, buscado contribuir com esse processo. Esse é o caso, por exemplo, do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça. Criado em 2005, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU MULHERES), o programa objetiva desenvolver novas concepções e práticas de Gestão de Pessoas e Cultura Organizacional. Este é voltado para organizações públicas e privadas, de médio e grande porte. Após aderirem ao programa, essas organizações desenvolvem um plano de ação para a promoção da igualdade. Ao final, a implantação do plano é avaliada e, caso tenha sido bem sucedida, a organização é premiada com o Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça. Desde 2005, o programa já contou com mais de 300 participações.

No mesmo sentido, organizações têm investido em programas de Gestão da Diversidade. Desenvolvida nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, a Gestão da Diversidade foi introduzida no Brasil recentemente, sendo as primeiras iniciativas na área desenvolvidas por multinacionais norte-americanas no início dos anos 2000. Desde então, assiste-se a disseminação desses programas, também em empresas nacionais. Frequentemente relacionados a ações de Responsabilidade Social Empresarial, esses programas propõem formas específicas de gestão da diversidade cultural – não só de gênero – nas organizações, buscando, com isso, tanto construir espaços de trabalho mais justos, quanto aproveitar a diversidade para a melhoria do desempenho organizacional.

A persistência das desigualdades de gênero nos mais diferentes cenários evidencia, contudo, que é preciso fazer mais. As iniciativas desenvolvidas até então são relevantes, mas não têm se mostrado suficientes para virarmos esse jogo. Um passo importante nesse processo seria as/os membras/os organizacionais, principalmente gestoras/es, analisarem as realidades organizacionais em que estão inseridas/os e questionarem o que têm sido feito, do ponto de vista institucional, para alterar essa realidade – e o que poderia ser feito diferente. Nesse processo, é importante considerar, contudo, que não fazer nada significa, muitas vezes, contribuir para a continuidade das desigualdades.

*Ana Diniz – Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP) e Mestre em Administração pelo Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/CEPEAD).